A sala de reuniões principal do nono andar parecia menor do que o normal naquela manhã. Talvez fosse a presença de Pedro Villaça, que parecia sugar todo o oxigénio do ambiente, ou talvez fosse apenas o peso da expectativa. Júlia sentou-se na sua cadeira de sempre, na extremidade esquerda da mesa de carvalho. Como executiva de operações, aquele era o seu território. Ela conhecia cada gráfico, cada meta e cada falha daquele setor.
Ao seu lado, Marina estava estranhamente quieta. Ela tinha trocado as brincadeiras habituais por um olhar fixo no tablet, os dedos tamborilando nervosamente na borda da mesa. Júlia, por outro lado, mantinha a coluna ereta e o rosto neutro. Por fora, ela era a imagem da eficiência paulistana: impecável, fria e pronta para o combate. Por dentro, porém, ela sentia que estava a equilibrar-se num fio de navalha.
Pedro entrou na sala dois minutos depois de todos estarem sentados. Ele não trazia pastas, nem assistentes, nem um sorriso de boas-vindas. Ele apenas caminhou até à cabeceira da mesa e ficou de pé, observando os rostos ali presentes. O silêncio que se seguiu foi constrangedor. Em São Paulo, o tempo é dinheiro, e ninguém costumava desperdiçá-lo com silêncios dramáticos, mas Pedro parecia não se importar com as regras habituais.
— Bom dia — disse ele, com aquela voz que Júlia agora reconhecia como um gatilho para o seu nervosismo.
— Eu li os relatórios de desempenho de cada um de vocês. E cheguei a uma conclusão simples: vocês estão a confundir movimento com progresso.
Um murmúrio baixo percorreu a sala. Júlia sentiu o rosto aquecer. Aquilo era um ataque direto ao trabalho que ela coordenava. Como executiva, ela passava doze horas por dia garantindo que a "máquina" não parasse.
— Com licença, Sr. Villaça — Júlia interrompeu, a voz saindo mais firme do que ela esperava. Todos os olhos da sala viraram-se para ela, incluindo os olhos frios de Pedro. — Os nossos índices de produtividade subiram 15% no último semestre. Se isso não é progresso, eu gostaria de saber o que é.
Pedro fixou o olhar nela. Não era um olhar de raiva, mas algo muito pior: era um olhar de quem estava a ver através de uma mentira.
— Números podem ser manipulados para esconder a ineficiência, Sra. Andrade. Vocês estão a correr muito para ficar no mesmo lugar. A minha gestão não se baseia em "esforço". Baseia-se em resultados reais e cortes de gordura.
Marina soltou um suspiro baixo ao lado de Júlia. O clima de "primeira impressão" tinha sido desastroso para todos, mas para Júlia, parecia pessoal. Pedro continuou a reunião dessecando os processos da empresa com uma precisão cirúrgica. Ele apontava falhas que ninguém tinha tido coragem de mencionar antes.
Durante toda a apresentação, Júlia manteve o queixo erguido. Ela era uma executiva respeitada; não ia deixar que um homem, por mais poderoso que fosse, a fizesse sentir-se como uma estagiária. No entanto, a cada vez que ela tentava argumentar, Pedro rebatia com uma lógica fria e esmagadora. Ele não estava ali para fazer amigos. Estava ali para tomar o controle.
— Por hoje é tudo — finalizou Pedro
— Sra. Andrade, na minha sala em cinco minutos. Precisamos de falar sobre o cronograma de operações.
A sala esvaziou-se rapidamente. Os colegas saíram quase a correr, aliviados por terem escapado da mira do novo CEO. Marina tocou no braço de Júlia antes de sair.
— Boa sorte, amiga. Ele parece que come executivos no almoço.
— Ele é apenas um homem, Marina — Júlia respondeu, embora o seu coração discordasse violentamente.
Cinco minutos depois, Júlia batia à porta da sala da presidência.
— Entre — a voz dele ecoou lá de dentro.
A sala era ampla, com janelas que iam do chão ao teto, oferecendo uma vista panorâmica dos prédios cinzentos de São Paulo. Pedro estava de pé, de costas para a porta, observando o trânsito lá em baixo.
— Sente-se, Júlia — disse ele, sem se virar.
Ela sentou-se na cadeira de couro à frente da secretária dele. O silêncio voltou a reinar. Júlia olhou para as mãos no colo e percebeu que estava a apertar a bolsa com força. Relaxou os dedos imediatamente. Não podia mostrar fraqueza.
— A primeira impressão que você teve de mim no elevador foi que eu era apenas um estranho arrogante, não foi? — Pedro perguntou, virando-se finalmente. Ele sentou-se na cadeira dele com uma elegância que a irritava.
— A minha vida pessoal e o que eu penso de estranhos em elevadores não têm nada a ver com o meu trabalho aqui — Júlia respondeu, tentando manter o tom profissional.
Pedro deu um sorriso de canto, seco. — Tem tudo a ver. Porque a forma como você reage ao inesperado diz muito sobre a sua competência. Você entrou em pânico ontem. E hoje, na reunião, você estava tão preocupada em defender o seu território que não ouviu metade das soluções que eu propus.
— Eu não entrei em pânico — ela mentiu, sustentando o olhar dele. — E eu ouvi tudo. Só não concordo com a sua forma de gerir pessoas.
— Pessoas são variáveis, Júlia. Eu prefiro gerir constantes. — Ele inclinou-se para a frente, diminuindo a distância entre eles. — Você é uma excelente executiva, tecnicamente falando. Mas você é uma mentirosa.
Júlia sentiu o impacto daquelas palavras como se fosse um golpe físico. — Como se atreve?
— Você mente para os seus subordinados, fingindo que tem todas as respostas. E mente para si mesma toda a manhã, quando se olha no espelho e diz que o controlo é a sua maior força. — Pedro baixou a voz. — O seu controle é a sua maior prisão.
Júlia levantou-se abruptamente. A cadeira arrastou-se pelo chão, fazendo um ruído estridente.
— Se o Sr. me chamou aqui para fazer análises psicológicas baratas, eu tenho mais o que fazer. Se for sobre o trabalho, mande-me um e-mail.
Ela caminhou até à porta, mas a voz dele travou-a antes que ela pudesse tocar na maçaneta.
— Você acha que a sua primeira impressão de mim foi errada, Júlia? Acha que eu sou o vilão desta história?
Ela virou-se, a mão a tremer levemente na maçaneta.
— Eu acho que você é um homem que gosta de quebrar as pessoas para ver como elas funcionam por dentro. Mas cometeu um erro: você não vai conseguir me quebrar.
Pedro observou-a em silêncio por um longo momento. O olhar dele não era mais frio; era predatório. — Eu não quero quebrar você, Júlia. Eu quero que você perceba o seu trabalho. Agora, pode sair.
Júlia saiu da sala e fechou a porta com mais força do que pretendia. Ela atravessou o corredor em direção à sua mesa, sentindo os olhos de Marina e dos outros colegas sobre si. Ela ignorou todos. Sentou-se na sua cadeira, abriu um relatório qualquer e fixou os olhos na tela.
A sua primeira impressão de Pedro Villaça tinha sido de que ele era um perigo para a sua paz. Agora, ela tinha a confirmação. Ele não era apenas um CEO exigente; ele era alguém que tinha decidido que a vida perfeita de Júlia era uma farsa. E o pior de tudo era que, enquanto ela via o trânsito pesado de São Paulo lá fora, uma parte dela temia que ele estivesse certo.
A executiva de sucesso, a mulher que nunca falhava, a namorada perfeita de Rafael... todas essas versões de Júlia pareciam agora bonecas de porcelana prestes a cair de uma prateleira alta. E Pedro estava apenas parado, observando-as cair.