Capítulo 6 — Um Incômodo Sem Nome

1518 Palavras
Júlia tentou manter o foco durante o restante da tarde, mas o escritório parecia ter se transformado em um campo minado. Cada vez que a porta da sala da presidência se abria, ela sentia um solavanco no peito. Ela odiava essa sensação. O controle, que era sua bússola em São Paulo, estava girando loucamente, sem apontar para lugar nenhum. O trabalho de uma executiva de operações exige uma mente fria. Júlia precisava analisar planilhas de custos, aprovar contratos de logística e gerenciar prazos apertados. Mas, naquele dia, os números pareciam flutuar diante de seus olhos. O rosto de Pedro Villaça e as palavras dele — aquelas análises psicológicas que ele jogou sobre ela como se fossem fatos — não a deixavam em paz. — Você ainda está nessa planilha? — Marina perguntou, aproximando-se da mesa de Júlia com a bolsa no ombro. — O expediente já acabou faz vinte minutos, Ju. Vamos embora antes que a Marginal pare de vez. Júlia piscou, saindo do transe. Ela olhou para o relógio no canto da tela do computador. 18:22. — Só estou terminando de revisar os custos de transporte do próximo mês — mentiu Júlia, fechando o arquivo. Marina encostou-se na divisória da mesa e baixou a voz. — Você está com uma cara estranha desde que saiu da sala dele. O que o "Grande Tubarão" queria? Ele te deu uma bronca ou algo assim? Júlia sentiu um aperto no estômago. Como explicar para Marina que o problema não foi uma bronca profissional, mas o fato de Pedro ter lido sua alma como se fosse um livro aberto? — Ele só tem uma visão diferente sobre como os processos devem ser feitos — respondeu Júlia, sendo o mais genérica possível. — Ele é... intenso. — Intenso é apelido — Marina comentou, revirando os olhos. — O andar inteiro está em estado de choque. Dizem que ele vai fazer uma auditoria completa na semana que vem. Se eu fosse você, não levava esse incômodo para casa. O Rafael está te esperando, não está? O nome de Rafael trouxe uma onda de culpa imediata. — Está sim. Vamos jantar hoje. — Então pronto. Vá ver o seu namorado perfeito, tome um vinho e esqueça que o Pedro Villaça existe por algumas horas. Amanhã o controle volta ao normal. Júlia forçou um sorriso, pegou suas coisas e saiu com Marina. No elevador, ela evitou olhar para o espelho. Tinha medo de ver o "incômodo sem nome" estampado em seu rosto. O trânsito de São Paulo estava em seu estado mais c***l. A chuva fina voltara a cair, transformando as avenidas em rios de luzes vermelhas. Dentro do carro, Júlia sentia o silêncio pesar. Ela ligou para Rafael pelo viva-voz. — Oi, Ju! Já saiu da empresa? — a voz dele era calorosa, cheia de uma alegria que Júlia sentia que não conseguia retribuir no momento. — Saí agora, Rafa. O trânsito está terrível. Vou demorar uns quarenta minutos para chegar ao restaurante. — Sem problemas, meu amor. Eu já estou aqui, consegui uma mesa ótima perto da janela. Vem com calma, não se estresse com os carros. Te amo. — Também te amo — Júlia disse automaticamente. Ao desligar, ela sentiu um nó na garganta. "Te amo". Ela amava o Rafael, tinha certeza disso. Ele era o homem que qualquer mulher em São Paulo desejaria: bem-sucedido, paciente, bonito e completamente dedicado a ela. Então, por que a voz dele parecia tão distante agora? Por que o "incômodo" que Pedro Villaça plantou nela parecia mais real do que o carinho de Rafael? Ela chegou ao restaurante nos Jardins quase uma hora depois. O lugar era sofisticado, com luz baixa e música suave — o cenário perfeito para a vida de comercial de margarina que ela tentava manter. Rafael levantou-se assim que a viu, abrindo um sorriso largo e dando-lhe um beijo terno na testa. — Você parece exausta, Ju — ele disse, puxando a cadeira para ela. — O dia foi longo, Rafa. Novo CEO, novas regras... aquela confusão de sempre. — Eu ouvi falar sobre esse Pedro Villaça — Rafael comentou, enquanto servia o vinho para ela. — Dizem que ele é brilhante, mas que não tem coração. Um daqueles executivos que só enxerga lucro e ignora as pessoas. Júlia tomou um gole longo do vinho. O álcool aqueceu sua garganta, mas não acalmou seus pensamentos. — Ele é mais complexo do que isso, eu acho. Ele... ele observa muito. Rafael franziu a testa de leve, mas logo relaxou. — Bom, ele que fique com as observações dele. Hoje o foco sou eu e você. Como está o planejamento da nossa viagem de fim de ano? Júlia tentou entrar no assunto. Eles falaram sobre hotéis em Trancoso, sobre os projetos de Rafael na arquitetura e sobre os amigos em comum. Rafael falava de um jeito leve, gesticulando, rindo das próprias piadas. Mas, para Júlia, era como se houvesse um vidro entre eles. Ela via a boca dele se movendo, ouvia as palavras, mas sua mente estava presa no escritório. Estava presa no momento em que Pedro disse que o controle dela era uma prisão. — Júlia? — Rafael chamou, tocando suavemente na mão dela sobre a mesa. — Você está aqui comigo? Ela deu um sobressalto. — Desculpa, Rafa. Só me distraí um pouco. — Você não se distraiu, você sumiu por um minuto inteiro — ele disse, com um tom de preocupação genuína. — Esse seu trabalho está te sugando demais. Talvez você precise de uns dias de folga. — Eu sou a executiva de operações, Rafa. Não posso simplesmente tirar folga quando um novo dono assume a empresa. Seria assinar minha demissão. — Eu sei, eu sei. Mas você não pode deixar esse incômodo te dominar. Você sempre foi a pessoa mais centrada que eu conheço. Onde está a minha Júlia controladora e decidida? Ela tentou sorrir, mas o gesto saiu forçado. "A minha Júlia". Rafael a via de um jeito, Pedro a via de outro. E ela, no meio daquilo tudo, não sabia mais quem era. O jantar continuou, mas o incômodo sem nome só crescia. Era uma sensação física, uma espécie de comichão na alma. Ela se sentia culpada por estar ali com um homem maravilhoso e, ao mesmo tempo, sentir um desejo absurdo de estar de volta àquela sala fria, enfrentando o olhar de Pedro Villaça. Era uma loucura. Um vício pelo perigo que ela nunca soube que tinha. Ao voltarem para o apartamento de Júlia, Rafael tentou ser mais íntimo, mas ela deu a desculpa de uma dor de cabeça forte. Ele, sendo o homem compreensivo de sempre, apenas a abraçou e disse que ela precisava descansar. — Durma bem, Ju. Amanhã o dia vai ser melhor. Quando ele saiu, Júlia não foi para a cama. Ela ficou parada na sala escura, olhando para as luzes de São Paulo através da varanda. O silêncio do apartamento era ensurdecedor. Ela pegou o celular e, por um impulso que não conseguiu controlar, digitou o nome de Pedro Villaça no buscador. Apareceram várias notícias. "O fenômeno Villaça", "O homem que não perde batalhas", "A ascensão meteórica de Pedro Villaça no mundo corporativo". Nas fotos, ele sempre aparecia com aquela mesma expressão neutra, o olhar frio que parecia atravessar a câmera. Não havia fotos dele em festas, nem com mulheres, nem em momentos de lazer. Ele era o trabalho. Ele era a própria máquina que Júlia tentava ser. Ela desligou a tela do celular, sentindo o coração bater rápido. O incômodo agora tinha um componente novo: a obsessão. Ela não conseguia parar de pensar no desafio que ele representava. Júlia deitou-se na cama e fechou os olhos, mas o sono não vinha. Ela pensou no Rafael e na vida segura que tinham planejado. Casamento, filhos, uma casa maior, férias em lugares paradisíacos. Era o roteiro perfeito. Era o controle total. Mas então, a voz de Pedro sussurrou em sua memória: "O controle é a sua maior prisão." E, pela primeira vez na vida, Júlia sentiu que as paredes do seu quarto, do seu relacionamento e da sua carreira eram feitas de vidro. Lindas, transparentes, mas sufocantes. O incômodo sem nome era, na verdade, a descoberta de que ela estava começando a odiar a perfeição que tanto lutou para construir. Ela virou para o lado, tentando forçar o cérebro a desligar. Mas ela sabia que, na manhã seguinte, ao passar pelas catracas da empresa e entrar naquele elevador, ela estaria procurando por ele. Não por medo, não por dever profissional, mas porque Pedro Villaça era a única coisa na vida dela que não seguia o roteiro. E isso, por mais que a apavorasse, era a coisa mais emocionante que já tinha acontecido com a executiva Júlia Andrade. O incômodo tinha nome. O incômodo era a sede de algo real, mesmo que esse algo fosse o caos. E São Paulo, com sua garoa constante e seu ritmo frenético, parecia estar apenas esperando para ver o momento em que a mulher que nunca perdia o controle finalmente deixaria a primeira peça do dominó cair.
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