Hoje era sexta feira. Eu tinha um evento para participar, e para falar verdade não estava nada animada para isso. Só queria entender porque eu fui designada para essa missão. Nunca tinha feito nada assim e nem gostava de fazer isso. Mas enfim, eu preciso respeitar às decisões da Madre Superiora.
Passei dois dias estudando para esse evento, não só sobre cada orfanato e suas crianças, mas também sobre o convento e às meninas que aqui residiam. Na maioria das vezes elas saiam daqui para buscar suas vidas lá fora. Algumas se davam bem e outras nem tanto. Infelizmente era à realidade. Eu fui à única que optei ser freira, às outras que estavam aqui da minha idade ou mais velhas do que eu, foram embora e nem sabíamos mais delas. Acredito que isso seja um erro do sistema, pois à maioridade assusta. Elas saíram do convento para um destino incerto, e eu não gosto de pensar nisso. Gostaria que à situação fosse diferente. Gostaria que o conselho tutelar ou algum órgão maior às acompanhasse até as mesmas estarem bem no mundo. Porque imagino o que elas passam até se encaixarem na vida. Suspiro. Já estava na hora de ir para o evento.
Me arrumei com meus hábitos de sempre. Coloquei meu hábito do coro na minha cabeça para tapar meus cabelos. Eu estava precisando cortar os mesmos. Talvez à irmã Clara pode fazer algo por mim. Eles estão muito grandes e precisam ser cortados até abaixo dos ombros. Senão o hábito do coro terá que ser maior. Me olho no espelho e estou bem vestida. Toda vaidade foi tirada do meus rosto. Na verdade à menina de dezesseis anos que anos vivia neste corpo não existe mais. Eu era tão vaidosa. Adorava ver mamãe se arrumando e acabava me arrumando com ela. Ela me ensinou à passar o primeiro batom, à primeira maquiagem. Uma lágrima solitária escorre do meu olho esquerdo. meus pais e meus irmãos eram tudo para mim e agora eu não tenho nada deles. Somente lembranças felizes e uma dor no peito que nunca vai passar.
- Irmã Ana? Você está bem? À Irmã Gilda questiona entrando no meu quarto.
- Sim. Eu estou bem. Limpo à lágrima e respiro fundo. Podemos ir? Ela me olha estranho.
- Podemos, mas se não tiver bem, eu posso pedir à Madre Superiora para pedir outra pessoa para ir nesse evento comigo. Sorrio fraco.
- Não se preocupe. Eu estou bem. Vamos, porquê não quero chegar atrasada. Ela assentiu.
Seguimos de carro alugado para o evento. À madre Superiora fez questão de alugar um carro para que Gilda e eu fossemos tranquila. Gilda e eu repassamos todo meu discurso. Eu ainda estava nervosa por falar em público, porém agora não tinha volta. Estávamos chegando e eu estava prestes à começar o meu discurso para várias pessoas desconhecidas por mim. Eu tinha que ser bem convincente porque à doação não era para mim, mas sim para crianças que necessitavam de um futuro melhor do que à família não pode dar.
No evento, às pessoas já estavam algumas sentadas bebendo algo que acho ser um champanhe. Algumas estavam em pé conversando com outras pessoas. Haviam garçons circulando por todos os lugares para servir à todos com petisco e champanhe. Eu só queria entender, como esse evento é patrocinado. O convento vivia de doações e também de uma verba que o governo dava mensalmente, então não via como esse evento era patrocinado. Lembrarei de questionar à Madre Superiora depois.
Era hora de fazer minha parte e dar o meu melhor para que crianças fossem beneficiadas. Fui para o palco e comecei dando uma boa tarde. Logo às pessoas foram se ajeitando em seus lugares e eu pude enfim começar à falar dos orfanatos, de como havia uma necessidade de todos ali fazerem uma doação, seja com dinheiro ou até mesmo um gesto de carinho, indo aos orfanatos para poderem apadrinhar uma criança ou várias. Falei também sobre à necessidade de acompanhar cada criança apadrinhada até sua formação.
Estava falando das doações olhando para cada pessoa ali. Mesmo nervosa, eu estava me saindo bem. Porém vi uma pessoa que estava à todo momento no telefone. Ele não estava prestando atenção em nada que eu falava, ele não estava ali para ouvir sobre doações e isso me irritou profundamente. Como uma pessoa pode vir ao um evento beneficente e não prestar atenção? Estamos falando de vidas, vidas de crianças inocentes que não pediram para serem rejeitadas e terem lares desestruturados. Mas parece que o Sr ali é muito egoísta para pensar em outras pessoas que não seja ele mesmo. Voltei meu olhar para os demais convidados que estavam ali para fazerem esse evento valer à pena. Sempre tinha um que faria desses eventos um nada, mas eu não deixarei que crianças inocentes paguem por um i*****l qualquer. À doação dele ou seja lá o que ele veio fazer aqui, não fará falta, pelo contrário, terá muito mais sem contar com esse ser humano egoísta.
Acabo meu discurso e logo depois tem à dona do evento falando. Saio do palco e vou até à irmã Gilda.
- Você foi perfeita Irmã Ana. Irmã Gilda diz e eu sorrio.
- Que bom. Espero que as pessoas ali estejam dispostas à ajudar os orfanatos e também o convento. Precisamos muito dessas doações.
- E vamos conseguir, não se preocupe com isso. Assinto. Olho para o palco, onde à dona do evento está finalizando seu discurso.
- Boa tarde! Uma mulher ruiva aparece na minha frente. Olho bem para ela e vejo que é uma das mulheres que está com o homem do celular.
- Boa tarde! Irmã Gilda e eu falamos juntas.
- O Sr Grey deseja ter uma palavra com à...
- Irmã. Gilda fala vendo o embaraço da mulher.
- Com à Irmã. Ela fala apontando para mim. Você pode me acompanhar? Assinto.
- Licença irmã Gilda. Peço acompanhando à mulher. Qual seu nome? Indaguei.
- Andréia. Sou uma das assistentes do Sr Grey. Somente assinto chegando perto do homem. Olho para ele impressionada pela beleza dele. Meu Deus, o que eu estava pensando? Eu sou uma freira, devotei minha vida e todos os meus pensamentos à Deus e à sua obra. Não posso ficar olhando à beleza de um homem, ainda mais esse à minha frente que não tem respeito pelas obras de caridade.
- Boa Noite! Digo e ele me olha intensamente. Isso me incomoda.
- Boa Noite! Christian Grey. Ele se apresenta estendendo sua mão e eu faço o mesmo. Sou pega de surpresa com ele levando à minha mão à boca e dando um beijo na mesma.
- Irmã Anastásia. Digo séria . O que eu posso lhe ajudar Sr Grey?
- Christian. Ele fala com calma. E sou que devo perguntar o que posso ajudar. Questiona sedutor. Ele é bonito, mas não sou uma mulher normal para cair na lábia sedutora dele. Ele está tentando fazer seu jogo com à pessoa errada.
- O Sr está no evento de caridade e pode ajudar de muitas formas. Como por exemplo, ir aos orfanatos e ler um pouco para às crianças. Falo isso no sentido dele prestar mais atenção nas crianças, porque é fácil chegar em um evento de caridade, não presta atenção e assinar um cheque depois. Quero ver ir aos orfanatos e dar meia hora do tempo dele à crianças.
- Se você for me acompanhar não me importo. Ele está perdendo tempo dele comigo e eu também. Não vejo o motivo para o qual me chamou.
- Eu não acompanho às pessoas nas visitas aos orfanatos Sr Grey.
- Christian. Mas poderia abrir uma exceção para mim. É mais i****a do que pensei.
- Eu não o faço. Agora se o Sr não tem mais nada para dizer, peço licença. Digo me retirando. Ele não deve saber o que significa à palavra limite. Há, sugiro que se o Sr for à algum orfanato, que esteja presente em vida e não só o corpo. Afinal de contas, estamos falando de crianças que precisam de atenção total e não querem um cara que fica no celular o tempo todo. Saio não dando oportunidade para ele falar algo. Não queria ouvir qualquer babaquice que ele quisesse falar.
- Ele queria fazer uma doação? Irmã Gilda questiona e eu balanço à cabeça em negação.
- Não. Queria aparecer mais. Já não bastou ficar no evento com o celular no ouvido, ele queria ver uma forma de aparecer mais. Digo e ela sorrir.
- Essas pessoas ricas acham que podem tudo né? Nunca vi igual. Mas ele é bem bonito.
- Ao respeito Irmã. Não vamos deixar o pensamento da carne falar mais alto.
- Desculpe Irmã, mas não deixei de notar à beleza dele.
- Eu também não, mas não devemos nos deixar levar somente pela beleza humana, temos que avaliar o coração, à compaixão e o respeito, e esse daí não tem nenhum respeito pelas obras de caridade. Ele não ouviu nada que eu discursei.
- Ele deve ser um homem importante e bem ocupado, pois veio acompanhado de duas mulheres que julgo ser suas assistentes. Ele não deve parar um só minuto.
- Lamento por ele e pela vida dele, mas eu não quero ficar falando dele. Tenho coisas mais importantes para pensar e falar.
- Como por exemplo sua ida para o orfanato em Bristol. Assinto.
- Eu tenho medo de assumir essa responsabilidade.
- Porque? Pelos seus irmãos? Olho para ela e suspiro. Irmã, eu sei da sua história. Sei que diferente de mim, você veio para Deus pela dor, pela perda. Mas eu te pergunto, como será se algum dia você tiver seus irmãos de volta? Fico pensativa com essa pergunta. Você sabe que não pode ter dependentes, não pode ficar com eles. Sua irmã, poderia ser criada no convento, mas seu irmão não. O que você vai fazer? Nunca parei para pensar nisso. Eu só penso em encontrá-los e nada mais. O que eu tiver que fazer depois para mante-los comigo, eu farei. Eles são meus irmãos, e minha família. Não posso dizer à única família porque encontrei uma outra família no convento, porém eu os quero comigo, seja como for, eu os quero comigo.