Capítulo 2 - Olhar que avalia

1096 Palavras
Júlia passou o resto da manhã tentando agir como se nada tivesse acontecido. Na teoria, o encontro com o chefe tinha sido normal: ela entrou na sala, entregou os papéis, respondeu o que ele queria e saiu. Profissional e direto. Então, por que a imagem de Pedro Villaça não saía da sua cabeça? Por que a voz dele parecia ainda ecoar nos seus ouvidos? Ela bateu nos botões do teclado com um pouco mais de força, tentando se concentrar. Era ridículo. Pedro era apenas o dono da empresa. Um homem rico, poderoso e muito arrogante que tratava todo mundo com distância. Ele só tinha analisado o trabalho dela como fazia com qualquer outro funcionário. Era isso que ela dizia para si mesma, mas uma parte dela sabia que aquele olhar tinha sido diferente. — Você está com uma cara estranha — Marina disse, aparecendo ao lado da mesa de Júlia. Júlia continuou olhando para o monitor. — Estou trabalhando, Marina. Você deveria tentar fazer o mesmo. — Está trabalhando com cara de quem quer bater em alguém — Marina deu risada, segurando seu copo de café. — O que houve lá em cima? O Pedro falou alguma coisa? Júlia suspirou e parou de digitar por um segundo. — Foi apenas trabalho. Ele é um homem difícil de lidar, só isso. — Difícil? — Marina fez uma careta. — O homem é um mistério total. Ninguém sabe o que ele pensa. Se ele falou com você por mais de um minuto, pode ter certeza de que ele notou que você não é como os outros. Júlia ignorou a conversa, mas não conseguiu ignorar a sensação de que estava sendo vigiada. O escritório estava barulhento, com telefones tocando e pessoas correndo para lá e para cá. No meio da tarde, Pedro Villaça desceu para uma reunião rápida em uma sala de vidro que ficava bem na frente da mesa de Júlia. Ela tentou focar nos números, mas era impossível não olhar. Através do vidro, ela viu Pedro. Ele usava um terno escuro e parecia uma estátua de gelo, sério e imponente. Ele falava baixo com dois diretores que pareciam ter medo de interromper. De repente, Pedro virou um pouco o rosto e olhou para fora da sala. O olhar dele cruzou com o de Júlia por um segundo. Ele não desviou. Ele olhou como se soubesse exatamente quem ela era e o que estava fazendo ali. Júlia sentiu um frio na barriga e rapidamente baixou a cabeça, fingindo que lia um papel qualquer. — Ele não para de olhar para essa direção — Marina sussurrou, passando por ela com um sorriso malicioso. Pouco tempo depois, Pedro subiu novamente para o seu andar. Carlos apareceu logo em seguida, parecendo muito nervoso. Ele entregou uma pasta preta para Júlia. — Júlia, preciso que você leve esses contratos para o senhor Villaça assinar. Agora. — Ele não pode assinar digitalmente? — Júlia perguntou. — Ele quer os papéis físicos na mesa dele imediatamente. Ele perguntou se o administrativo já tinha terminado. Por favor, vai lá. Júlia pegou a pasta e foi para o elevador. O andar da diretoria era muito silencioso e cheirava a perfume caro. Renata, a secretária, fez um sinal para Júlia esperar. — Ele está terminando uma ligação. Pode sentar. Júlia preferiu ficar de pé, segurando a pasta com força. A porta da sala se abriu e Pedro apareceu. Ele olhou para Júlia de um jeito frio e apenas disse: — Entre. A sala dele era enorme e fria. Pedro foi para trás da mesa e estendeu a mão. Júlia entregou os contratos e ficou parada, esperando. Ele começou a ler cada página em silêncio. O único som na sala era o do papel sendo virado. — Você parece tensa, Júlia — ele disse, sem tirar os olhos do papel. — Estou apenas esperando o senhor terminar — ela respondeu, tentando manter a voz firme. Ele levantou os olhos e encarou Júlia com uma seriedade que a deixava desconfortável. — Eu percebo quando alguém tenta esconder o que está sentindo. Se você quer crescer aqui, precisa aprender que eu observo tudo. Principalmente quem acha que pode me desafiar. — Eu não estou desafiando o senhor. Só estou fazendo o meu trabalho — Júlia rebateu, sentindo o sangue subir para o rosto. — Veremos — ele disse, assinando o último papel com rapidez. Ele entregou a pasta e, por um instante, os dedos dele encostaram nos dela. Foi um toque rápido, mas Júlia sentiu um choque percorrer seu braço. Ela puxou a mão depressa e saiu da sala o mais rápido que pôde. Mais tarde, o escritório já estava quase vazio. Eram mais de oito da noite quando Júlia decidiu ir embora. Ela entrou no elevador e, antes que a porta fechasse, uma mão a segurou. Pedro entrou. Ele estava sem o paletó, com as mangas da camisa branca dobradas até o cotovelo. Ele parecia menos formal, mas ainda muito autoritário. O elevador começou a descer em silêncio. — Trabalhando até tarde? — ele perguntou, olhando para o reflexo dela no espelho do elevador. — Tenho muitas coisas para colocar em ordem — ela respondeu, sem olhar para ele. — Você é muito dedicada. Ou talvez só queira provar que eu estava errado sobre você. As portas se abriram na garagem escura. Pedro saiu primeiro, mas parou e olhou para trás. — Tenha cuidado, Júlia. Quem se esforça demais acaba chamando atenção indesejada. Boa noite. Ele caminhou em direção ao seu carro de luxo, deixando Júlia sozinha no elevador, tentando entender o que aquele aviso significava. Na manhã seguinte, Júlia chegou tentando colocar os pensamentos em ordem. Ela precisava de um dia normal, sem encontros nos elevadores ou olhares pesados. Mas, assim que se sentou, viu um pequeno post-it azul colado no canto do seu monitor. Não era um envelope luxuoso, era apenas um recado curto com uma caligrafia firme e elegante: "Os relatórios de auditoria do setor B estão incompletos. Traga seu notebook para a minha sala às dez horas. Você vai refazer os dados comigo hoje." Júlia leu o recado duas vezes. O setor B nem era a sua área principal. Refazer dados com o CEO? Aquilo não era um convite para uma reunião importante; era uma convocação para um dia de trabalho exaustivo sob a vigilância severa dele. Ela sentiu um frio na barriga. Não era uma promoção, era um teste de resistência. Pedro Villaça não estava facilitando a vida dela; ele estava puxando Júlia para dentro do seu território, onde ele tinha o controle total.
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