Pré-visualização gratuita Capítulo 1
Gisele
Hoje, no dia em que completo, 30 anos, percebo que até aqui a minha vida nunca foi minha de verdade.
Moro na mesma casa em que nasci. Não sei o que é viver longe de casa, em outra rua, bairro ou cidade.
Foram sempre os mesmos vizinhos, amigos, amores… tudo sem muita aventura.
Uma vida chata e sem graça, para alguém chata e sem graça.
E uma aventura de amor? Já sabem a resposta, né? Nunca vivi, nem mesmo sei se teria coragem de experimentar o que é uma paixão daquelas que tiram o fôlego, nos fazendo suar em lugares pouco imagináveis.
A pergunta é: será que estou em crise ou finalmente acordei para vida? Essa avalanche de perguntas apenas cresce. Ainda tenho tempo de mudar de rumos, talvez viver um amor de verdade?
Levanto da cama, nessa manhã fatídica de aniversário, hoje dei-me o direito de levantar tarde, às 10h, vantagens de trabalhar em casa. Decido ir ao shopping, almoçar e andar um pouco pelas lojas, só andar porque m*l tenho grana para pagar um lanche, e hoje quero me esbaldar em um combo daqueles que capazes de enfartar um nutricionista.
Com 10 minutos já estava enlouquecendo, o barulho do estômago me fazia sentir vergonha das pessoas sentadas nas outras mesas, mesmo que estivesse sozinha em um canto da praça de alimentação bem distante de todos.
Chegou a hora de pegar o lanche no balcão e saciar a minha fome de leoa. Dirigi-me ao balcão do fast food como se a minha vida dependesse daquele combo que mais parecia um banquete de um bando de adolescentes. Era meu aniversário, meu dia, merecia aquele banquete a la gordelícia.
Fui tão afoita para comer o tal banquete que não me atentei a quem estava diante de mim, ou atrás... só queria saciar o meu desejo adolescente.
(Eis o erro de toda pateta, não olhar quem está próximo a ela).
Já com a bandeja em mãos me virei com todo cuidado que supus ter, porém, com as mãos trêmulas talvez devido à fome ou medo de alguém conhecido aparecer para surrupiar o meu lanche, desatenta esbarrei em algo, revelando o equilíbrio de uma bêbada manca.
Virei para a esquerda com o olhar seguindo o hambúrguer que graciosamente parou debaixo de uma mesa, aos pés de um casal que aparentava estar dentro de uma bolha de amor, eles nem perceberam quando o meu apetitoso hambúrguer com duplo cheddar rodopiava aos seus pés. Logo à minha frente, o refrigerante formou um rio de Fanta Laranja, enquanto isso as batatas fritas, sobreviventes do incidente, permaneceram intactas na bandeja, como? É um mistério.
Vamos o que você faria no meu lugar? Levantaria como se nada tivesse acontecido e pediria outro lanche? Ficaria sem graça pedindo desculpas para o ajudante da limpeza? Começaria a chorar pelo desperdício de comida e de dinheiro gasto na compra do lanche? Qualquer opção dessas demonstraria ser uma pessoa normal. O que eu fiz? Ri. Ri como uma hiena louca, chamando atenção de todos à minha volta. Perfeito, Gisele! Agora você é centro das atenções de dezenas de desconhecidos.
Meus pensamentos foram desde a culpa por está comendo tanta bobagem sozinha até a ideia de castigo de Deus por ser egoísta em comemorar meu aniversário sem nenhum amigo (não que tenha muitos amigos para fazer uma festa de respeito). Seja qual for o motivo daquele desastre, sem dúvida, aquele dia mudaria para sempre a forma de me ver como mulher.
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Alto, corpo atlético (sem exageros), olhos azuis intensos, pele branca que ajuda a destacar o olhar penetrante, cabelos negros levemente penteados para trás, o conjunto de atrativos do tipo que não passa despercebido. Foi a imagem desse homem que vi ao olhar para o meu lado direito e perceber que aquela tentação de macho alfa estava com a camisa branca de puro algodão "estampada" de gordura misturada com refrigerante de laranja.
Paralisei, um misto de vergonha e de impacto por estar diante de um homem tão lindo e atraente.
Ele sorriu.
Como alguém pode ficar tão lindo usando aparelho?
Permaneci inerte, perdida naqueles olhos intensos e no sorriso metálico mais sexy que já vi.
Cerca de 2 minutos depois, acordei do transe tentando argumentar, dizer que não necessitava disso, porém, mesmo sendo alvo da minha falta de atenção, o meu crush do shopping se ofereceu para comprar outro combo para mim. Dessa vez, fui menos ambiciosa pedindo apenas um lanche simples, o mais simples de todos, afinal, já dei um banho de gordura e refrigerante nele e ainda iria extorqui-lo? Não, eu tenho princípios, além disso, nunca fui de gostar de homem nenhum me bancando.
A princípio neguei a aceitar a boa ação, contudo, era nítido que estava com fome, acredito que até dava para ouvir os roncos da minha barriga. Decidi aceitar a gentileza para me ver livre o mais rápido possível daquela cena constrangedora.
Peguei o lanche e segui, correndo daquele lugar como o d***o foge da cruz.
Talvez fosse por pena, mas o olhar dele seguiu-me até que, estrategicamente, escapasse da praça de alimentação.
Claro que era pena, de nenhuma outra forma um homem tão lindo e atraente me seguiria daquele jeito com olhar. Conseguiria despertar algo além de pena em um homem como ele?
Sem graça, sem curvas, apenas uma mulher sem atrativos físicos que facilmente se perde na multidão. Qual homem olharia para mim?