Destino?
Talvez esteja na sarjeta
Onde deixei o meu amor
Que destino caro
Meu V é de Vingança
Pensei que me sentiria melhor
Mas agora estou com dor de barriga
Tudo o que eu faço
A maneira que uso a minha forca
Como se fosse um colar
Eu quero deixá-los com medo
Como se eu pudesse estar em qualquer lugar
Como se eu fosse imprudente
Eu perdi minha cabeça
Eu não me importo
Onde está minha mente?
Bellyache – Billie Eilish
Giulia De Angelis
Não consigo dormir, os sons dos trovões no escuro do quarto junto ao frio causando um tremor nas minhas mãos pelo medo, mesmo sabendo que não deveria, levanto devagar acendendo o abajur ao lado no mesmo momento em que um relâmpago corta o céu clareando a janela do quarto, o desespero sobe pela minha espinha junto com a vontade de correr chorando até o quarto dos meus pais.
Busco forças nas pernas fracas lembrando da mamãe dizendo que já sou uma mocinha por ter completado dez anos então, respiro fundo descendo da cama, calçando as pantufas de gatinho, rezo para que eles não fiquem chateados por bater na porta do quarto essa hora, o som de outro trovão ressoa fazendo minhas pernas fraquejarem.
Corro até a porta abrindo, olhando para todos os lados do corredor e lá no final a luz do quarto dos meus pais está acesa.
Suspiro de felicidade sabendo que eles devem estar esperando, tento colocar a atenção nos passos rápidos ignorando os clarões dos raios contra as janelas de vidro sem conseguir manter a calma como papai ensinou, sinto o desespero invadindo o peito, perto da porta entreaberta assustada escuto a voz dos meus irmãos, alarmada por estarem fora dos seus quartos receosa das brincadeiras chatas de Vincenzo resolvo ficar encostada contra a parede sem entender nada,apenas ouvindo.
—Precisa parecer um acidente Vicenzo- Escutei a voz grave do meu irmão mais velho ressoando pelo cômodo fazendo o som ser mais alto do que os pingos da chuva contra as árvores.
—Não se preocupe com isso, mas e a menina?
—Ela nos servirá de um bom acordo.
Escutei o som dos passos, assustada acabei destravando meus movimentos com medo de receber uma reprimenda dos dois, fiquei sob um aparador atrás da porta encolhida para não ser vista, Giovanni sempre deixa claro que devo seguir os horários discursando sobre as obrigações de uma mocinha da minha idade, esperei escutar os passos na escada para sair debaixo do móvel puxando a porta pesada de madeira, entrei no quarto escuro com uma sensação diferente tomando os pensamentos como um presságio ao não encontrar ninguém, subi em cima da cama dos meus pais desejando que voltem logo para me proteger da tempestade.
Puxo o edredom querendo sentir o calor e o cheiro familiar reconfortante, enxugando as lágrimas ao abraçar o travesseiro, todo pesadelo termina pelo menos era o que pensava. A inocência no momento sendo uma dádiva que logo se tornaria uma lembrança em um passado distante, as dores só crescem e nesse inferno apenas uma rainha sobrevive.
Eles não voltaram, esse foi o início do meu inferno.
Giacomo Costello
Caminho por dentro do cemitério da família observando as pessoas prestando condolências aos dois homens de terno ao lado da lápide, daria um rim pelo prazer de esmurrar a cara convencida do Vincenzo De Angelis, com toda arrogância estampada no olhar. Jovem demais para estar subindo a um cargo tão importante e desprezível demais para dividir o espaço. Passo por mais algumas fileiras de lápides chegando ao local que costumo vir quando preciso pensar.
Antonio Costello - Honrado
Donatella Costello - Amada mãe e adorada esposa.
As lápides úmidas pela estação chuvosa,bem cuidadas com o gramado aparado, fecho os punhos com força sentindo falta dos dias em que voltava para casa ao lado do meu pai, decidido a ter um bom jantar em família servido pela linda mulher de longos cabelos loiros. Segredos guardados sob alguns palmos na terra misturados a inexplicável leveza em meu ser diante disso.
O som de um choro baixinho atrai minha atenção para uma das poucas árvores ainda existentes no terreno, um grande carvalho envelhecido que com essa distância consigo ver um pedaço de pele clara em contraste com a madeira da árvore.
Mudo o rumo dos pensamentos do passado com a curiosidade inoportuna de descobrir quem está se escondendo, olho por sobre o ombro confirmando a fila interminável dos associados puxando o saco do novo nome mais importante dentro da máfia,com seu cãozinho de estimação ao lado fingindo dor com a perda.
O clima fúnebre não é estranho, o vento frio levanta algumas folhas caídas apesar do céu claro nesse momento o anúncio da tempestade espreita pelos cantos como a escuridão no meu peito, escondida pelo falso ar empresarial, aristocrático e pacifico.Por trás da árvore o som do choro é mais alto, fazendo minhas pernas tremerem pelo desejo de querer acalentar, dou a volta no carvalho ficando de frente para um pequeno anjo de cabelos loiros longos cobrindo o rosto com as mãos pequenas.
Percebendo que não está mais só, ergue a cabeça abafando todos os pensamentos macabros da minha mente com os olhos azuis brilhando entre lágrimas e a tristeza estampada pelas bochechas vermelhas.Sem demonstrar medo por ter um monstro na sua frente, piscando várias vezes sob os cílios perfeitos limpando as bochechas, deve ser um pouco mais velha que as minhas irmãs, sinto uma vontade horrível de colocá-la em uma redoma de vidro como uma rosa perfeita.
Quem é você? - A voz saiu trêmula.
Não deveria estar aqui sozinha menina. - Respondo com calma.
Sentindo certa aflição sem saber há quanto tempo a garota está aqui sozinha correndo
riscos,aproveito o momento para sentar na sua frente, deitando a cabeça no ombro querendo observar mais um pouco o pedaço do paraíso caído na terra.
As mãos pequenas tremem enquanto tenta segurar o choro, o vestido preto longo deixando claro que perdeu alguém, os olhos azuis roubando toda a beleza da tempestade que chega.
Eu estou sozinha.
Abro os braços diante do sussurro doloroso numa atitude não pensada, a garota se joga nos meus braços, fazendo minha mente explodir com a sensação de pertencimento, sinto o cheiro doce preso nos seus cabelos, querendo confortar sua dor enquanto sinto o coração pulsar com força desejando mantê-la segura.
Fico perdido no tempo acariciando as madeixas loiras enquanto suas lágrimas voltam a cair sem controle,o sentimento de incapacidade subindo pela minha espinha, então abracei o pequeno anjo com força querendo transmitir algum conforto, com a necessidade de tomar sua dor para mim.
Você nunca vai estar sozinha criança, você tem a mim. - Digo com sinceridade sem entender as palavras que saem pela própria boca.
Os olhos se erguem do meu peito exibindo um brilho lindo no fundo das íris junto com um pequeno sorriso iluminando a escuridão sob minha pele, afastei as mãos das suas costas sentindo que queimam como uma punição por tocar em um ser tão angelical,elevo as mãos puxando o cordão pequeno removendo a pequena medalha com o desenho de duas pequenas asas que herdei escondida sob o terno colocando no seu pescoço delicado sendo agraciado com um sorriso ficando maior deixando o rosto avermelhado como uma escultura.
Quando pensar estar triste, lembre que tem um pedaço meu com você.
Em muitos anos, finalmente senti um sorriso verdadeiro no rosto, ao admirar o olhar agradecido,levantei do chão estendendo a mão para a pequena, que me abraçou com força suspirando e abrindo um sorriso ao correr para longe, admirei os passos apressados com o peito se comprimindo a raiva voltando como uma bola de destruição quando parou ao lado dos irmãos De Angelis. Absorto pela visão aterrorizante do pequeno anjo tão perto dos demônios nem ao menos notei a aproximação do soldado.
Ela vai ser um bom acordo. - Ignorei a voz de Giuseppe.
Atordoado com as sensações que a garota despertou ao mesmo tempo que a fúria sobe pelas minhas veias ao querer arrancá-la de perto dos bastardos se misturando com a realidade, o pecado de ao menos pensar em manter tal anjo comigo.
É apenas uma menina.
Respondi sabendo que o mais fiel e eficiente dos meus soldados não se afastou, desde que fui iniciado meu pai colocou Giuseppe na minha segurança se tornando um bom amigo e conselheiro além de soldado.
Meninas crescem e se tornam mulheres. - Virei observando a expressão estóica esculpida na sua face.
Ela faz parte da nata da família e jamais estaria aos pés daquele anjo.
A raiva se misturou junto com as sombras que se contorcem pelo peito atravessando o estômago com um gosto amargo de derrota o fel crescendo com mais um pecado se construindo no que ainda me resta de alma, seria realmente o fim dos tempos caso aquele anjo estivesse próximo o suficiente para ser corrompido pelos meus desejos, balancei a cabeça dispersando os pensamento tortos.
Como disse, elas crescem e se tornam mulheres, tempo suficiente para estar aos pés dela.
Ele passou pela frente com um sorriso de canto acenando na direção dos homens que deveríamos cumprimentar em respeito,atiçando os cenários pela minha cabeça fazendo as palavras ecoarem se chocarem com as lembranças do inferno que vivo e adoro comandar como um maestro, senti a necessidade de derramar sangue envolvendo os pensamentos antes mesmo de terminar de cumprimentar a família em luto,controlando todas as minhas emoções dentro de uma caixinha na mente para não matar os únicos parentes da garotinha de olhos brilhantes colocando distância o mais rápido possível para não ser o seu carrasco. Às vezes as mudanças nos são impostas como algo aterrorizante o que chega a ser cômico quando o ser humano consegue se adaptar às piores formas de vida degradante sem se importar com a destruição pelo caminho, as mudanças apenas trouxeram a tona quem sou hoje e mesmo que tenha sido abençoado com a visão do paraíso isso não é o bastante para provocar alguma mudança sob as grandes camadas que moldaram o crápula que sou.
O que acontece quando a morte e o amor se abraçam?
O que acontece se aquele anjo se deparar com o demônio que existe sob esse terno?
De todos os meus pecados e dos piores deles, jamais seria capaz de corromper aquele pequeno anjo nem mesmo que fosse a minha redenção. Seria um pecado imperdoável arrancar o brilho daqueles olhos tão expressivos tatuados pela minha mente doentia.