Coroações eram geralmente muito burocráticas para se organizar, mas muito rápidas na hora de realizá-las. Liam Payne era agora rei, finalmente por assim dizer. O peso maior não era apenas da coroa que ostentava e do cetro em sua mão direita, ele agora também teria muito mais poderes e responsabilidades do que antes. O povo de Kent estava em festa, sentiam que a era governada por Liam seria ainda muito mais próspera do que a de seu pai. Liam tinha medo de decepcionar seu povo por vezes, mas sentia que estava mais preparado do que nunca. E agora com a confirmação de Zayn ao seu lado, ele sabia que seu coração era um bom líder a seguir.
Depois de fazer o juramento e tomar posse do trono que uma vez pertenceu a seu pai, o banquete dera início. Zayn Malik, como já era de se esperar, aceitou casar-se com Liam mediante a circunstâncias diferentes: ele não aceitaria o casamento organizado às pressas e que outrora pertenceu a Sophia Smith. Até mesmo porque Malik tinha esperança de que Liam topasse casar-se em Essex. Os convidados foram entretidos por um grupo de músicos, muita comida e frutas frescas, bebidas locais e conversas surpreendentemente agradáveis. Harry, ao mesmo tempo que parecia feliz, suspirava frustrado cada vez que olhava Taylor sorridente ao seu lado constantemente.
Zayn e Liam ficaram basicamente a festa inteira juntos, atendendo convidados diversos, alguns inclusive pareceram não gostar da ideia de ter dois reis ou de como deveriam enxergar Malik, uma vez que agora, teoricamente, Kent também pertencia a ele. Liam, porém, estava feliz por enquanto apenas por ter convencido seu futuro marido a tirar a capa n***a.
Niall estava bebendo mais do que o normal, mas ninguém atreveu-se a dizer nada. Ele não tirava os olhos de Josh, que igualmente estava ali como convidado, ao mesmo tempo que desviava o olhar todas as vezes que o comandante olhava de volta. Liam não quis dizer nada, mas percebeu bem o que estava acontecendo.
— Falei sério mais cedo. — Liam disse ficando ao lado de Harry, que parecia com o pensamento distante, apenas olhando para sua taça de vinho. — Onde está o ferreiro?
— Não tenho certeza. — Harry respondeu com o olhar triste. — Eu não sei como pude ser tão egoísta com ele…
— Harry, eu admito que estou surpreso com o quanto se encantou com aquele homem. — Liam observou com curiosidade. — Admito que, de fato, é um homem bonito. Mas simplório, pobre, não acredito que tenha muito a oferecer.
— Ele não precisa me oferecer nada, Liam. — Harry respondeu olhando nos olhos castanhos do amigo. — Eu já tenho tudo. Eu só preciso dele…
— Achei que iria trazê-lo. — Payne acrescentou, ajeitando-se na cadeira ao lado de Harry, vendo Taylor de longe conversar com outros convidados. — Não esperava ver essa mulher novamente.
— Eu disse muitas vezes que não cumpriria a promessa. — Harry recomeçou, lembrando de sua irmã. — Gemma quase morreu, Liam, e eu não poderia suportar a culpa se algo acontecesse à ela.
— O que houve? — Liam perguntou interessado, até mesmo preocupado.
— Poseidon quase a afogou no mar dias atrás. — Harry explicou e Liam arregalou os olhos. — Taylor mesmo a salvou.
Payne não respondeu nada, estava surpreso em ouvir aquilo e até sentiu-se m*l de pensar que verdadeiramente não simpatizava com Taylor. Ele voltou a olhar a moça de longe, sorridente, parecia portar-se como uma verdadeira rainha, incrivelmente bem vestida e falante, parecia cativar muitos outros homens no salão, mas o único de quem ela queria atenção, parecia pouco se importar se ela estava ali ou não.
— Eu não sabia disso, Harry... Como está Gemma? — Payne franziu o cenho preocupado.
— Está melhor, está se recuperando. — Styles respirou fundo como se estivesse aliviado ao lembrar-se daquilo.
— Fico feliz em saber. — Liam complementou oferecendo-se para pedir mais vinho para o melhor amigo, que prontamente aceitou.
Do outro lado do salão, Zayn tentava dar atenção aos convidados, mas não parecia prestar muita atenção nas conversas, estava distraído com as coisas à sua volta. Ele foi parabenizado por alguns, ligeiramente ofendido pelos olhares reprovadores de outros, mas nada parecia o abalar muito. Tudo que ele queria, ele já tinha: Liam. Tentava não ficar na mesma roda de convidados por muito tempo, passou a rodear o salão olhando desde os serventes e soldados até os membros do conselho de Liam, que pareciam assustados e com medo do que o futuro lhes reservava.
Uma figura no entanto lhe chamava a atenção: Taylor Swift. Depois do aniversário de Harry, teve certeza que nunca mais veria aquela mulher na vida, pois Styles provavelmente colocaria a moça pra correr como bem deve ter feito com os outros Lordes. Malik era um rei extremamente devoto de Dionísio, era um homem de crenças muito bem estabelecidas e não costumava acreditar que os deuses eram da forma como as pessoas geralmente os colocavam: seres que puniam e premiavam apenas por ser seu eterno trabalho em suas relações com os humanos. Para Zayn, aquilo tudo era muito mais e mais complexo do que a maioria acreditava.
— Majestade! — Taylor inclinou-se ao ver Zayn se aproximando dela. Ela sorriu mas ele não retribuiu, apenas passou uma das mãos pela barba que começava a crescer e estudou a fisionomia daquela mulher. — Parabéns pelo noivado.
— De onde você é mesmo? — Ele perguntou não dando muita atenção ao que a moça dizia, como se realmente não tivesse tempo e nem paciência para aquele tipo de falsidade.
— Nortúmbria. — Ela respondeu simpática, esperando alguma reação positiva de Zayn, mas ele permaneceu sério. — Sou filha de Althea e Eros.
— Eros? — Zayn repetiu com um certo tom de deboche, como se não acreditasse muito naquilo. Ela fechou a cara quase que imediatamente. — Nortúmbria... — Ele repetiu dando mais um passo na direção dela. — A terra onde os deuses descem para ter filhos com mortais.
— É o que contam as histórias. — Ela complementou, quase orgulhosa em saber que sua terra natal tinha aquela fama.
— De fato. Ao que me consta, todos temos uma história de lá pra contar. — Zayn sorriu com um lado da boca. — Especialmente eu.
— Você? — Ela disse surpresa ao ouvir aquilo. Nunca tinham contado à ela sobre qualquer ligação de Zayn com sua terra natal.
— Eu nasci em Essex, passei toda a minha vida naquele reino, mas meu verdadeiro pai era de Nortúmbria. — Ele disse e viu que os olhos azuis dela se arregalaram. — Então acredite, senhorita, eu conheço mesmo muitas histórias de lá.
Ela não respondeu, apenas engoliu a seco, pensando que aquilo lhe soou como que contendo um leve tom de ameaça. Os dois apenas trocaram olhares por alguns segundos e Zayn parecia extremamente satisfeito com o efeito que causou nela, deixando transparecer o medo que ela sentiu correr de que ele soubesse de algo e ela não. Zayn acenou com a cabeça calmamente antes de se retirar, percebendo que não precisou de muito para perceber que aquela mulher exalava falsidade e grande parte do que saía daquela boca era mentira.
Ela apenas o seguiu com os olhos enquanto ele se aproximava do noivo, que continuava conversando com Harry. Por um momento, ela pensou que não deveria subestimar Zayn Malik como havia fazendo, concentrando-se apenas em Harry, sem dar-se conta dos fortes aliados que ele tinha. Aproximar-se de Zayn parecia impossível, uma vez que ele aparentava ser muito mais esperto do que ela pensava. Tentar Liam, seria igualmente impossível, pois claramente Zayn Malik agiria como um verdadeiro muro de concreto para proteger Payne. Niall Horan não era o tipo de homem que parecia querer conversar sobre a vida alheia, tão pouco tinha segredos a esconder, isso sem falar que, dos quatro, era de longe o mais perigoso e temperamental de todos.
Taylor não admitiria, mas sentiu que precisava proteger seus planos e colocar suas táticas em prática muito mais cedo do que esperava.
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A festa estava apontando para o fim. Liam obviamente receberia todos os nobres no castelo para que passassem a noite e descansassem o tempo necessário para seguir viagem quando seus guardas estivessem descansados.
Liam falava com Niall sobre alguns detalhes políticos, na verdade ele tinha intenção de estreitar relações com Mércia e ambos pareciam extremamente entretidos falando de assuntos de negócios mesmo que Horan não estivesse lá em seu juízo perfeito. Ele pediu a Liam para que Josh ficasse no mesmo quarto que ele, mas não quis falar no assunto mesmo quando Payne perguntou. Niall fugia de dar explicações pois nem mesmo ele as tinha, nem mesmo ele parecia querer pensar a respeito, pois todas as vezes em que o fez, acabou por fazer escolhas erradas.
Zayn observava um Harry Styles ainda triste, apenas esperando uma deixa para dar boa noite a todos, uma vez que apenas tinham sobrado os quatro conversando num canto da sala do trono de Liam.
— Harry. — Zayn chamou pelo outro num tom de voz calmo, amigável e quase como se quisesse mostrar-se inofensivo, dando um tom casual à sua aproximação.
— Zayn. — Harry plantou um sorriso no rosto, sempre gostou da companhia de Malik. — Como vai ser agora? Dois reinos?
— Ainda temos a parte burocrática desse futuro casamento para acertar, mas acredito que sim. — Zayn sorriu aberto ao dizer aquilo, de longe olhou rapidamente para Liam e pensou que nunca esteve mesmo tão apaixonado.
— Tenho certeza que basta dividir a guarda e tudo ficará bem. — Harry disse tocando o ombro do amigo de uma maneira carinhosa.
— Falando em guarda... — Zayn fez uma pausa pensando em como tocar no assunto. Ficou de frente para Harry, que mostrou uma expressão curiosa enquanto ouvia o outro. — Percebi o nome nas espadas dos seus soldados... — Zayn disse com um sorriso de canto e viu Harry encarar os próprios pés, mostrando os dentes bonitos.
— Louis. — Ele respondeu voltando a olhar Malik.
— O ferreiro? — Zayn já sabia que era, mas só queria confirmar. Harry apenas assentiu com a cabeça. Numa fração de segundo, Zayn lembrou-se das várias histórias dos deuses que sua mãe costumava lhe contar quando ele era criança. — Harry... — Ele recomeçou falando mais sério e olhando o rei de Wessex mais firme. — Sabe quem costumava assinar suas obras?
— Hefesto. — Harry sorriu, conhecendo bem a história também. — Ele é muito devoto.
— Como todo bom ferreiro. — Zayn complementou. — Mas eu realmente conheço muitos bons ferreiros, especialmente os de Mércia, e nenhum deles conseguiria fazer algo como aquilo. — Zayn apontou discretamente para as espadas dos soldados de Harry. — Não me refiro apenas ao metal e a perfeição dos detalhes, mas os nomes dos seus soldados.
— Louis só estava tentando ser gentil, agradar aos cavaleiros. — Harry sorriu dando de ombros.
— Não, Harry. — Zayn permaneceu sério e novamente olhou nos olhos verdes de Styles. — Não foi apenas isso. Hefesto não apenas deixava uma assinatura em suas obras, como fazia exatamente o que Louis fez nessas espadas: colocava o nome do dono do presente. — Malik complementou e Harry franziu o cenho não entendendo o que tinha de tão importante naquilo.
— Bem, ele só estava tentando imitar o deus que venera, apenas isso. — Styles respondeu respirando fundo, estava cansado e aquela conversa sobre Louis novamente o estava fazendo sentir-se triste.
— Não. — Zayn insistiu. — Não acho que tenha sido só isso…
— O que quer dizer, Zayn? — Harry disse ligeiramente impaciente. — Por que isso importa?
— Porque eu sei que dentro do seu coração, em algum lugar aí, você sabe muito bem que há algo errado. — Zayn disse firme, falando num tom de voz mais baixo e chegando mais perto de Harry. — Não acredito que não seja possível que consiga aceitar o que lhe é imposto dessa maneira. — Ele fez uma pausa e era como se ele tivesse a total atenção de Harry. — Não acredito que olhe para Taylor e não perceba o quão errada essa situação está.
— Mas os deuses…
— Os deuses não fariam isso com você. — Zayn o interrompeu já sabendo que Harry iria usar o argumento da promessa, da quase morte de Gemma e dos castigos divinos. — Nós adoramos seres bondosos, Harry, me recuso a acreditar que qualquer um deles fosse ser tão tirano a ponto de deixar que você se apaixonasse por um homem que não pode ter. — Malik dizia com a típica honestidade que sempre teve, sentindo um certo alívio até, pois parecia que alguém deveria dizer aquilo tudo a Harry, mas ninguém se atrevia.
— Zayn, você não entende…
— Não, é você quem não entende. — Novamente Harry tentou argumentar, mas Zayn o impediu. — Busque. Procure. A resposta está em algum lugar, tem que estar. — A certeza na voz de Malik era quase assustadora e Harry sentia-se realmente balançado com aquilo. — Se tem uma coisa que eu aprendi sobre Nortúmbria, é que nem tudo é o que parece.
Harry ficou em silêncio apenas trocando olhares com Zayn naquele momento e, por mais que ele quisesse negar como se sentia e o que acabara de ouvir, uma força dentro dele crescia cada vez mais, sua intuição dizia que realmente algo não estava certo, mas deixou o medo do castigo divino lhe cegar, lhe tomar conta por completo. Esqueceu-se de procurar mais a fundo, deixou de lado sua prometida visita a Alastair e até mesmo seu senso de ter certeza antes de tomar alguma atitude.
— Eu recebi uma resposta de Apolo e ele disse para eu cumprir a promessa. — Harry respondeu após um longo silêncio entre eles.
— E qual é a promessa, Harry? — Zayn perguntou, percebendo que, para convencer Harry de alguma coisa, precisava seguir o raciocínio dele.
— Que eu me case com a primeira filha da feiticeira. — Harry respondeu desanimado.
— E essa mulher é filha dela? — Zayn retomou a palavra.
— Acredito que seja. — Harry titubeou por um momento e percebeu que não tinha certeza daquilo.
— Ela é a primeira? — Malik voltou a perguntar e então obteve a resposta que queria: a dúvida nos olhos de Styles.
— Eu não sei. — Harry foi honesto em sua resposta.
— Então você entende do que eu estou falando. — Zayn respondeu satisfeito, percebendo que finalmente havia colocado algum juízo na cabeça do rei de Wessex.
Malik respirou fundo e percebeu-se cansado, aquela roupa estava começando a pesar e sua armadura quase o sufocava. De longe olhou para Liam se despedindo de Niall e pensou que nada o agradaria mais do que estar na cama com o homem de seus sonhos, seu rei e seu futuro marido.
— Boa noite, Harry. — Ele disse devido ao silêncio do outro, que parecia afundado em pensamentos e raciocínios.
— Zayn... — Harry o chamou após o moreno bonito assim que ele se afastou alguns passos.
— Sim? — Zayn voltou sua atenção ao amigo antes de buscar Liam, que mesmo assim andava em sua direção.
— Por que está me dizendo essas coisas? — Harry perguntou no momento em que Liam se aproximou, segurando Zayn por uma das mãos.
— Acho que alguém deveria ter falado, Harry. — Malik recomeçou a falar olhando para sua própria mão segurando a de Payne. Liam apenas prestava atenção sem entender do que os dois falavam. — E você salvou meu noivo de cometer um grande erro... Só estou retribuindo o favor. — Malik sorriu de canto e Styles retribuiu. Ambos assentiram com a cabeça para se despedir dos olhos verdes menos tristes naquele momento.
Harry permaneceu alguns segundos ali, apenas apreciando o silêncio da sala do trono que agora oficialmente pertencia a Liam, como um ciclo encerrado, dando espaço para outro começar a nascer. Ele pensou que deveria voltar a Wessex o quanto antes e resolver seus problemas o mais rápido possível.
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FLASHBACK
Anne estava com seu filho nos braços e seu sorriso em meio às lágrimas mostravam que tudo o que ela tinha feito para chegar até ali, havia valido a pena. Sir Alastair olhava de longe para a cena de uma mãe aliviada mostrando através de carinhos nos cabelos ralos do filho sua felicidade e amor supremos. Harry estava bem, estava curado e até mesmo ensaiava alguns sorrisos para a mãe que o segurava em cima dos joelhos enquanto apenas olhava para ele, com saudades de ver seus olhos verdes abertos.
— Não esqueça o que combinamos, rainha. — Althea em sua majestosa e absoluta beleza apareceu cercada por uma luz vermelha não muito forte e segurando um cálice de bronze que agora estava vazio. Sua poção da cura havia funcionado perfeitamente no pequeno Harry.
— Cumprirei minha promessa. — Anne disse, secando as lágrimas e segurando Harry em seus braços enquanto levantava-se de onde estava. A caverna escura onde a feiticeira costumava ficar, era perto do mar e deixava o ar completamente úmido. — Meu filho se casará com sua primeira filha.
— Assim que ele se tornar rei. — Ela acrescentou com mais firmeza. — Eu esperarei ansiosamente.
— Muito obrigada pela sua ajuda. — Anne disse sincera, realmente feliz, sentia cada músculo do seu corpo relaxado. — Muito obrigada pela sua bondade. — Ela disse, mas Althea não respondeu, apenas sorriu sem mostrar os dentes.
Anne e Sir Alastair se afastavam do lugar, rumando de volta para a praia a fim de seguir viagem de volta a Wessex. Ela não via a hora de reencontrar seu marido e poder dizer a todos que Harry estava bem. Anne era uma mulher que não media gratidão e iria, sem sombra de dúvidas, fazer sua palavra valer acima de qualquer coisa. Sentiu que saberia que seu filho estava destinado a coisas grandiosas e talvez ter uma rainha fosse parte de todas as suas conquistas. Enquanto velejavam de volta para Wessex, ela pensou que ensinaria a Harry, desde criança, o valor que sua palavra deveria ter uma vez que ele fazia uma promessa.
***
Era comum que muitas mulheres, em algum ponto, acabassem enganadas por deuses, que vinham à terra para perpetuar suas próprias sementes. Não era novidade que, por mais escondidos que estivessem, haviam semideuses rodando pelo mundo, capazes de feitos extraordinários desde o início dos tempos. As lendas existiam e muitas delas haviam sido criadas a partir de histórias e pessoas reais.
Mas não era assim tão fácil provocar os deuses. Eles desciam à terra quando queriam e se queriam. Althea estava determinada a conseguir engravidar de um deles, pois queria que sua prole fosse digna de lugares no mundo acima de todos os mortais. Buscava, dentro de sua mente arrogante, uma esfera diferente, achando que deveria fazer história e mudar os rumos dos destinos das pessoas. Poder era tudo que ela queria.
Seus feitiços para atrair Ares, Apolo ou até mesmo Zeus, falharam miseravelmente. Era notório que ela buscava os deuses mais fortes e bonitos para que seu bebê tivesse atributos necessários para conquistar mundos. Ela estava ficando frustrada, sentia que seu tempo estava acabando, estava quase desistindo, mas tentaria uma última vez. Um feitiço perigoso e que talvez desagradasse ao próprio rei dos deuses, já que ela usaria a boa e velha magia n***a de Nortúmbria para conseguir e precisaria esperar alguns dias para ver se, de fato, o feitiço funcionaria.
A noite, quando foi se deitar, ouviu barulhos na entrada da caverna. Passos disformes e lentos entrando o lugar e ela então voltou a ficar desperta, imaginando que fosse a resposta para seu feitiço. Pela sombra que se aproximava antes de mostrar seu rosto, ela percebeu que não tinha sido exatamente do jeito que ela havia imaginado.
O homem então mostrou-se, tirou o manto n***o, e sorriu ao ver a expressão de pânico da mulher. Ele era manco, andava curvado, tinha o rosto severamente marcado por feridas e bolhas, sua pele estava escurecida e áspera, era um homem absurdamente feio. De baixa estatura, porém parecia extremamente forte. Seus olhos eram negros e pareciam muito cansados, sua vista era ligeiramente comprometida do lado esquerdo, já que o que parecia ser uma doença de pele, agravava pesando a pálpebra de seu olho.
— Hefesto! — Ela disse, apavorada. — Não pode ser…
— Não era exatamente quem você esperava? — Ele riu debochando. Sua risada ecoou pela caverna. — Estava certa que seu feitiço funcionaria, não é?
— Eu não o chamei... — Ela disse, encolhendo-se da cama de pedra dentro da caverna, com medo daquele ser que mais parecia um monstro.
— Zeus pediu que pare de tentar os deuses a virem à terra. — Hefesto disse parando no centro da caverna, um pouco longe daquela mulher. — Você está mexendo com coisas que não deve e vai sofrer as consequências.
— E por que ele não veio pessoalmente dizer isso? — Ela perguntou percebendo que Hefesto não tinha qualquer intenção de machucá-la.
— Zeus conhece suas fraquezas por mortais. — O deus dos ferreiros brincou. — Era possível que ele caísse nos seus encantos.
— E mandou você? — Ela levantou-se de onde estava. — Achando que eu não conseguiria seduzi-lo? — Ela perguntou e o deus deu uma sonora gargalhada, fazendo tremer a caverna.
— Ah você conseguiria sim. — Hefesto respondeu ainda rindo. — Mas você não quer.
Ela se aproximou dele, percebendo que ele não era um deus mau e, mesmo que não o tivesse chamado, certamente ele serviria. Sabia dos segredos obscuros daquele ser, de todas as histórias e os motivos pelo qual ele se parecia daquela maneira, um dos deuses mais feios já descrito pelos mortais que o viram. Hefesto era dono de imensas qualidades, mas beleza não era uma delas.
— Por que costuma andar por aí parecendo-se desse jeito? — Ela perguntou chegando mais perto dele. — Você é um deus, pode se parecer como quiser.
— E eu já me pareço como quero. — Ele respondeu sério, mas sereno. — Eu não estou no Olimpo para agradar as vistas dos mortais. — Ele respondeu percebendo que ela se aproximava cada vez mais dele. — Estou lá para trabalhar.
— Mas se você quisesse... — Ela insistiu. — Poderia se transformar num homem ainda mais bonito que Apolo.
— Mas eu não quero. — Ele reforçou. — Tenho templos e adoradores que sabem exatamente como me pareço e quero que as coisas permaneçam assim.
— Mas antes... — Ela continuou, quase interrompendo-o. — Antes de você cair... — Ela sabia das histórias sobre Hefesto ter todas aquelas cicatrizes e ser manco porque sua mãe, Hera, o atirou do Olimpo quando ele nasceu. — Como você se parecia antes de cair?
Ele ficou em silêncio apenas admirando pela primeira vez desde que entrou naquela caverna, o quanto aquela mulher era bonita. Seus cabelos loiros lhe caíam nos ombros e seus olhos azuis transpareciam uma calma que ela não tinha. Mas, para Hefesto, significava muito que alguém olhasse para ele daquela forma, sem medo e sem achá-lo a criatura horrenda que de fato ele era.
Como se lutasse contra seu próprio instinto de fazer aquilo, ele piscou os olhos e transformou-se. Era agora um homem de trinta anos, com cabelos castanhos e pele impecável. Sua postura era ereta, seus olhos eram cor de prata e ele tinha um belo corpo. Althea arregalou os olhos ao vê-lo em sua forma inicial, antes da queda e, de fato, quase achou que ele era mais bonito que o próprio Apolo. Ele apenas olhou para ela e não conseguiu conter seu ego se inflando ao perceber como era ter os olhos de uma mulher claramente desejando-o naquele momento.
A última vez que sentiu-se assim, foi quando Afrodite aceitou casar-se com ele, apenas para depois traí-lo com Ares. Aquela sensação tão humana e tão mortal tomou conta de suas vísceras e ele não conseguiu evitar a vontade de pertencer, de sentir-se atraente e decidiu naqueles segundos impulsivos, que precisava ter aquela mulher em seus braços, mesmo que aquilo lhe trouxesse consequências graves.
Ele a beijou e a segurou firme, levando-a para a cama. Althea pensou que seu plano não era exatamente o que ela havia planejado, mas aquilo teria que servir. Ao menos se fosse para engravidar, qualquer deus estava servindo.