Amélia Fernandes
Em toda a minha vida, acho que nunca tive tanta raiva como agora e a parte mais difícil, creio eu, era que eu não poderia demonstrar isso tão nitidamente, pois, tinha duas crianças na minha casa que não sabiam nada e bem pelo que sei de crianças, elas conseguem ser bastante espertas.
E conhecendo meus netos eles eram duas crianças curiosas que sabiam mais do que aparentavam, conseguia perceber isso só de observar os dois.
Não eram duas crianças que ficavam trancadas em suas bolhas, elas observavam tudo que podiam para quem sabe assim tivessem a chance de descobrir alguma coisa sobre as perguntas que a resposta parecia não vir de jeito nenhum.
Melissa pediu para manter segredo sobre quem era o pai, achava que ainda não era a hora de contar visto que os gêmeos eram bem novinhos.
Não concordava muito com isso, porém, como mãe e avó respeitei as escolhas dela.
Se Aurora e James tinham que saber a verdade seria da boca de Melissa e não da minha.
Então, após ligar para Melissa e ter uma conversa longa de como o meu filho era um grande canalha que nem ao menos procurou a mãe para conversar um pouco sobre as coisas da vida ou explicar o motivo pelo qual tinha sumido, resolvi então preparar alguma coisa para comer e quem sabe esqueceria de algumas coisas; como a vontade gigantesca de bater em Theodoro Fernandes.
Soltei um suspiro profundo, olhei para o telefone e depois para a porta, franzindo o cenho ao ver uma sombra.
Os gêmeos, pensei.
Apesar de ter colocado ambos para dormir, não tinha certeza nenhuma de que eles iriam obedecer essa ordem, e com aquilo só se comprovava a minha teoria.
Me levantei, andei até o quarto onde havia deixado as crianças e abri apenas um pouco da porta para poder ver o que ali acontecia.
Pela luz do abajur consegui ver Aurora e James dormindo, ela com seu ursinho e cobertor rosa e o irmão com seu carrinho e cobertor azul.
Sorri de canto, deixando os sonhar.
Caminhei até a cozinha sem pressa alguma, fiz a coisa mais básica que tinha para fazer como um sanduíche.
Eu não estava com vontade de cozinhar e isso - na teoria - era o que faria menos bagunça.
Arrumei as coisas no balcão e comecei a fazer, quando estava pronto soltei um sorriso orgulhoso de mim mesma.
— Vovó. — Disse o serzinho baixinho e sonolento perto do balcão da cozinha.
A menininha carregava um ursinho com uma das mãos enquanto a outra era usada para esfregar um dos olhinhos.
Por causa do silêncio na casa acabei me assustando com a aparição surpresa de Aurora,e aquela sensação não demorou nada para ir embora dando lugar para um sorriso amigável.
Por alguns poucos minutos deixei de lado o sanduíche e caminhei até minha neta, abaixando para ficar na altura da mais nova.
— O quê foi meu bem? — perguntei acariciei seu rostinho vendo a bocejar, um sorriso pequeno surgiu no meu rosto. — Não está conseguindo dormir?
Assim que me aproximei dela a pequena esticou seus bracinhos e eu sorri com isso.
Deus! Eu me derretia completamente e imensamente por essas crianças.
A peguei no colo e caminhei para a sala, me sentei no sofá trazendo Aurora comigo.
Fiz um pequeno carinho em seus cabelos, ela encostou a cabecinha no meu ombro e abraçou o ursinho.
— Tia Ami, eu tive pesadelos. — Falou.
Eu sei, pode parecer esquisito ela me chamar desde jeito... É que veja bem, ainda sou bem jovem para ser chamada de avó apesar dos pesares.
Então seja lá o que você estiver pensando não me julgue por isso.
A olhei com cautela e preocupação, não era sempre que Aurora tinha pesadelos.
— Oh! querida no que estava pensando? Uh?
Quando ela estava pronta para me responder o irmão então apareceu, estava segurando seu brincando assim como a gêmea.
Sonolento caminhou até a gente sentando se no espaço livre no sofá.
O olhei e olhei novamente para a garotinha no meu colo.
Sabe aquilo de gêmeos serem conectados?Eu creio que seja verdade.
Toda as vezes em que James não se sentia bem, Aurora consequentemente também não estava bem e vise e versa.
Aconcheguei o menor em meus braços, abraçando os dois com um pouquinho de dificuldade.
— O quê aconteceu meu querido? — perguntei.
— Tivi pesadelo. — Falou. — Eu num consigui dormir.
— Você também? — Retruquei um tanto surpresa.
James ao ouvir afirmou com a cabeça, descolou um pouco o corpo do meu e tirou a chupeta da boca para que assim sua voz não saísse estranha ou algo do gênero, e também para que eu pudesse entender o que ele estava querendo dizer.
— Eu sonhei que a mamãe machucavam a mamãe. — Disse.
Olhei com atenção para o menor, Aurora puxou a minha blusa pedindo por um pingo daquela atenção e também confirmou aquelas palavras com um aceno feito com a cabeça.
Soltei um suspiro pesado da garganta.
O quê essas crianças estavam pensando?
Olhei em linha reta e depois desci um pouco o olhar para observa los, sorri largo e abracei os dois.
— Queridos... — Falei dando um pequeno espaço entre uma fala e outra para poder fazer um cafuné em ambos. — A mãe de vocês é a pessoa mais forte que eu conheço, então ela não seria machucada.
— Ela é como uma heroína? — perguntou James.
Eu ri baixinho com aquilo.
As vezes queria voltar a ser criança para ter um pingo daquela inocência.
— Sim. — Respondi um pouco animada. — Sua mãe é como uma heroína.
— Não não não. — Disse Aurora cortando o meu contato visual com James. — Mamãe num é só isso.
— Então o quê ela é? — questionei, queria ver o que a garotinha pensava.
— A mamãe é uma princesa heroína, que saí por aí batendo nos malvadus.
Sorri, as vezes só as vezes é bom ser criança.
— Exatamente, a mãe de vocês é uma mulher incrível então não tem com o que vocês se preocuparem entendeu?
Ao terminar de dizer tal coisa baguncei o cabelo de ambos que automaticamente riram com isso deixando o clima muito mais leve do que antes.