Júlia não dormiu bem. A mensagem de Pedro Villaça no seu celular parecia queimar sob o travesseiro. Como ele conseguiu o número dela? E por que ele mesmo enviou a mensagem em vez de pedir para a secretária? Eram perguntas sem resposta que a fizeram chegar na empresa antes de todo mundo.
Eram exatamente oito horas quando ela parou diante da porta da presidência. Júlia respirou fundo e bateu.
— Entre — a voz dele veio lá de dentro, tão firme quanto no dia anterior.
Pedro estava sentado, já focado em alguns papéis. No canto da mesa, a agenda de couro preta de Júlia estava bem visível. Ele não disse "bom dia". Apenas apontou para o objeto.
— Você esqueceu isso.
— Obrigada, senhor Villaça. Eu não percebi — Júlia se aproximou e pegou a agenda, querendo sair dali o mais rápido possível.
— Não vá ainda — ele ordenou, levantando os olhos.
— Ontem você encontrou erros que ninguém mais viu. Hoje, eu tenho algo mais complexo. Você não vai para o seu setor agora.
Avise ao Carlos que você ficará à minha disposição hoje... e depois do horário, se for necessário.
Júlia sentiu o impacto daquelas palavras. Ele não estava pedindo; estava tomando o tempo dela. Ela apenas assentiu, sentindo o olhar dele em suas costas enquanto saía para buscar seu material.
O dia passou como um borrão. Júlia trabalhou em uma mesa pequena dentro da sala dele. O silêncio era interrompido apenas pelo som do ar-condicionado e pelo toque ocasional do telefone. Às seis da tarde, o escritório lá fora começou a esvaziar, mas Pedro não deu sinal de que o dia havia acabado.
Às 18:30, o silêncio na sala ficou mais pesado. Quase todos já tinham ido embora. Pedro se levantou, tirou o paletó e abriu o primeiro botão da camisa, dobrando as mangas. Ele parecia menos formal, o que o tornava ainda mais perigoso.
Ele caminhou até a mesa de Júlia e jogou um documento grosso sobre a mesa.
— Analise isso. Agora.
Júlia abriu o documento. Eram as projeções de custos da nova filial. Ela leu rápido e, em poucos minutos, franziu a testa.
— Isso está errado, senhor.
— O quê? — ele perguntou, aproximando-se.
— Os valores não batem com os relatórios de logística que revisamos ontem. Alguém alterou os números para parecer que o gasto é menor do que realmente é.
Júlia levantou o olhar e deu de cara com Pedro. Ele estava muito perto, observando a reação dela.
— Você tem certeza do que está dizendo? Isso é uma acusação grave contra a equipe de planejamento.
— Eu não trabalho com palpites, senhor Villaça. Eu trabalho com dados. E os dados dizem que este relatório é uma mentira.
O clima na sala mudou instantaneamente. Não era mais apenas uma conversa de chefe e funcionária. Havia algo mais intenso no ar. Pedro se inclinou, apoiando as mãos na mesa de Júlia, cercando-a.
— E você teria coragem de corrigir isso? Mesmo sabendo que vai irritar pessoas importantes?
— Eu não trabalho para manter erros — ela respondeu, sem recuar um milímetro.
— Se o senhor me deu essa tarefa, é porque queria a verdade. Aqui está ela.
Pedro ficou em silêncio por um longo tempo, apenas olhando para ela. Júlia conseguia sentir o calor que vinha do corpo dele. O perfume de madeira parecia envolver seus sentidos, dificultando o foco.
— Você é um problema, Júlia Andrade — ele disse em um sussurro baixo, quase como um elogio.
— Eu resolvo problemas, senhor. — Não. Você cria — ele retrucou, com um meio sorriso que fez o coração dela disparar.
— Você se coloca onde não foi chamada e desafia a ordem das coisas.
— Se o senhor não gostou da minha eficiência, pode me mandar de volta para o administrativo agora mesmo.
— Eu não disse que não gostei — ele falou, a voz caindo um tom, ficando mais rouca.
— Eu disse que você é um problema. E eu gosto de resolver problemas difíceis.
Ele se afastou bruscamente, quebrando a tensão.
— Pode ir para casa. Mas deixe esse relatório comigo. Amanhã, vamos decidir quem será demitido por causa dessa "mentira" que você encontrou.
Júlia pegou suas coisas, as mãos levemente trêmulas. Ela saiu da sala sem olhar para trás. No elevador, ela finalmente soltou o ar que parecia estar preso em seus pulmões. Ela tinha ultrapassado um limite perigoso, e Pedro Villaça tinha adorado.
Quando chegou em casa e se jogou na cama, o celular vibrou. Era ele.
"Você ultrapassou o limite hoje."
Um segundo depois, veio outra mensagem:
"Continue assim."
Júlia encarou a tela, o coração acelerado. Ela sabia que tinha entrado em um jogo de gato e rato. E, pela primeira vez, ela não tinha certeza de quem era o caçador.