cap 04 sempre jogo pra ganhar

1138 Palavras
Imperador Acordei antes do sol bater nas lajes. Favela acorda cedo, irmão. Tráfico não dorme, muito menos eu. Já desci pra contenção logo cedo, tomei um café forte com os cria do beco de cima, dei um salve no radinho, colei no giro. Gosto de ver as paradas com meus próprios olhos, tá ligado? Deixar na mão dos outros é abrir brecha pra vacilo. E aqui no morro, quem vacila... sangra. Passei na Grota, olhei a carga, contei os pacotes, troquei ideia com o piloto que tava vindo da Maré e já chamei o Binho pra trocar visão. Ele é meu braço direito. Confio mais nele do que na p***a do meu sangue. Cria comigo, visão avançada, firmeza no que faz. Se eu cair, ele é quem segura a responsa. A gente subiu pra laje do QG, a vista dali mostra a favela inteira se curvando no meu pé. E ele já veio com a visão torta. Binho: — Chefe, a entrega de sexta vai travar. Polícia parou o caminhão no túnel. O motorista arregou. Imperador: — Então desenrola outro. Bota o "Desce" nesse corre, ele é zica, não pipoca. Binho: — Deixa comigo. Agora... a fita da Yasmin... vai deixar barato? Na hora que ele falou o nome dela, o sangue ferveu. Traguei o cigarro seco. Respirei pela narina, firme. Imperador: — Aquela ali... é diferente. Marrenta. Mas não é de gracinha. Binho: — Só que ela viu coisa que não podia, chefe... Imperador: — Eu sei o que ela viu, p***a. Só tô decidindo se eu engulo ou engasgo com isso. Binho ficou na miúda. Ele me conhece. Sabe quando não é hora de insistir. Mas a real é que, desde que aquela mulher saiu da minha laje com aquele olhar de quem não teme p***a nenhuma... ela tá grudada na minha mente igual chiclete em sola de tênis. Tem algo nela que me tira do eixo, cutuca meu instinto, acende o lado sujo da minha alma. Aquele olhar reto, aquela língua afiada, aquele orgulho que parece gritar "não te devo nada". É isso que me instiga. Porque ela não abaixa a cabeça. E eu sou o tipo de homem que aprendeu a dominar tudo que tenta se manter de pé na minha frente. [. . .] Já era noite quando decidi descer pro Bar do Zeca. Dia cheio, mente cheia, radinho tocando o tempo todo com problema. Tinha feito tudo que tinha que fazer no morro: cobrado, pago, punido e mandado. Mas nem assim... ela saía da minha cabeça. Botei a Glock na cintura, blusa preta, boné aba reta e desci com o Binho e dois cria firmeza na contenção. A rua tava movimentada. Favela viva, som tocando, cheiro de carne assando em alguma laje por perto, criança correndo descalça. Cenário comum. Mas eu? Nunca fui comum. Entrei no bar com o peito estufado. Todo mundo que me viu... desviou o olhar. E sempre assim. Meu nome pesa, minha presença cala. Sou respeitado. Ou temido. Tanto faz. Sentei na nossa mesa de sempre, no canto. Vista pro salão todo. Chamei o Zeca, pedi a de sempre. Imperador: — Traz a gelada, seu Zeca. E capricha, hein. Acendi o cigarro, dei o primeiro trago e fiquei só observando o ambiente, quieto, na minha. Mas alerta. E aí... ela chegou. Yasmin. Entrou como quem não devia nada pra ninguém. Rindo alto com umas amigas, cabelo solto, rebolado leve e firme. Postura de mulher que sabe o que carrega. O corpo dela? Criminoso. Sainha curta que subia quando ela andava. Blusinha agarrada mostrando cada curva daquele corpo que parecia ter sido desenhado pra provocar pecado. Na moral... a visão me deixou duro só de olhar. Meu copo tava na mão. A cerveja, gelada. Mas no instante que ela passou... o gelo derreteu. Imperador: — p**a que pariu... Binho: — Que foi, chefe? Imperador: — A professora, caralho... Ele olhou, soltou aquele assobio baixo. Imperador: — Desgraça linda, do jeito que eu gosto. Ela me viu. Parou. Travou por meio segundo. Mas desviou o olhar. Fingiu que não ligou. Só que eu percebi. O corpo dela falou mais que a boca. Engoliu seco. Ombro tenso. Respiração curta. Ela finge que me ignora, mas o corpo dela me reconhece. Fiquei só de olho. Ela sentada com as amigas, rindo, tomando drink. Mas em certo momento, levantou. Pegou o celular, andou sozinha em direção ao fundo do bar. Banheiro. A visão de costas era melhor que qualquer cena de filme. Coxa torneada, quadril no ritmo da música que tocava baixo. Eu podia jurar que o cheiro dela ficou no ar depois que passou. Binho: — Cê vai? Não respondi. Levantei devagar e fui. O corredor pro banheiro era estreito, meio escuro, luz falhando. A vibe perfeita pro que tava prestes a acontecer. Ela saiu do banheiro e parou quando me viu. Travou. Mas não recuou. Olhar reto. Queixo erguido. Marrenta. Yasmin: — Tá me seguindo agora, é? Imperador: — Tô. E aí? Vai fugir? Yasmin: — Eu não fujo de ninguém. Imperador: — Eu sei. Por isso mesmo que tu prende a minha atenção. Ela cruzou os braços. Tava irritada, mas o corpo... inquieto. Yasmin: — Tu se acha demais. Vive como se o mundo girasse ao redor do teu p*u. Imperador: — O morro gira. Tu ainda não. Mas vai girar. Mais cedo ou mais tarde. Ela riu. Frio. Yasmin: — Tu é nojento, Imperador. Imperador: — E tu é uma gostosa metida que me tira do sério. Yasmin: — Eu não sou mulher de bandido, tá ouvindo? Imperador: — E eu não sou qualquer bandido, p***a. Eu sou o Imperador. Dei um passo pra frente. Ela não se mexeu. O coração dela batia tão forte que dava pra ver a veia pulsando no pescoço. Yasmin: — Vai gastar teu papinho sujo com tuas quenga? Imperador: — Tu acha que eu quero papo? Eu quero tu no meu colo, gemendo meu nome. Só isso. Ela respirou fundo. Travou. Por segundos, o silêncio gritou. Yasmin: — Só na tua imaginação podre. Imperador: — E ela tá ocupada demais contigo ultimamente. A boca dela abriu, mas ela não tinha o que retrucar. Só ficou me encarando. Olhar firme, respiração rápida. Ela queria me odiar. Mas o corpo dela queria outra coisa. O jeito que ela olhava minha boca, que mordia a dela... era tudo faísca. Imperador: — Vai me seguir até quando? Yasmin: — Até tu cansar de fingir que não quer ser seguida. Ela bufou alto, deu meia-volta com os passos firmes, quase batendo o salto no chão. E eu fiquei ali. Encostado na parede. Rindo. Safado. Ela é problema. Mas eu sou o tipo de homem que adora viver no meio do problema. Se ela acha que vai escapar, tá sonhando. O jogo começou. E eu sempre jogo pra ganhar.
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