The Old Man

4993 Palavras
As passadas de Liam até seu próprio quarto eram tão pesadas que davam eco pelos corredores em que ele passava. Eram úmidos, escuros, mas nada daquilo o incomodava. Sua capa púrpura esvoaçava por onde ele passava fazendo o fogo das poucas tochas que iluminavam o caminho quase se apagassem. A porta de seu próprio quarto estava aberta e Zayn estava pronto para partir, tinha vestido sua armadura de ouro completa e parecia mesmo estar pronto para um combate. Ele jogou o elmo na cama assim que Liam entrou no quarto batendo a porta atrás de si. — Zayn... — Sai da minha frente. — Zayn pediu assim que viu Liam querendo impedi-lo de sair. — Eu juro por Dionísio que eu vou te matar! — Me deixe explicar! — Liam dizia sabendo que o que Malik dizia era provavelmente verdade. — E por que eu deveria te ouvir? Você por acaso me ouviu naquela reunião? — Zayn já estava gritando. — Que foi que você fez? É sério que você acabou de pedir aquela moça em casamento na minha frente? — Ele dizia incrédulo, praticamente não deixando Payne falar. — Eu precisava fazer aquilo! — Liam andou na direção do outro, tentando segurá-lo. — Você estava lá, você ouviu eles praticamente me ameaçarem! — Que tipo de pessoa toma uma decisão dessas sozinho? — Zayn perguntava se desvencilhando das mãos de Liam, que insistia em querer tocá-lo. — Do nada? Impulsivamente? — Malik andou pelo quarto para ficar o mais longe possível de Liam, mas tudo que Payne fazia era segui-lo. — Eu tive que pensar rápido, mas eu sei que me precipitei. — Liam continuava deixando o desespero tomar conta de si. — Mas eu não tenho alternativa, Zayn, eu precisava mostrar a eles quem está no controle! — Eles é quem estão no controle! — Zayn gritou de volta. — E me solte! — Ele tirou as mãos de Liam se seus braços e ombros bruscamente. — E o que você acabou de fazer é a prova disso. — Zayn, não diga isso, preciso de você ao meu lado! Eu te amo! — E Liam novamente não ouviu os avisos de Malik para que o soltasse. Imediatamente Zayn tirou sua espada da cintura, jogou Liam contra a parede fria de pedra e apontou a lâmina afiada para o pescoço do futuro rei de Kent. Liam não se moveu, deixou-se dominar e viu nos olhos de Zayn uma mágoa tão grande que realmente o fez acreditar que ele enfiaria a ponta daquela arma em sua garganta sem pensar duas vezes. Nunca tinha visto ou ouvido falar que Zayn seria capaz de tal coisa, ele não era um combatente, ele não usava desse tipo de artifício para intimidar. Liam sentiu a lâmina fria tocar sua pele e estava realmente a ponto de cortar ao menos sua pele. — Vá em frente. — Liam desafiou. — Se vai resolver a situação pra você, acredite, eu nem vou tentar revidar. — Payne dizia firme, resignado e sem tirar os olhos de Zayn. Nesse momento, um filete de sangue correu por seu pescoço, deixando um corte pequeno na região do pescoço onde a veia aorta passava. E então, num lapso de sanidade, Zayn se afastou e guardou sua espada. A única coisa que ouvia naquele quarto era a respiração pesada de Payne e o som metálico da espada de Zayn voltando à sua cintura.  Malik passou uma das mãos pelo rosto para se acalmar, estava transformando sua tristeza em agressividade, coisa que nunca tinha feito antes. Ele e Payne ficaram em silêncio por alguns segundos antes que Zayn apenas pudesse ouvir as passadas lentas de Liam novamente se aproximando dele. Payne, sem medo, tocou os ombros de Malik novamente, que apenas fechou os olhos como se desistisse de lutar contra si mesmo. — Eu preciso ser rei, Zayn. — Liam dizia ignorando o corte em seu pescoço que ardia e sujava sua blusa branca com o sangue que escorria ainda. — Precisa mesmo? — Zayn virou-se para encará-lo e então Liam o viu com os olhos cheios de lágrimas. — Você sabe muito bem que preciso. — Liam sentia seu coração doer ao dizer aquilo. — Eu não posso deixar o meu reino em segundo plano, eu não posso abrir mão disso, Zayn... — Liam pensava que aquilo definitivamente era a coisa mais difícil pra ele dizer. — Isso não se trata de uma escolha, pois não ser rei não é uma opção. — Eu pensei que você me amasse acima disso. — Zayn disse sem coragem de encarar o outro. — E eu te amo... — Liam agora segurou com firmeza o rosto do outro obrigando-o a olhar pra ele. — Nada é mais importante que nosso amor. Estou surpreso com o quanto crescemos, o quanto mudamos e o quanto alimentamos essa loucura que não me fez nada além do homem mais feliz do mundo por ter você... — Liam aproximou seu rosto do outro fazendo com que seus narizes se tocassem. — Você é tudo que eu quero, é tudo que eu preciso e estou implorando que não vá embora... Fique comigo, vai ser mais fácil fazer isso se você estiver aqui. — Como pode me pedir isso? — Zayn respondia deixando as lágrimas escorrerem pelo rosto. — Como espera que eu fique olhando você se casar? — Ele concluiu e Liam suspirou percebendo o quão egoísta ele estava sendo. — Eu sei... — Ele respondeu abraçando Zayn e sentindo seu coração sendo arrancado de si. Apenas abraçou o outro quando percebeu sua visão turva pelas lágrimas se formando. — Eu preciso somente que me entenda e perceba que você provavelmente teria feito o mesmo. — Liam… — Ninguém ameaça tomar o reino de alguém, Zayn. — Liam disse desfazendo-se do abraço e voltando a olhar nos olhos do outro. — Você sabe muito bem disso. — Eu sei. — Malik tinha um tom conformado. — Eu acho que você está certo, eu provavelmente faria o mesmo. — Você ama Essex, é o único lar que você conhece, que sua família sempre protegeu... — Liam explicou e Zayn enxugou as lágrimas. — Eu tenho certeza que se seu conselho pedisse para escolher entre ser rei de Essex e ficar comigo, você também teria que fazer a escolha certa e não aquela que você quer fazer. Zayn limpou os olhos e respirou fundo. Teve certeza que Liam o amava e aquele não era o problema. Ao mesmo tempo que sentia que todos queriam boicotá-los, ele sabia que precisavam andar diante certas regras caso quisessem manter a política livre dos Sete Reinos e olhou para Liam, pela primeira vez, apenas de rei para rei, sabendo que aquela era uma escolha difícil para Liam. Sentia aquela empatia, aquela capacidade de colocar-se no lugar do outro e apenas percebeu que não restava nada que não fosse aceitar a situação. — Eles venceram. — Zayn disse triste, mas viu apenas Liam negando com a cabeça. — Não. Esse é apenas o começo da batalha. — Payne levantou o queixo pensando na mudança de postura que tinha acabado de anunciar a seus súditos. — Sabe quando dizem que para dar um passo à frente, precisamos recuar para pegar impulso? — Zayn apenas prestava atenção no que Liam dizia, era como se ele realmente tivesse traçado um plano. — Liam... Essa escolha é minha também. — Zayn disse voltando a pegar seu elmo de cima da cama e Payne percebeu que ele realmente iria embora. — Eu vou ficar para seu casamento e sua coroação, porque sei ser político. Vou sofrer igual a um filho da puta... — Zayn dizia tentando soar lúcido, decidido. — Mas não espere que seja eu na sua noite de núpcias porque eu não vou me deitar com você. — Zayn, aquela mulher provavelmente está me odiando nesse momento. — Liam tentou explicar como se Zayn estivesse apenas com ciúmes. — Está mesmo, acha que foi certo o que fez com ela? A tirou dos braços do homem que ama? Igualzinho fizeram com você. — Zayn cuspiu as palavras. — Você realmente achou bonito? Está orgulhoso de você mesmo? Porque pra mim você apenas mostrou que é tão c***l quando seu conselho. — Eu sei. — Liam respirou fundo e Zayn até estava surpreso por ele não ter nem tentado se defender. — Eu me deixei levar pelo momento e não estou orgulhoso do que eu fiz. — Então ao menos escolha outra moça para se casar. — Zayn disse como se aquilo fosse amenizar a situação. — Não. — A resposta de Payne foi firme e ele novamente franziu o cenho, mudando a fisionomia fazendo Zayn lembrar do mesmo homem que assistiu fazendo aquele teatro todo há poucos minutos. Ele teve certeza naquele momento que era como se Liam fosse outra pessoa. — Liam! — Zayn advertiu. — O que está acontecendo? — Eu preciso mostrar firmeza, Zayn! — A resposta soou como se fosse óbvia. — Não, esse não é você! — Zayn se aproximou dele como se Payne fosse um desconhecido. — Você é uma pessoa boa, Liam, você é justo e honesto. — Ele continuou e Liam baixou os olhos. — Harry é um ótimo estadista e sempre se espelhou em você, desde que eram crianças! Niall tem um respeito por você que tem por poucos... E você sabe que o Horan é chato pra c*****o quando se trata de gostar dos outros. — Zayn deu ênfase e, sem querer arrancou um sorriso de Liam. — É. — Payne concordou e, após uma pausa breve, voltou a olhar nos olhos do outro. — E você? Como me vê? — Você é incrível, Liam... — Zayn dizia não controlando o tom apaixonado. — Apesar de achar que você sempre teve uma visão errada de mim, eu sabia que você tinha seus motivos. Pois é isso que você faz, você analisa e o que vê e julga. — Eu não quero sentir essa insegurança em relação ao meu reino nunca mais. — Liam explicava e, no fundo, Zayn entendia bem. — Eu preciso ser rei e vou fazer isso custe o que custar. — Eu sei. Não estou aqui pra fazê-lo mudar de ideia. — Zayn respondeu respirando profundamente. — Mas da mesma forma que estou respeitando sua decisão, quero que respeite a minha. — Zayn, eu prometo que nós vamos resolver isso. — Liam dizia segurando o rosto do outro. — Essa fase vai passar. — Resolver como, Liam? — Zayn sorriu triste. — Você precisa de um filho, daqui a pouco vai precisar se deitar com ela. — Eu não quero fazer isso. — Payne apressou-se em responder. — E não quero pensar nisso agora. Zayn o abraçou mesmo lutando contra sua vontade interna de não prolongar aquele momento. Porém, assim que Liam começou a beijá-lo, ele sabia que não conseguiria mesmo ficar longe daqueles lábios e daquelas mãos habilidosas correndo seus cabelos. Por mais que ele tivesse mesmo beijado muitas bocas e sentido muitos corpos, nenhum foi capaz de fazer o que Liam fazia. Aquele fogo que havia entre eles parecia nunca acalmar, os beijos pareciam levá-los para outra dimensão e Zayn sabia que não tinha como voltar atrás naquela situação, seu coração já pertencia a Payne e ele não estava com planos de tomá-lo de volta. Novamente, como vinham fazendo a semana inteira, Payne o deitou na cama com cuidado e, mesmo que Zayn tivesse jurado para si mesmo que não se deitaria com Liam mais, era impossível resistir àquilo, aquele amor e aquela fúria que sentiam dentro de si. Sempre acabariam na cama, sempre acabariam transando até apagarem e nada e nem ninguém seria capaz de mudar aquilo. x.x.x Harry descia as escadas de seu reino de braços dados com Taylor, ambos estavam preparando-se para a viagem. De longe, Gemma observava orgulhosa e sorrindo para Taylor, feliz de seu irmão ter finalmente aceitado dar uma chance à loira bonita e à promessa feita por sua mãe. O rei, porém, parecia que estava legitimamente a caminho de atirar-se de um penhasco. A carruagem para a viagem estava pronta e, logo, estariam a caminho do reino de Kent, para a coroação de Liam que seria em dois dias. — Majestade. — Ed dirigiu-se a Harry assim que eles chegaram ao pé da escada e Harry via seu cavalo encilhado e pronto para ser montado. — Temos um problema com a carruagem. — Que problema? — Harry revirou os olhos cansado. — Uma das rodas soltou e não temos os instrumentos necessários para arrumar. — Ed sabia muito bem o que aquilo significava e, pela expressão no olhar do rei, ele também sabia. — Precisamos de um ferreiro. Taylor fechou a cara e pensou que bem que gostaria de usar sua mágica recém descoberta para arrumar a tal roda, mas não podia entregar que tinha seus poderes finalmente. Ela não queria que Harry soltasse de seu braço, mas ele o fez mesmo assim. Circulou a carruagem e viu do que se tratava, estudou a situação acompanhado de sua guarda e pensou que queria qualquer coisa naquele momento, menos que Louis o visse com Taylor, estava envergonhado da situação. — Majestade? — Ed insistiu ao ver que Harry estava demorando pra responder. — Sim, sim, chame-o. — Harry disse sem olhar para seu chefe de Conselho, fez apenas um sinal com a mão confirmando que chamasse Louis. Uma movimentação rápida se fez em frente ao castelo e vários aldeões olhavam a cena. Alguns pareciam desconfiados ao olhar para Taylor, como se não gostassem da ideia de que seu rei se casasse com uma forasteira. Outras moças jovens sentiam-se quase traídas por estarem com inveja de Swift, afinal, elas tinham a esperança de se casarem com o rei. Outros poucos tinham uma certa simpatia pela loira de Nortúmbria e a achavam bonita o suficiente e adequada para Harry. Não que Styles estivesse muito preocupado com a opinião alheia, estava sofrendo o suficiente por ter que ficar ao lado daquela mulher. Para ele, por mais que ela não tivesse culpa do que estava acontecendo, ele sentia que ela estava simplesmente feliz por ser a futura rainha e por casar-se com um nobre, pouco importando se era Harry ou qualquer um deles. Taylor, por sua vez, estava de cara fechada, não gostando da ideia de que Louis estaria ali em poucos minutos. Ela posicionou-se ao lado de Harry como um verdadeiro cão de guarda, enquanto o rei apenas olhava para a roda solta de braços cruzados. — Isso vai atrasar nossa chegada? — A loira perguntou cuidadosamente a Harry. — Provavelmente. — O rei respondeu. — Isso me parece algo demorado para arrumar. Após poucos minutos de espera, viu Louis subindo a pequena colina que separava o castelo da aldeia. O ferreiro vinha acompanhado de dois guardas e parecia extremamente contrariado, um dos guardas até mesmo o segurava pelo braço e outro acompanhava os dois montado em seu cavalo. Harry não gostou da situação, franziu o cenho e recebeu de Louis um olhar furioso. — Louis... — Harry tentou, mas Tomlinson sequer deu-lhe ouvidos. — Com todo respeito, Majestade, mas eu tenho muito trabalho a fazer! — Louis controlou o tom de voz mas falou com Harry de maneira pouco educada. — De joelhos, ferreiro. — um dos guardas segurou Louis pelo ombro e o obrigou a ficar de joelhos. A mão pesada do homem forçou Tomlinson a reverenciar Styles. — Não há necessidade disso! — Harry quase gritou com seu guarda, tirou as mãos dele de cima de Louis imediatamente, mas o ferreiro não se comoveu e recusou a mão de Harry para ajudá-lo a levantar-se. Ele já estava sujo, mas ainda assim limpou as calças na altura dos joelhos que haviam se sujado pela poeira do chão. — Desculpe, Louis, isso é uma emergência. — Vocês reis e essa mania de achar que suas coisas são sempre mais importante do que as dos outros. — Tomlinson disse num tom baixo, sem coragem de encarar Harry, que tinha o olhar triste. — Desculpe, Louis. — Styles repetiu por não saber o que dizer, mas tudo que o ferreiro fazia era olhar a carruagem em busca de uma solução para o problema. Em poucos segundos, ele pediu ajuda aos guardas para que levantassem a carruagem, Calvin estava presente ajudando a trazer algumas ferramentas e falava com Louis sobre o que seria melhor fazer naquela situação. Um dos pinos grandes de aço puro que prendia a roda havia se soltado, mas aquilo era geralmente o problema comum enfrentado por carruagens. Louis, com a ajuda de Calvin, encaixou a roda de volta e martelou o pino pra dentro com uma força que não parecia fazer jus ao seu tamanho. Louis não era um homem grande, mas a profissão o obrigou a ser forte. Em poucos minutos tudo estava pronto e consertado, levou muito menos tempo do que Harry pensava. Louis fez alguns últimos ajustes, sujou-se ainda mais quando secou o suor da testa começando a brotar. — Tenha uma boa viagem. — Louis disse quando terminou olhando de Taylor para Harry. — Louis, deixe-me pagar. — Harry estava tão confuso ao lidar com aquela situação que, normalmente ele não teria problemas em mostrar seu pulso firme, sua autoridade, mas diante de Louis, ele realmente sentia-se um completo i****a. — Não precisa. — Tomlinson disse enquanto recolhia suas ferramentas. Calvin o ajudava e estava até surpreso pela forma como seu melhor amigo estava tratando o rei. — Eu insisto. — Harry disse chegando mais perto. — E eu insisto que não precisa. — Louis respondeu áspero. Respirou fundo e já dava sinais de que não aguentaria ficar olhando para aquele circo todo, lembrando que o convidado para ir a coroação de Liam com Harry tinha sido ele poucos dias atrás. — Eu geralmente diria que se precisar, é só chamar, mas aparentemente você vai me obrigar a resolver seus problemas de qualquer forma, sem respeitar o fato de eu já estar ocupado, afinal, os problemas da corte são sempre urgentes. Os soldados de Harry observavam Louis sair enquanto o rei, completamente desconcertado, apenas olhava a cena de um ferreiro descendo a colina com seu amigo e muitas ferramentas pesadas nas costas. Sentia-se tão m*l que seu desconforto chegava a ser física, nunca pensou que amaria ninguém com aquela intensidade toda e sabia que aquela dor era na mesma proporção. Sua vontade era simplesmente ir atrás dele e implorar de joelhos que o perdoasse e o aceitasse de volta. Mas a voz desnecessariamente doce de Taylor o fez voltar a si. — Pode ir pelo visto. — Ela disse voltando a segurar no braço de Harry. — Sim. — Styles respondeu se desfazendo do contato. — Mas você vai aí dentro. — Ele disse apontando para a carruagem. — Eu vou com meus soldados puxando a frente. — Como é? — Ela perguntou surpresa, não imaginou que Harry fosse, por vontade própria, optar por uma viagem desconfortável na garupa de um cavalo ao invés de ir dentro da carruagem protegida e estofada com ela. — Você tem algum problema para entender o que eu faço, senhorita Swift? — Harry perguntou não conseguindo esconder a rudeza no tom. — Todas as vezes que eu falo com você preciso repetir pelo menos duas vezes. Ela não respondeu nada, no fundo ela odiava aquilo, mas optou por apenas parecer magoada para fazer Harry sentir-se culpado, e funcionou. No momento em que ela virou-se para subir o pequeno degrau e entrar na carruagem, ouviu o rei suspirar frustrado. — Me desculpe por falar dessa forma. — Ele queria tentar, ele realmente queria. Tudo seria muito mais fácil se ele simplesmente conseguisse gostar pelo menos um pouco daquela mulher. Mas nada parecia funcionar. — Eu vou na frente com meus guardas porque é costume de minha parte fazer esse tipo de viagem. Gosto de liderar o caminho. — Tudo bem, espero que não se canse. — Ela disse sem olhar pra ele e, em seguida, entrou fechando a pequena porta e tampando a janela com uma cortina vermelha. Harry realmente gostaria que as coisas fossem diferentes, mas ele aparentemente estava tendo que aceitar a situação já que não poderia mudar. O grande problema era que a maioria de suas ações e pensamentos ele simplesmente não conseguia controlar, Harry não era nenhum pouco acostumado a fazer o que não queria, e naquele momento tudo que ele pensava era Louis e que era o ferreiro quem deveria estar ali com ele. x.x.x Niall usava braçadeiras de bronze enquanto descia as escadarias de seu castelo indo de encontro a sua guarda que esperava pronta para partir para Kent. A viagem para ele seria a mais longa de todas e ainda assim ele estava sendo o último dos reis a começar a pegar a estrada. Antes de sair, viu Josh Devine andando em sua direção logo que deixou seus aposentos. O comandante não tinha mais a mesma postura rígida quando estava com Niall, permitiu-se sorrir, permitia chegar mais perto do que as pessoas geralmente chegavam e, dessa vez propositalmente testando até onde poderia ir, beijou os lábios do rei por longos segundos antes de olhar nos olhos azuis de Niall e perceber que não havia dúvidas que até os menores gestos dele, tiravam o fôlego de Horan. — Não o vejo desde ontem de manhã. — Josh disse olhando o rei dos pés à cabeça e percebendo o quanto ele estava bonito para viajar. Vestia sua armadura de prata polida com detalhes em bronze e um elmo especial, uma réplica do mesmo usado pelo deus Ares. Sua capa verde escuro era de veludo e mais pesada do que a que ele normalmente usava. — Estive ocupado com decretos e os preparativos da viagem. — Horan respondeu percebendo o olhar do outro. — Vai guiar a viagem? — Devine perguntou. — Vou. — Niall fez uma pausa antes de continuar como se não tivesse certeza se deveria dizer aquilo ou não. — E quero que fique ao meu lado. Josh sorriu tão aberto que era quase como se Niall não conseguisse controlar a situação e também sorriu, aquilo para ele não era simplesmente um acompanhamento à serviço, mas era como se Josh fosse seu acompanhante e Devine percebeu o convite indireto de Niall. — Estou muito feliz que me deixe fazer parte da sua vida mais do que antes. — Josh disse novamente trocando um selinho com o rei. — Espero que dê tudo certo entre a gente. Te vejo daqui a pouco. Niall não teve a chance de dizer mais nada, mas Devine simplesmente saiu com pressa e o rei soube que ele queria se arrumar à altura para aquela viagem. Apesar de Horan ter absoluta certeza de seu sentimento, ainda assim não queria ceder, não queria dar o braço a torcer. Ele continuava com a ideia fixa de que precisava de uma rainha para continuar sua linhagem e não queria mais conversar sobre aquilo com Josh, pois ao mesmo tempo, não queria perdê-lo e sabia que ele não se sujeitaria e não aceitaria nada menos do que Niall reconhecendo quem ele era para as pessoas, ele não admitiria viver na sombra de ser "o outro". Niall respirou fundo e resolveu que não iria mais pensar naquilo, preferia concentrar-se a cumprir suas obrigações políticas de ir à coroação de um monarca, ao mesmo tempo que gostava muito de Liam Payne e não queria causar um desconforto em Kent, onde sempre fora muito bem recebido. Deixaria seus dramas em seu próprio reino. x.x.x A noite já havia caído em Wessex e Louis, apesar de cansado, aceitou levar parte do jantar que sua mãe havia feito ao velho que morava distante da aldeia. Louis não entendia muito bem porque sua mãe frequentemente ajudava aquele homem, mas o ferreiro já estava acostumado a levar grãos, leite e pão para Alastair pelo menos duas vezes na semana. Há meses, Louis não fazia mais aquilo, sua mãe preferia ir sozinha até lá, mas naquela noite o próprio Louis não se importou quando ela pediu, tinha rareadas conversas com o homem, mas sempre gostava de ouvir as histórias que ele contava. Tomlinson carregava um jarro de leite e uma cesta com três pães dentro. O homem o viu pela janela e seus olhos de alguma forma mostravam que ele ficava feliz em ver Louis ali. O ferreiro não sabia se era sua presença o fato de ele estar lhe levando comida. — Boa noite, senhor. — Louis disse assim que o homem abriu a porta para ele entrar. — Obrigado, Louis. — Ele disse carinhoso quando o mais novo colocou as coisas que carregava gentilmente em cima da mesa. — Estou fazendo chá, você gostaria? — Ele ofereceu e Louis apenas aceitou porque sabia que geralmente aquilo significava que o homem queria conversar. Morando naquele casebre tão longe do restante do povo, o ferreiro pensou que aquele homem realmente deveria sentir-se sozinho. — É claro. — Louis respondeu com um sorriso tranquilo e sentou-se perto do fogão a lenha. — Como o senhor tem passado? — Estou ficando velho. — Alastair respondeu tirando a chaleira de cima do fogão e servindo chá em duas canecas de ferro. — Então não consigo mais fazer meus afazeres na plantação ou pescar com a mesma habilidade. — Ele contava realmente algo triste, mas não parecia abalado, apenas conformado que a idade chegava para todos. — Pode pedir pra me chamar quando o senhor precisar de ajuda. — Louis ofereceu recebendo a caneca das mãos bastante enrugadas e machucadas do homem. — Obrigado. — Ele agradeceu gentilmente. — Mas imagino que como único ferreiro da aldeia, tenha mesmo muito trabalho. — Tenho. — Louis disse pensando no que tinha acontecido aquela tarde com o rei. — Mas aparentemente certos reis por aí acham que eu preciso largar tudo para atendê-los a qualquer momento. — Ele concluiu levemente mau humorado, o homem apenas sorriu, pensando que todos os ferreiros tinham a mesma fama de serem ligeiramente m*l humorados quando interrompidos. — Contam as lendas que Hefesto ficava furioso quando tinha sua concentração tirada. — O homem dizia olhando para Louis que apenas concordou com a cabeça. — Posso entendê-lo perfeitamente. — O ferreiro, que era devoto de Hefesto, carregava no braço uma tira de couro com três pingentes de ferro feito por ele mesmo, onde mostrava a figura de uma bigorna, uma tenaz e um martelo de ferreiro. — Vejo que tem muito orgulho do que faz também. — Alastair comentou vendo o leve barulho dos metais se chocando quando Louis levou a caneca à boca para beber. — Assim como ele. — É o que sei fazer. — Tomlinson respondeu modesto. — Não acho que o que faço seja mais importante quanto qualquer outra coisa, mas tenho consciência de que é preciso se ter excelência no serviço que cada um oferece. — Louis concluiu e os olhos azuis do homem pareciam orgulhosos de alguma forma em ouvir aquilo. — Seu pai estaria muito orgulhoso de saber que é assim que pensa, Louis. — O homem disse e viu o ferreiro sorrir com um lado da boca. — Talvez. Meu padrasto me ensinou essa profissão nobre e, mesmo que ele não esteja mais aqui pra ver, espero que ele saiba que fez um bom trabalho. — Não que Louis não tivesse curiosidade para saber sobre seu pai verdadeiro, mas nunca pareceu sentir falta de um, uma vez que Mark, seu falecido padrasto, sempre foi muito presente em sua vida. — Ambos estão, pode acreditar. — Alastair dizia e olhava Louis com tanta fixação que chegou a esquecer-se de beber seu chá. Por um momento, os olhos azuis dos dois se encontraram e Louis poderia jurar que aquele brilho nos olhos do velho eram lágrimas, mas naquela penumbra iluminada apenas por uma vela quase no fim, ele não poderia ter certeza. — O senhor era o chefe da guarda do rei Desmond. — Louis afirmou, mas quase perguntou. O homem apenas concordou com a cabeça. — Por que então o senhor se isolou? É uma posição nobre e privilegiada. Harry o expulsou por estar velho? — Tomlinson perguntou franzindo o cenho. — Não. — O homem esclareceu rindo um pouco. — Eu deixei a guarda real quando o rei Harry era apenas um bebê. Rainha Anne ainda estava viva. — E deixou por que? — A curiosidade de Louis era maior que sua boa educação. — Porque achei que estava enlouquecendo, perdendo minhas faculdades mentais. — Ele explicou superficialmente e Louis franziu o cenho. — O senhor não me parece nenhum pouco louco se me permite dizer. — Louis tomou o último gole de chá. — Não sou louco. — Alastair respondeu sorrindo de canto e olhando firme nos olhos do ferreiro. — Estou mais lúcido do que nunca, porém acho que fiz um bom trabalho convencendo as pessoas de quem nada do que eu digo é muito confiável, pois elas continuam até hoje não acreditando em mim. Tomlinson não sabia o que dizer, sentiu-se triste por ouvir aquelas coisas. Pensou em como seria sua própria velhice, se acabaria sozinho como aquele homem, se teria arrependimentos ou se talvez encontrasse a felicidade de poder dividir o fim de sua vida em paz com alguém que amava profundamente. E, neste momento, não percebeu que já estava pensando em Harry. — Ainda canta para as crianças na aldeia? — O homem perguntou diante do silêncio do outro. Louis apenas sorriu ao ouvir aquilo, dizendo que sim com a cabeça. — Poderia cantar pra mim? — É claro. — Louis jamais negaria aquele pedido a um velho cansado. Passou poucos minutos animando-o com canções de todos os ritmos e, aos poucos, percebeu que tinha criado uma afinidade com ele maior do que pensaria.
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