Yasmin
Cheguei em casa com o corpo quente e o orgulho arranhado.
Bati a porta com força, joguei a bolsa num canto e parei no meio da sala como se o chão tivesse sumido.
Tava ofegando. Mas nem era cansaço.
Era raiva.
Brenda apareceu na porta do quarto, de blusinha velha e um pote de sorvete na mão.
Brenda: Ih... lá vem. Que cara é essa?
Yasmin: Não começa.
Brenda: Tem macho no meio, né? Tá estampado.
Nem respondi. Só revirei os olhos e fui direto pro sofá, largando o corpo como se tivesse tomado uma surra.
Antes que eu abrisse a boca, Alice, nossa vizinha, apareceu na janela, com a cara enfiada no batom borrado e o cabelo todo embolado no topo da cabeça.
Alice: Boa noite, minhas ricas! Tô sentindo cheiro de confusão daqui!
Brenda: Entra logo, mulher. A Yasmin tá de pavio curto.
Alice entrou, com aquele jeitão dela: barulhenta, sem filtro e com faro afiado pra fofoca quente.
Alice: Desembucha, vai. Quem foi que te tirou do eixo?
Engoli seco. Sabia que se falasse, ia virar novela. Mas segurar aquilo tava doendo mais que dizer.
Yasmin: Foi o Imperador.
Silêncio.
Brenda travou. Alice arregalou os olhos como se tivesse ouvido que o Papa tinha descido o morro.
Brenda: Que?! Tu tá de s*******m, Yasmin.
Alice: Ele te encostou?
Yasmin: Não. Mas me cercou. Lá no fundo do bar, perto do banheiro.
Alice: E tu falou o quê?
Yasmin: Falei o que tinha que falar. Não sou mulher de abaixar pra homem nenhum, ainda mais pra bandido.
Brenda suspirou. Alice se abanou com a mão.
Yasmin: Mas o olhar dele...
Alice: Molhada?
Yasmin: NÃO! Eu fiquei... com raiva. Raiva!
Brenda: Aham. E por isso chegou em casa suando e trêmula.
Yasmin: Gente... ele me tira do sério! Aquele jeito de se achar dono do morro, dono das pessoas. Ele olha como se tudo fosse dele. Como se eu fosse.
Alice: Mas não é?
Yasmin: CLARO QUE NÃO! Eu odeio ele. Odeio tudo que ele representa. Bandido, machista, arrogante.
Brenda: E gato pra c*****o.
Yasmin: f**a-se se é bonito! Não muda o fato de que é um escroto.
Alice: Mas mexe contigo. E tu odeia mais isso do que ele.
Travada. Fiquei. Não respondi. Só virei o rosto.
Yasmin: Eu não sinto nada por ele. Não sinto. Foi só o susto. Só a tensão. Isso passa.
Brenda: Cê tá tentando convencer a gente ou a si mesma?
Respirei fundo, abracei a almofada. Fiquei muda por uns segundos, sentindo a raiva e a vergonha misturadas no peito.
Yasmin: Eu não quero ele. Não quero.
Alice: Mas teu corpo quer. Tá escrito na tua cara, Yasmin. Tu pode até negar, mas o fogo tá aceso.
Yasmin: Cala a boca, Alice.
Alice: Tô só falando sério.
Fechei os olhos. Tentei apagar o rosto dele da minha mente. Mas tava ali.
A voz, o cheiro, o sorriso torto, o olhar que me queimava.
Eu odiava ele. Detestava cada palavra que saía daquela boca.
Mas por algum motivo i****a e que eu me recusava a aceitar...
eu queria mais.
E isso me deixava p**a.
Yasmin: Ele me bagunça. Me desconcerta.
Brenda: E tu odeia perder o controle. Porque tu passou a vida inteira tentando ter ele.
Assenti, com um nó na garganta.
Brenda: Só toma cuidado, mana. Porque esse tipo de homem... não entra só na tua mente. Ele entra na tua vida, na tua alma... e quando tu vê, não consegue mais sair.
Alice voltou da cozinha com um copo d’água. Me entregou e me encarou com aquele olhar dela, misto de deboche e verdade.
Alice: Cuidado, Yasmin. Desejo que a gente finge que não sente... é o tipo mais perigoso. Porque cresce no escuro. E quando explode... não sobra nada inteiro.
Suspirei. Bebi a água gelada.
Mas por dentro... tava pegando fogo.