FLASHBACK
Nove meses haviam se passado após a visita de Hefesto na terra e a rainha Anne havia ficado sabendo da gravidez de Althea. Pediu a Alastair que a visitasse, que visse como estava o bebê e se era saudável. Anne queria trazer Althea e o bebê para Wessex, queria poder ficar perto e de olho na criação da menina que imaginou que ela tivesse dado à luz.
Quando Sir Alastair chegou até a caverna, percebeu o lugar completamente vazio, Althea não estava lá. Ele olhou ao redor e viu a silhueta da mulher no topo de uma pedra, perto demais do parapeito do oceano que parecia agitado, o mar parecia travar uma guerra quando batia suas ondas fortemente nas pedras. Foi então, que o cavaleiro ouviu o choro de uma criança nos braços da mulher, enquanto o vento batia forte bagunçando seus cabelos.
Ela esticou os braços e estava pronta para atirar o bebê dentro do mar.
— Ei! — Alastair gritou em pânico. — O que pensa que está fazendo? — Disse escalando as pedras até o topo a fim de alcançá-la e impedi-la de fazer aquilo. — Por favor, não faça isso! — Ele pediu, vendo que ela parecia furiosa quando o encarou de longe.
— Vá embora daqui! — Ela disse em pânico, seus olhos mostravam que ela parecia ligeiramente desequilibrada, como se tivesse chorado muito. — Não se aproxime. — Ela gritou ao ver que ele chegava cada vez mais perto enquanto o bebê continuava chorando de fome, frio e medo.
— Por que você está fazendo isso? — Ele parou antes que ela usasse sua aproximação como desculpa para atirar o bebê dentro do mar.
— Vá embora, me deixe em paz! — Ela gritou novamente. — Se der mais um passo, eu atiro você também! Nada irá atrapalhar meus planos!
— Essa menina está destinada ao príncipe! — Alastair gritou. — Não precisa ficar com ela, pode me dar e eu a levo daqui!
— Você não entende! — Ela gritou voltando a chorar. — Não é uma menina! — Disse olhando novamente para o bebê que chorava copiosamente sentindo o vento bater em sua pele fina. O desespero daquela criança deixava o cavaleiro ainda mais apreensivo.
— Não importa, me dê esse menino! — Ele suplicou.
— O futuro rei não pode se casar com um homem! — Ela dizia desesperada, sentindo novamente as lágrimas continuarem a cair. — Tinha que ser uma menina! — Esbravejou e, num relance ao ver que Alastair se aproximava ainda mais, pronto para tirar o bebê de seus braços, ela simplesmente soltou a criança dentro do mar.
Antes que o cavaleiro pudesse fazer ou dizer qualquer coisa, ele desceu pela pedreira da caverna na esperança que pudesse salvar o bebê dos braços da água, das ondas fortes. Rezou a Poseidon, pediu que protegesse o menino, seu desespero era tão grande que ele nem estava conseguindo pensar direito. Simplesmente entrou na água e, no mesmo segundo, como mágica, o mar se acalmou.
Um trovão forte do céu contrastava com a calmaria do mar quando Alastair entrou e passou a buscar pelo menino do lado onde Althea o havia jogado. Trovões assustadores e fortes fizeram o céu escurecer e o dia sumir, era noite quando Alastair viu, em uma onda perfeita, como se fossem dedos formando uma mão protetora, o pequeno menino sendo colocado delicadamente na areia, perto das pedras. Seu choro diminuiu e Alastair pensou que ele estava morto.
Ao chegar mais perto, percebeu que os dedinhos das mãos do menino se moviam e ele abriu os olhos azuis como se estivesse cansado, cansado de chorar, cansado de viver. Alastair o envolveu em seus braços, tentando procurar algo que fosse capaz de aquecer aquela criatura e, naquele momento, ele teve absoluta certeza que Poseidon o salvou. Não existia outra explicação para aquele menino estar vivo.
Ao seu lado, ele percebeu alguém lhe estendendo um pano branco, como se tivesse vindo de lugar nenhum. A expressão feia e a pele áspera indicaram exatamente quem ele era, Alastair o reconheceu imediatamente.
— Hefesto. — Ele murmurou pegando o pano branco e envolvendo o menino buscando aquecê-lo em seus braços.
— Zeus está furioso. — Hefesto respondeu. — Leve meu filho daqui. — Ele pediu e Alastair não teve tempo de fazer perguntas, outro trovão quase o ensurdeceu e, no momento em que ele olhou rapidamente para o oceano, fiu a figura de um tridente se formando, como se desafiasse os trovões e protegesse Alastair e o bebê de serem atingidos pelas correntes elétricas.
No momento em que ele buscou a figura de Hefesto novamente, o deus já havia desaparecido e o mar voltava a ficar agitado. Ele saiu da areia buscando abrigo do que parecia ser uma tempestade vindo e segurou com firmeza o menino em seus braços. Olhou para o topo da pedreira e viu Althea ainda lá, chorando desfalecida, de joelhos olhando para o mar. Não sentia empatia por ajudá-la, m*l conseguia acreditar que ela jogou seu próprio filho para a morte.
O cavaleiro correu até seu cavalo e foi embora daqui o mais rápido possível. Escondeu o menino no pano branco em busca dos mantimentos que tinha no navio que havia usado para chegar até ali. Daria o leite que tinha entre suas comidas e tentaria mantê-lo vivo até Wessex. Mesmo que ele não tivesse destinado a casar com o rei, ele era um ser humano, um semi-deus, e não tinha culpa de ter vindo a este mundo da forma que veio.
No navio, após alimentar e acalmar a criança, ele percebeu que o pequeno precisava de um nome. Pensou em sua falecida esposa e no nome que ela havia planejado caso viessem a ter um filho, mas a tuberculose a levou antes que eles tivessem a chance de serem pais.
— Louis. — Ele murmurou para o menino quase adormecendo entre as roupas que ele tinha juntado para fazer um pequeno berço no navio. — Você vai se chamar Louis.
***
FLASHBACK
Assim que Sir Alastair chegou ao porto de Wessex, fez o máximo possível para não chamar atenção por onde passava. Ele atracou o navio de qualquer jeito, percebendo que os guardas, que ficavam nas guaridas da marina, estavam dormindo. O tempo estava calmo, assim como o mar e os trovões pareciam ter ficado para trás. Em seus braços, Alastair levava Louis com cuidado enquanto o garotinho apenas dormia placidamente, sem ter a menor noção de que, já daquele tamanho, estava se portando como um verdadeiro guerreiro lutando por sua própria sobrevivência.
Alastair cobriu o menino, a fim de que ninguém o visse — mesmo que fosse tarde da noite e ninguém andasse mais pelas ruas da aldeia do reino, ele não quis arriscar. Bateu na porta de seu melhor amigo, o ferreiro da aldeia, sabendo que ele poderia ser a única pessoa em quem ele confiava.
— Alastair! — Mark disse ao abrir a porta um tanto sonolento e assustado, dando espaço para que o cavaleiro passasse.
— Eu preciso da sua ajuda. — Alastair disse e, aos poucos, tirava o velho cobertor que cobria Louis por inteiro. Mark arregalou os olhos ao ver o bebê dormindo nos braços do amigo. — Onde está Johannah?
Mark sabia que não precisava pedir explicações, seu amigo provavelmente as daria a qualquer momento. Ao ver o bebê, ele chamou pela esposa que dormia no quarto. A jovem mulher apareceu na cozinha de casa e, por instinto, ofereceu os braços quase que imediatamente para pegar Louis em seu colo. Percebeu que ele estava bem, porém sua pele estava um pouco quente demais e ela calculou imediatamente que o menino estava com febre.
— O que está acontecendo? — Ela perguntou já levanto o menino para o banheiro, usando a água fria da bica para tentar baixar a febre do menino. — Quem é esse menino Alastair?
— O que eu vou contar agora, deverá ser mantido em segredo. — Alastair começou dizendo e Mark franziu o cenho. Sua esposa também queria respostas, mas parecia mais preocupada com a saúde de Louis.
— Fale logo, homem! — Mark pediu, curioso.
— A rainha fez um acordo com a feiticeira de Nortúmbria. — Ele começou e Johannah tinha tanto medo daquele lugar e das histórias que ouviu, que quase soltou aquela criança com medo dela ser amaldiçoada. — Ela curou o príncipe Harry... Mas ele deveria se casar com sua primeira filha.
— Esse menino é filho dela? — Mark perguntou apavorado. — Você roubou essa criança?
— Não, pelo contrário. — Alastair esclareceu, já cansado da viagem. — Ela jogou esse menino no mar justamente por não ter nascido mulher.
— Ela jogou este bebê no mar? — Johannah, que estava de costas, apenas prestando atenção em Louis, colocando pequenos panos úmidos gelados em sua testa para ver se a febre melhorava. — Como pode ter sobrevivido?
— Ele é filho de Hefesto. — Alastair disse após um suspiro.
Mark e Johannah apenas olharam para seu amigo petrificados. Estavam chocados e com medo até de ouvirem aquilo. Alastair não era um homem lá muito devoto das autoridades espirituais, não tinha tanto apreço assim pelos deuses, achava que eles de fato não se importavam tanto assim com os mortais. Era estranho vê-lo falar daquela maneira, com o olhar um tanto assustado.
— E Zeus não quer que essa criança viva. — Ele acrescentou, para aumentar o medo do casal. — Por isso a rainha não pode saber, ninguém pode.
Os três apenas olhavam Louis acordado agora, por conta dos banhos frios e pessoas constantemente tocando nele. Ele começou a chorar, claramente irritado, como quem não queria estar acordado, mas assim que Johannah o pegou nos braços e começou a murmurar uma canção, ele foi aos poucos se acalmando. Era impossível não se comover com um menino tão forte e ao mesmo tempo tão pequeno.
— Esse bebê é filho de uma feiticeira com um deus! — Mark disse, voltando a apavorar a esposa, mas Alastair teve tempo durante a viagem inteira para pensar naquilo.
— Não está esperando que eu e o Mark criemos essa criança! — Ela disse, franzindo o cenho.
— Seu marido é ferreiro... — Alastair disse, tentando manter a calma. — Esse menino é filho de Hefesto... Não imagino que Mark dê as costas ao deus que adora.
— Alastair... — Mark tentou, mas seu amigo logo o interrompeu.
— Ensine-o. — O cavaleiro começou. Fez-se um longo silêncio entre os três antes que ele continuasse. — Esse menino foi salvo por Poseidon, Mark... — Ele disse e o ferreiro engoliu a seco, voltando novamente seus olhos para o pequeno Louis, que tinha as bochechas vermelhas pela febre. — Tenho certeza que ele não travaria uma briga como travou com Zeus para salvar esse menino se não tivesse um propósito.
— O que está dizendo? — Mark perguntou, ficando de frente para o melhor amigo. — Você não é o tipo de homem que acredita nessas coisas, Alastair!
— Mesmo que não queira ficar com o menino, acho que deveria honrar seu deus e ensinar a esse menino a profissão do pai. — O cavaleiro insistiu. — Me dê o menino, eu fico com ele.
— Espere pelo menos ele melhorar. — Johannah disse, olhando carinhosamente para o bebê. — Ele está doente, está com febre, talvez tenha pego alguma coisa no caminho…
— Certo. — O cavaleiro concordou e preparava-se para se retirar. — Avise-me quando ele melhorar e eu venho buscá-lo.
Alaistar não teve certeza de como aquilo aconteceu ou de como Mark e Johannah lidaram com aquele turbilhão de notícias. Notavam que Louis era, apesar de tudo, um menino saudável, tinha olhos bonitos e uma força de vontade para viver que ultrapassava os limites normais de um ser humano. Era possível sentir a cada toque de suas pequenas mãos que ali, havia uma alma especial, que tinha um propósito e não tinha vindo ao mundo a toa.
Ele melhorou em poucas semanas, era novamente um bebê saudável, mas era tarde demais para Alaistar. Johannah se recusou a devolver o menino e quis ficar com ele, criaria como se fosse seu. Mark se afeiçoou ainda mais ao menino ao ver o primeiro sorriso e quando viu que ele era tão pequeno, que quase cabia em sua mão. Alaistar não insistiu, sabia que aquela família estava destinada a criá-lo e soube, em seu coração, que ele seguiria a profissão de seu pai, pois Mark faria o possível para transformá-lo em algo melhor do que ele mesmo.
Todos os dias, Johannah fazia oferendas jogando flores no mar, como um agradecimento a Poseidon, que como se tivesse apadrinhado Louis, recebia de bom grado sempre garantindo que Wessex ficasse protegida da fúrias das águas e que, assim, o segredo se mantivesse obscuro conforme os anos se passaram.
FIM DO FLASHBACK
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Louis havia deixado sua rotina um pouco de lado naquela semana. Não cantava mais para as crianças depois que saía do trabalho e também percebeu que não tinha mais tempo para fazer pequenos brinquedos para elas como era de seu costume. Andava mais retraído, conversava pouco e, não fosse por Calvin ou sua mãe, ele provavelmente m*l estava abrindo a boca pra falar. Trabalhava todas as horas em que o sol estava clareando o céu e só ia pra casa quando percebia que era noite. Focava em seu trabalho apenas para não ter tempo de pensar em Harry.
Claro que nada daquilo andava funcionando muito bem, pois sua cabeça teimava em continuar pensando nele. A cada momento em que sentia-se fragilizado pela lembrança do rei acompanhado de Taylor para ir à coroação de Liam, ele queria mais e mais tentar focar no que estava fazendo, pois tinha sido ensinado a ser um homem trabalhador.
— Ei... — Hannah sorriu ao cumprimentar Louis em sua ferraria. Sua voz doce tomou conta do ambiente, contrastando com o barulho seco e repetitivo de Louis martelando um pedaço de metal para moldar.
— Oi. — Ele disse tirando os olhos do que fazia rapidamente para cumprimentá-la. — O que faz aqui tão cedo? — Perguntou enquanto segurava o pedaço de metal com uma tenaz e colocava-o novamente no fogo.
— Vim trazer algumas coisas. — Ela disse e só então ele notou que ela carregava uma pequena cesta com pedaços de pão, frutas e leite. — Encontrei sua mãe e ela me disse que você saiu correndo de casa sem nem tomar café da manhã.
— É, não estou com fome. — Ele disse sem querer ser rude, mas não estava prestando muita atenção nela. — Mas obrigado por ter trazido.
— De nada. — Ela disse um pouco sem graça, deixando a cesta em cima de uma caixa, cobrindo-a para proteger a comida.
Ela não tinha motivos para estar ali e Louis fazia questão de mostrar que estava bem ocupado. Estava pronta para se despedir e sair dali, mas de longe percebeu Louis andando perto da entrada e olhando quem chegava, parecia que Calvin estava com alguns problemas com uma das carroças da aldeia.
— Não tenho tempo. — Louis disse assim que viu que o amigo iria logo abrir a boca pra dizer que precisava dele.
— Eu não posso fazer nada se você é o único ferreiro aqui. — Calvin disse, tirando um pano bem sujo de cima do pequeno vagão da carroça e deixando à vista alguns equipamentos que precisam ser consertados por Louis.
Tomlinson olhou e, em seguida, percebeu que Calvin logo viu Hannah e os dois começaram a conversar. A moça mostrou a cesta de café da manhã e, ao contrário de Louis, Calvin parecia extremamente interessado naquilo. Louis não queria interferir na conversa e, apesar do mau humor, sabia que teria que fazer aquilo de alguma forma.
Mesmo que ele estivesse acostumado e muitas vezes as pessoas não vissem as raízes de como chegava ao final de seu trabalho, ele esticou o braço pegando uma roda da carruagem que precisava de ajustes. Fazendo um pouco de esforço, ele colocou a roda gigantesca nas costas e marchou de volta para dentro da ferraria. Calvin, mastigando um pedaço de pão, parou imediatamente o que fazia.
— Louis! — Ele disse de olhos arregalados enquanto o ferreiro dava alguns passos colocando a pesada roda em cima de uma de suas mesas grandes
— O que foi agora? — Louis não controlou o tom mau humorado. Hannah também parecia um tanto impressionada.
— Como você conseguiu carregar aquilo? — Calvin perguntou com a boca cheia.
— Aquilo que? — Louis perguntou sem entender.
— Carregar aquela roda sozinho! — Calvin disse dando lentos passos na direção do ferreiro.
— Sempre fiz isso, qual o problema? — Estava um pouco irritado com a conversa excessiva, tudo parecia perda de tempo, só queria trabalhar.
Calvin não respondeu, percebeu que Louis não estava num bom dia para jogar conversa fora ou o que quer que fosse. Mas tinha achado extremamente absurdo que conseguisse carregar uma roda de ferro pesada como aquela, uma vez que aquele era o equipamento capaz de suportar o peso de uma carruagem inteira.
— Certo, faça quando tiver tempo. — Calvin disse após um longo silêncio entre os três. Trocou olhares cúmplices com Hannah, e a moça também parecia não saber direito o que dizer ou fazer naquela situação. Louis realmente não estava com muita vontade de ver ninguém aquele dia. — Depois eu volto. — Se despediu, mas ainda assim, Louis não respondeu, voltou a martelar o ferro quente que tinha começado há horas.
Calvin conhecia bem Louis e sabia que, quando ele estava daquele jeito, era melhor deixá-lo sozinho. Era o tipo de homem que apreciava o silêncio, a calmaria e o som do metal retorcido e do fogo crepitando eram música para seus ouvidos.
Louis não ouviu, mas apareceu em sua loja um homem alto, forte, com a pele bronzeada, claramente um forasteiro — afinal, quase todos em Wessex se conheciam. Aquele homem era extremamente bonito, tinha longos cabelos loiros e os olhos tão azuis que lembravam um lago plácido. Sua vestimenta, no entanto, não era nada glamourosa. As calças estavam sujas e arregaçadas até os joelhos e a camisa velha estava aberta simplesmente porque não tinha mais botões. Porém, aquele homem não parecia abatido, não parecia faminto ou nem coisa do tipo. Pelo contrário, ele sorriu quando viu de relance, atrás de muitas estantes, Louis trabalhando sério, sem prestar muita atenção no que de fato acontecia na entrada da loja.
O homem loiro com longos cabelos adentrou mesmo sem ser convidado. Observou sem se impressionar a forma como Louis chegava tão perto do fogo sem se queimar ou reclamar do calor — por um segundo jurou que o viu segurar uma pinça quente sem nem se dar conta de que qualquer pessoa normal teria fritado sua própria pele ao tocar naquilo. Mas não Louis... E sabia muito bem porquê.
— Bom dia. — O homem disse sorrindo e, mesmo que Louis estivesse concentrado, não se assustou com a presença.
Tomlinson parou o que fazia quase que imediatamente ao ouvir a voz estranha e saiu de onde estava, a fim de ir para a entrada da loja. Ele observou com cuidado o homem, já que claramente não o conhecia e não entendia porque ele sorria tanto. Seus dentes eram tão brancos que chegava até a ser estranho.
— Você é o ferreiro da aldeia, certo? — Ele continuou assim que viu Louis se aproximar, tentando desajeitadamente limpar as mãos no avental grosso que vestia.
— Sou sim, senhor. — Tomlinson respondeu um tanto desconfiado. Aquele homem parecia um navegador pelo tom de sua pele, surrada pelo sol, e pelas roupas típicas de pescador. Até seu cheiro lembrava a maresia. — Precisa de algo?
— Minha embarcação na praia. — O homem disse olhando Louis com uma certa curiosidade. — Sou pescador.
— Eu sou ferreiro, não sei consertar embarcações. — Tomlinson não queria ser rude, mas detestava dar respostas óbvias.
— Não, senhor... Mas estou com meu filho a bordo e ele viu, no cais, algumas crianças brincando cavalos de madeira com rodas para puxar. — O homem começou e Louis quase que imediatamente se desfez da postura defensiva. — Pensei que talvez o senhor tivesse para vender, eu gostaria de comprar para meu filho.
Tomlinson olhou aquele homem estranho na porta de sua loja falando de brinquedos para o filho e pensou que nada poderia ser mais incomum. Ele observou o homem em silêncio por alguns segundos e pensou que tinha uma certa curiosidade em saber de onde ele havia vindo, já que sua aparência parecia um tanto estranha.
— Eu não vendo esses brinquedos, apenas faço para as crianças quando tenho tempo. — Louis respondeu prestativo, tirou o avental e deixou-o num canto qualquer. — mas devo ter dois ou três em algum lugar, geralmente eu troco quando as crianças quebram os delas. — Ele sorriu ao pensar que foi mesmo uma boa ideia deixar alguns brinquedos de reserva.
— Muito obrigado, senhor. — O homem disse pegando um dos cavalos de madeira com rodas de metal que Louis entregou a ele. — Como se chama?
— Louis. — Ele respondeu sentindo-se até melhor, seu mau humor era menor aparente.
— Tristan. — O homem se apresentou de volta estendendo a mão na direção de Louis, sendo retribuído logo em seguida.
Sem tempo para dar qualquer resposta, um menino pequeno entrou na loja, muito parecido com o pai, não mais que quatro anos. Louis sorriu de canto ao ver a criança e seus olhos brilharem olhando para o brinquedo. Seu pai sorriu de volta entregando a ele o pequeno cavalo e trocando palavras com ele, sobre agradecer a Louis pelo que fez. O menino chegou mais perto de Tomlinson e olhou para cima, a fim de olhar melhor para ele.
— Obrigado. — O menino murmurou com um sorriso tímido.
— De nada. — Louis respondeu sorrindo mais aberto enquanto o menino correu de volta para fora da loja para brincar.
— Eu insisto em pagar. — Tristan disse, puxando um pequeno saco de couro amarrado em sua cintura, com poucas moedas de prata. — Não tenho muito, mas espero que seja o suficiente.
— Não é necessário. — Louis fez um gesto com a mão de que não queria o saco de moedas. — É só um brinquedo.
— Obrigado, Louis. — O homem disse realmente comovido. Fitou o ferreiro nos olhos antes de guardar de volta as moedas e Louis mesmo sentiu que estava melhor, mais leve, alguma coisa naquela situação o fez relembrar que não havia motivos para se fechar para o mundo. — Adeus. — Ele disse sorrindo e Louis apenas assentiu com a cabeça sorrindo, o homem deixou a loja e Louis teve a sensação de que realmente nunca mais o veria.
Quando ele virou as costas, Louis notou a tatuagem de um tridente na parte de trás de sua panturrilha. Achou curiosa aquela marca, mas logo esqueceu-se dela.
O cheiro de mar ainda tomava conta da loja por algum motivo desconhecido e Louis sentiu-se relaxado, mais tranquilo e até com fome. Andou até a cesta de comida trazida por Hannah e puxou um banco para sentar-se perto da caixa onde ela havia colocado o objeto. Ao tirar o pano, percebeu que realmente ela teve um cuidado especial ao preparar aquilo e ele foi claramente ingrato ao negar. Pegou um pouco de leite e quebrou o pão na metade e comeu em silêncio, pela primeira vez apreciando o som de nada que havia à sua volta por ser ainda muito cedo.
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Niall era o primeiro a seguir viagem de volta a Mércia naquela manhã após a coroação de Liam — não era novidade que ele não gostava de deixar seu reino por muito tempo e igualmente não gostava de sair de lá. Ele havia dado a ordem para que os preparativos de sua partida começassem naquela manhã, mesmo que ele ainda estivesse em uma banheira de água morna, acompanhado de Josh, que beijava-o quase sem deixá-lo respirar.
— Precisamos ir. — Niall dizia com o outro sentado em seu colo dentro da água, apenas beijando seu pescoço e molhando de leve seus cabelos loiros.
— Não entendo sua pressa a voltar para casa. — Josh dizia num sussurro. — Ninguém vai nos atacar, Majestade. — O comandante dizia fazendo Niall sorrir com a brincadeira.
— Os únicos capazes de organizar o exército para a batalha estão aqui, dentro de uma banheira, há milhares de milhas de casa. — Horan dizia rindo, fazendo Josh igualmente sorrir e finalmente encará-lo nos olhos.
— Confiaria minha vida a você. — Josh disse apaixonado. — Sempre estarei ao seu lado.
— Eu sei, Josh... — Niall disse ficando sério, acariciando o rosto do outro. — Eu realmente quero você ao meu lado, em qualquer circunstância.
— Isso só depende de você querer. — Josh disse trocando um selinho demorado com o outro.
— Mas eu já quero. — Niall sorriu, como se aquilo fosse óbvio.
— Então quer dizer que não haverá mais o baile. — Josh disse cuidadoso, escolhendo bem as palavras. Ele não queria pressionar, mas um posicionamento de Niall já estava se fazendo necessário há um tempo. Niall não havia cancelado os preparativos para o Baile de Solteiras que ele daria para escolher uma rainha, no entanto estava dividindo a cama com Josh sem culpa há muitos dias.
— Josh... — Niall começou sem olhar nos olhos do outro e foi o suficiente para Devine entender que não, ele não cancelaria o baile. — Você precisa entender que são coisas diferentes.
— Você não pode estar falando sério! — Josh disse num sussurro indignado, levantando-se da banheira e saindo do cômodo mesmo que estivesse todo molhado, deixando um rastro no chão.
— Josh, volte aqui. — Niall pediu mesmo sabendo que não seria obedecido e mesmo sabendo que estava errado. — Josh... — Mas o comandante já estava no quarto vestindo-se.
Niall igualmente levantou-se da banheira e pegou uma das toalhas estendidas em uma cadeira para se secar. Ele enrolou na cintura apenas e andou até o quarto. Ele sabia que estava errado em pedir que Josh ficasse com ele extra-oficialmente, mas ele não estava pronto para abrir mão de um casamento tradicional, com uma rainha e filhos. Aquilo era algo que para ele contava mais do que qualquer verdadeiro amor. Mesmo vendo o que tinha acabado de acontecer entre Liam e Zayn, ainda não havia servido para comovê-lo o suficiente.
— Josh, eu... — Niall começou assim que viu o outro vestindo-se com pressa.
— Eu não quero ouvir, pra mim chega. — Ele respondeu áspero, sofrendo, mas decidido. — Essa foi a última vez.
— Nós vamos dar um jeito de fazer isso funcionar. — Niall dizia calmo, sentindo mesmo o verdadeiro medo de perder o outro.
— Como? — Josh perguntou enquanto arrumava o cinto sobre a calça de couro cru e a camisa branca mostrando que estava molhada por ele não ter se secado antes de vestí-la. — Vai se casar por aparências, vai andar por aí de braço dado com uma rainha, mas na hora de dormir, vai ser comigo. — Josh dizia irônico.
— Não vejo nenhum problema nisso. — Niall deu de ombros, achando realmente que aquilo jamais seria um problema pra ele. Mais do que isso, seria a situação perfeita.
— Você é tão egoísta que eu nem consigo entender porque eu te amo. — Josh dizia trincando os dentes, realmente achando um absurdo o que tinha acabado de ouvir. — Se você realmente acha que é o que mereço, então de fato eu não tenho motivos pra brigar por você.
— Não é questão de merecimento! — Niall dizia deixando a calma de lado e já se exaltando. — Se você me ama, faria qualquer sacrifício pra ficar comigo! Se realmente me quisesse, aceitaria essa situação, como prova do seu amor!
— Eu juro que não estou acreditando no que ouço... — Josh arregalou os olhos ao ouvir aquilo, realmente estava surpreso com a falácia do rei. Niall era um homem justo na guerra, um excelente estrategista e um líder como poucos. Mas quando se tratava de amor e relacionamento, ele de fato era um desastre maior do que Devine pensava. — Como tem coragem de dizer uma coisa dessas?
— Qual é o problema? — Niall realmente continuava sem entender. Não era por maldade, mas seu raciocínio era simplório demais.
— Você quer a lista em ordem alfabética? — Josh perguntou irônico. — Quer dizer, tenho que me sacrificar... Mas você tem todo mundo a hora que quiser... — Devine disse quase rindo, achando que aquilo só podia ser brincadeira de tanto que soava absurdo.
— Josh, espere... — Niall, mesmo sem entender, tentava se justificar e chamou por ele impedindo que deixasse o quarto após estar pronto. Ele respirou fundo e apenas ouviu a porta bater como resposta, sabia que Devine não o ouviria.
Ele não estava em condições de exigir coisa alguma dele ou de ninguém, mas também não passava pela sua cabeça porque era necessário tantos conflitos e dramas por causa de um relacionamento. Era fácil encarar seu casamento com uma mulher como negócios apenas, interesses em comum, enquanto que teria todo seu amor guardado apenas para dar a seu comandante. Para Horan, tudo era muito simples e, por muitas vezes, se irritava em pensar no porquê das pessoas complicarem tanto com suas exigências constantes.
Ele vestiu-se rapidamente, desceu até a sala do trono de Liam para se despedir do amigo, até porque Zayn sempre tinha um bom conselho para dar quando se encontravam. Esperava encontrar o apoio dos amigos, porém dadas as circunstâncias dos dois estarem juntos, era provável que eles entendessem Josh muito mais do que a ele mesmo.