Existe vida lá fora part I

1994 Palavras
Eu vi o d***o, sim, eu o conheci ontem à noite Conversamos, sim, acho que ele é até legal Parecia meio engraçado, sim, ele é meio que meu tipo Sim, sim, sim Eu vi o d***o, sim, eu o conheci ontem à noite Uma conversa, agora ele está passando a noite Eu acho que o amo, embora eu saiba que não é certo (Não é certo, não é certo, não é certo) não - Meet Him Last Night - Demi Lovato Giulia De Angelis Observo o espelho como um inimigo conhecido, evidenciando todos os medos expressos dentro do azul das minhas íris ,com um vestido florido caindo pelo corpo, cobrindo as últimas marcas da semana passada, respiro fundo admirando a pele clara exposta sem nenhuma marca pelos braços e colo, algo realmente raro. Pego a escova de madeira na penteadeira sentindo como um carinho ao passar as cerdas pelos fios criando coragem para resistir ao dia, mais um dia. Linda, comportada, apreciada, vista e sobretudo fiel aos homens que me amam. Tudo o que sempre quis era poder desistir, mas eles não deixariam, eles nunca iriam permitir, a minha dor é mais interessante que a morte, servir como fui ensinada é o propósito estar disposta, estar disponível, estar radiante para receber o prêmio e o castigo. Termino de escovar os fios dourados pela terceira vez, colocando a escova sobre a mesa branca da penteadeira fixando o olhar na caixa retangular aveludada, o perfume das rosas ao lado da cabeceira atraindo a minha atenção para o reflexo do espelho para admirar o jarro com as flores amarelas trazendo o mínimo de vida para dentro desse presídio. Balanço a cabeça recriminando mais uma vez a forma como acabo por retratar a enorme mansão que provém tudo o que preciso, mesmo sendo a âncora que atrai os pecados. Puxei a respiração tentando prender na memória as sensações boas causadas pelo presente, fitei a rosto pálido no espelho limpando a lágrima escorrendo pela bochecha esquerda. Porque estou chorando quando é apenas mais um presente, tenho certeza de que ganharei outros. Retoquei o pó translúcido no rosto apoiando as mãos no móvel tendo consciência do que deve ser feito, é necessário. Ergui do banco agradecendo pela ausência da dor, segurei a caixa colocando dentro da bolsa retangular dourada da Gucci, andando em passos firmes até o closet, analisando os saltos intactos, os vestidos organizados, como posso ser tão ingrata quando tantas pessoas desejam ter apenas o que comer enquanto tenho tudo.. é apenas um pequeno preço a ser pago. Uma mocinha não deve chorar a toa Giulia. A voz da minha mãe reverbera pela mente relembrando um dos seus ensinamentos, mas será mesmo que o meu choro é sem motivo? Balanço a cabeça afastando os pensamentos conspiratórios pegando um peep toe dourado deixando as panturrilhas firmes em exibição contrastando com o vestido florido, criando um aspecto contraditório de felicidade e riqueza por fora, por dentro apenas dor, tristeza e miséria. Não deveria sentir nada disso, não deveria, pois sou amada, tenho tudo. Caminho em passos firmes para fora do closet colocando os pensamentos injustos de volta no fundo da mente, puxando pela última vez o perfume das rosas, abrindo a porta do quarto segurando a maçaneta em busca de forças. Fecho os olhos orando para isso ser fácil, Deus sabe como preciso de algo fácil nos últimos anos, tenho doado todo meu coração para facilitar os problemas, mas às vezes parece que sou capaz apenas de errar. As empregadas como sempre ignoram a minha presença finalizando a limpeza pelos cantos da mansão sem retribuir os cumprimentos, alcanço o corrimão da escada buscando algum apoio, foco em inspirar e exalar a cada degrau erguendo a cabeça quando chego ao último dando de cara com Dominus sustentando a expressão vazia de sempre, se afastando para abrir a grande porta indicando que desistir não é uma opção.. Ele faz questão de analisar cada movimento, cada mínimo detalhe acenando com a cabeça em uma afirmação silenciosa de que posso sair vestida assim. Saindo de dentro da mansão contendo o choro ao sentir a luz quente do sol contra a pele, o gramado continua verde como sempre apesar de não existir mais nenhuma das flores plantadas pela mamãe. Sinto o toque suave no quadril o mesmo que por dentro retorce as minhas entranhas indicando para continuar, desço os degraus em direção ao grande carro blindado estacionado, o soldado abre a porta lançando um olhar de cobiça para as minhas pernas quando me posiciono no assento, encolho automaticamente com a noção de que é apenas mais um pecado para a minha lista interminável. Fico presa nesse pensamento, mesmo sabendo que o olhar continua fixo pelo retrovisor, suspiro com um pingo de felicidade quando a estrada começa a se transformar de grandes árvores em uma rodovia movimentada por pequenos carros os campos ficando para trás enquanto na linha do horizonte os prédios gigantes ganham a vista. É tão difícil sair da mansão ou de qualquer espaço da grande fazenda em que vivo desde que nasci, que sinto um fascínio enorme pelo lado de pedra da cidade. Sempre amei a natureza com todo o coração, mas descobri da pior maneira que o purgatório é na terra, parei de sonhar com príncipes e crianças correndo pela casa cheia de cachorros, aceitando as punições pelos pecados que cometi. Observo as pessoas dentro dos seus mundinhos fechados em cada carro, alguns sozinhos outros acompanhados, fico algum tempo perdida quando vejo mulheres respondendo os motoristas, talvez sejam amantes.. Mulheres nascem para servir,querida. A voz da minha mãe ecoa, reverberando por todo corpo como uma ordem é assim, no mundo em que crescemos é assim, que vivemos. Servir a família, servir aos pais, irmãos e depois aos maridos e filhos ensinando as filhas como servirem para próxima geração se manter decente criando mulheres educadas dentro dos nossos costumes. Seja uma boa menina, sem tatuagens, sem choro, sem confusões. As marcas na minha alma são por culpa minha, por ter nascido assim, uma mulher, uma pecadora. Se ela ainda estivesse aqui iria me recriminar por esses pensamentos, não adianta culpar sem resolver o problema, mas o que posso fazer quando sou o problema? O céu antes claro começa a ser trocado por um ambiente cinzento pela poluição massante da cidade, as buzinas entram em uma competição enquanto a rodovia se reduz a uma larga avenida, os campos deram lugar aos prédios e as calçadas abarrotadas de pessoas se esbarrando com pressa. Por mais que tenha noção do que é necessário, não sinto pressa em voltar, não sinto pressa em chegar ao destino nesse momento, o banco de couro atrás dos vidros escuros parece ser o local perfeito para se estar. Essa viagem em direção ao centro de Nova York é um momento único de liberdade em meses, meus sentimentos se retorcem turbulentos dentro do peito, a razão se confundindo com a emoção, os olhos ardem. Já são tantos anos e as dúvidas ainda fazem questão de serpentear pela minha cabeça como a víbora seduziu Eva, somos a culpa do pecado. Puxo a respiração evitando que as lágrimas caiam, quando sou a culpada, deveria ter sido uma filha melhor, uma irmã melhor.O reflexo do vidro entrega os pecados escondidos sob os olhos azuis, a pele de porcelana cobrindo a sujeira e os fios dourados caindo pelos meus ombros completando a devassidão. Tentei tanto cobrir tudo isso, mas não adianta esconder a maldade em meio às preces, não importa quantas vezes entre dentro da igreja pedindo perdão só existe uma forma de expurgar meus pecados. Acordo dos pensamentos com a porta do carro abrindo na frente de um enorme prédio espelhado, com portas de vidro impressionantes, a calçada abarrotada de pessoas nos seus caminhos com algumas parando para observar o homem alto, loiro usando terno abrindo a porta do carro. Quando percebem que não é nenhuma celebridade desviam os olhos voltando para os seus caminhos, desço do carro caminhando para dentro do prédio tentando formular algo coerente para falar sentindo a companhia do soldado acompanhando meus passos. Ele não me deixa nem falar com a moça simpática que abre um sorriso quando me vê, apenas se coloca na frente indo falar o que viemos fazer aqui. Nem sei porque isso incomoda tanto, não é culpa dele se a pobre moça pode se contaminar comigo. As portas do elevador se abrem, entro obedecendo ao soldado que acena, respiro fundo aproveitando os poucos minutos de diferença dentro da rotina rígida. Os números não param de aumentar, suspirei percebendo que ninguém vai ser capaz de utilizar esse elevador pois estou nele , nenhum contato fora da bolha de proteção. O elevador pára abrindo as portas metálicas, exibindo um amplo espaço fico abismada com o tamanho do lugar nem mesmo a empresa da minha família tem todo esse espaço, poucas pessoas andam pelo local, as paredes de vidro exibem a visão completa do topo de vários edifícios da cidade em uma plena exibição de poder. Dois homens pararam na frente do segurança falando algo baixo o que o faz me olhar com fúria, encolho por dentro com medo de receber algum castigo sem saber o que fiz. Ele acena para que continue entrando pelo escritório e fica parado ao lado dos dois homens indicando a porta grande do outro lado do salão, algumas secretarias abrem um sorriso acenando fazendo minhas bochechas corarem, pelo desejo de ter alguma amiga. Todos parecem entretidos nos seus próprios trabalhos, a porta dupla parece um inimigo bato sem ter nenhuma resposta, deveria ter uma secretária aqui, olho em torno para o computador ligado e os documentos desorganizados pela mesa. Bato na porta com mais força. Pode entrar. - A voz alta parece abafada. Abro a porta entrando com certo receio, estanco assim que fecho a porta arrependida de ter vindo aqui. Sinto as bochechas queimando com a visão de uma ruiva de joelhos na frente do homem sugando seu p*u com todo empenho diria até orgulhosa, eles não param o ato e me sinto constrangida demais para dizer algo. Solto um gritinho atraindo a atenção dos dois, me arrependendo no mesmo instante viro de costas buscando limpar da mente a sensação do olhar escuro. Por favor Giacomo, termine o que está fazendo. - Digo áspera desejando encerrar o mais rápido possível. Como esse homem pode ficar a mandar rosas diariamente, enchendo a minha casa com as minhas flores favoritas e estar aqui se pegando com uma mulher que nem é da família.Suas atitudes com a porcaria do presente pesando dentro da minha bolsa, Vincenzo tem razão, nenhum homem honrado desejaria se casar comigo. A prova disso é que vim pedir gentilmente para que ele pare com as insinuações de interesse, mas é claro que não está interessado, como poderia se interessar em alguém como eu. Fecho os olhos buscando concentrar os pensamentos num único objetivo, não pode casar com ninguém, de formar uma família. Suja dessa maneira como uma qualquer. Já pode se virar Giulia - Acordo os pensamentos depreciativos com a voz grave. Um pouco receosa viro observando com mais atenção a sala ampla com o infame sofá preto vazio a visão panorâmica da cidade por uma parede enorme de vidro e o homem enorme encostado contra uma mesa de vidro preto usando um terno sob medida marcando as pernas musculosas. Fico presa sob o olhar pesado fazendo uma análise meticulosa buscando enxergar todos os meus pecados. Puxo a respiração com força tentando diminuir o calor que se espalha pelas minhas bochechas com a lembrança suja dos sons que ele fez com a moça, abro a bolsa pequena puxando a caixinha de veludo. Vim devolver isso. - Empurro as palavras para fora esticando a mão com o objeto. Abaixo o rosto envergonhada demais, olhando para os sapatos sociais de luxo bem lustrados com uma fivela prateada pequena apertando os olhos, conseguindo decifrar o símbolo da família Costello, quando sinto o objeto sendo puxado.
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