Capítulo 3 — Primeira Ordem Direta

1064 Palavras
Júlia encarou o pequeno post-it azul por mais tempo do que gostaria. A caligrafia era firme, elegante e não deixava espaço para dúvidas. O setor B nem era a sua área principal, e refazer uma auditoria inteira ao lado do CEO não parecia um prêmio; parecia um castigo. — O que é isso? — Marina apareceu, tentando ler o recado por cima do ombro de Júlia. — Um problema — Júlia respondeu, guardando o papel rapidamente na gaveta. — Problema azul? O Pedro te mandou um bilhete? — Ele quer que eu refaça alguns relatórios na sala dele às dez horas. É só trabalho, Marina. — Na sala dele? O dia todo? — Marina arregalou os olhos. — Júlia, isso não é normal. Ninguém sobrevive um dia inteiro trancado com o "homem de gelo". Júlia ignorou o comentário, mas sentiu um frio na barriga. Ela preparou seu notebook, pegou sua agenda e, exatamente às 09:58, estava diante da porta de vidro escuro. Ela não precisava de sorte, precisava de foco. Ao entrar, o cenário era o mesmo: silêncio absoluto e uma vista de tirar o fôlego. Pedro estava sentado atrás da mesa, sem paletó, com as mangas da camisa branca dobradas. Ele nem sequer levantou os olhos quando ela entrou. — Sente-se ali — ele disse, apontando para uma mesa lateral de mármore, posicionada de frente para a dele. — Os arquivos estão na pasta vermelha. Quero que cruze os dados de vendas com os gastos de logística. Tudo o que o setor B enviou está errado. Júlia assentiu e se sentou. O trabalho começou em silêncio. Por quase duas horas, o único som na sala era o clique suave das teclas dos notebooks. Júlia tentava se concentrar nos números, mas era impossível não notar a presença dele. Pedro trabalhava com uma seriedade assustadora. De vez em quando, ele soltava um suspiro baixo ou passava a mão pelo rosto, mas nunca perdia o controle. A tensão era física. Júlia sentia que, mesmo sem olhar, Pedro sabia exatamente o que ela estava fazendo. — Você está demorando na parte de logística — ele disse de repente, a voz quebrando o silêncio e fazendo Júlia sobressaltar. — Estou revisando os contratos de frete. Os valores não batem com as notas fiscais — ela explicou, tentando manter a voz profissional. Pedro finalmente levantou os olhos. Ele se inclinou para trás na cadeira, observando-a. — Você é detalhista. Isso é bom, mas pode ser perigoso se você perder o prazo. — Prefiro entregar algo certo com um pouco de atraso do que algo rápido e errado, senhor Villaça. Ele deu um meio sorriso, aquele que não chegava aos olhos, mas que fazia o sangue de Júlia correr mais rápido. — Traga o notebook aqui. Quero ver o que você encontrou. Júlia se levantou e caminhou até a mesa dele. Ao chegar perto, o perfume dele a atingiu novamente — madeira e algo que lembrava couro novo. Ela colocou o notebook sobre a mesa de madeira escura e começou a apontar os erros na tela. Pedro se inclinou para ver, ficando tão próximo que ela podia sentir o calor que emanava dele. — Aqui, senhor. O erro está na linha dez. Eles duplicaram o valor do imposto — ela disse, mantendo os olhos na tela para não encarar o rosto dele, que estava a poucos centímetros do seu. — Você tem razão — ele murmurou. A voz dele saiu mais baixa, vibrando perto do ouvido dela. — O Carlos nunca teria notado isso. Júlia sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Ela tentou se afastar, mas Pedro segurou levemente a borda do notebook, impedindo que ela o puxasse de volta. — Por que você faz isso, Júlia? — ele perguntou, finalmente olhando para ela. — Faço o quê? — ela sussurrou, presa naquele olhar escuro. — Tenta tanto ser invisível, mas faz questão de ser a melhor nesta sala? — Eu só gosto de fazer o meu trabalho direito. — Não. Você gosta de ter o controle — ele corrigiu, com uma certeza que a irritou. — E você odeia o fato de que, neste momento, quem tem o controle sou eu. O silêncio que se seguiu foi pesado. Júlia sustentou o olhar dele, recusando-se a baixar a cabeça. Ela viu um brilho de curiosidade nos olhos de Pedro, algo que parecia uma mistura de admiração e desafio. — Pode voltar para o seu lugar — ele disse, soltando o notebook bruscamente. — Termine essa parte até as duas da tarde. Vamos almoçar aqui. Pedi para a Renata trazer algo. O restante da tarde foi uma mistura de exaustão e adrenalina. Eles almoçaram em mesas separadas, quase sem trocar palavras, mas o ar na sala parecia carregado de eletricidade. Júlia terminou o trabalho às seis da tarde, sentindo o pescoço rígido. — Terminei, senhor Villaça. Os dados estão corrigidos — ela anunciou, fechando o notebook. Pedro se levantou e caminhou até a janela, olhando o pôr do sol sobre os prédios de São Paulo. — Você foi mais rápida do que eu imaginei. — Posso ir agora? — ela perguntou, já pegando sua bolsa. Ele se virou devagar. A luz alaranjada da tarde batia no rosto dele, deixando suas feições ainda mais marcantes. — Pode ir. Mas não se acomode na sua mesa lá embaixo. Pessoas eficientes como você não costumam ficar muito tempo no mesmo lugar quando eu decido o contrário. Júlia não respondeu. Ela saiu da sala sentindo que tinha sobrevivido a uma batalha. No andar de baixo, Marina estava saindo e a acompanhou até o elevador. — E aí? Como foi o dia com o mestre do gelo? — Cansativo. Ele é exigente demais — Júlia mentiu, tentando esconder o tremor nas mãos. — Mas ele foi... estranho? — Não, Marina. Foi apenas trabalho. Quando chegou em casa e finalmente relaxou no sofá, o celular de Júlia vibrou. Era uma mensagem de um número desconhecido. Ela abriu, sentindo o coração acelerar antes mesmo de ler. "Você esqueceu sua agenda na minha mesa. Amanhã, você vem buscá-la às oito. Não se atrase." Júlia olhou para a sua bolsa. A agenda realmente não estava lá. Ela fechou os olhos, percebendo que, agora, Pedro Villaça tinha um motivo real para chamá-la de volta. O jogo não tinha terminado com o fim do expediente; ele estava apenas começando a ficar perigoso.
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