O sábado em São Paulo amanheceu com um sol pálido, tentando atravessar a poluição e as nuvens baixas que costumam cobrir a cidade. Era o dia que Júlia e Rafael geralmente reservavam para eles. Sem planilhas, sem e-mails urgentes, apenas a rotina de um casal que planejava um futuro juntos. Eles estavam em uma cafeteria charmosa na Vila Madalena, um lugar com plantas penduradas e cheiro de pão na chapa, o tipo de ambiente que Rafael adorava para "desconectar".
Mas Júlia não estava desconectada. Pelo contrário, ela parecia ligada a uma tomada de alta voltagem que ninguém mais conseguia ver.
— Júlia, você já mexeu nesse açúcar três vezes. Acho que ele já dissolveu — Rafael disse, com um tom de brincadeira, mas com os olhos fixos nela.
Júlia deu um sobressalto e largou a colherzinha de metal, que bateu na xícara com um tilintar irritante.
— Desculpa, Rafa. Estava pensando no cronograma da semana que vem. O Pedro... o Sr. Villaça quer uma revisão completa dos custos fixos até segunda-feira.
Rafael suspirou e encostou-se na cadeira de madeira. Ele vestia uma camiseta básica e parecia relaxado, o que contrastava violentamente com a rigidez nos ombros de Júlia. — É o terceiro dia seguido que você menciona esse homem em menos de dez minutos de conversa. Eu sei que ele é o novo CEO, Ju, mas você é a executiva mais competente daquela empresa. Por que está deixando ele entrar tanto na sua cabeça?
"Porque ele já entrou", ela pensou, mas não teve coragem de dizer. — É apenas o peso da responsabilidade, Rafa. Você sabe como eu sou. Gosto de ter tudo sob controle antes que os problemas apareçam.
Rafael esticou a mão sobre a mesa e cobriu a mão de Júlia. O toque dele era morno, familiar e seguro. Era o toque de um homem que a amava sem condições. — Eu conheço você, Júlia. Conheço cada expressão sua. E essa que você está usando agora... eu não reconheço. Você está aqui, mas o seu olhar está longe. Parece que você está esperando um golpe a qualquer momento.
Júlia tentou sorrir, mas sentiu que seus músculos faciais estavam travados. — Você está exagerando. É só o estresse de São Paulo.
— Não é o estresse da cidade, Ju. É algo diferente — Rafael insistiu, a voz ficando um pouco mais séria. — Ontem, no jantar, você m*l tocou na comida. À noite, você ficou horas olhando para o teto. E agora, você está agindo como se estivesse em uma reunião de diretoria em pleno sábado de manhã. O que esse cara fez com você?
Júlia sentiu uma onda de irritação subir pelo peito. Ela não queria ser questionada. Não queria que Rafael percebesse a rachadura na sua armadura. — Ele não fez nada, Rafael! Ele é apenas um chefe exigente. Será que a gente pode mudar de assunto?
O silêncio que se instalou entre os dois foi desconfortável. Rafael retirou a mão e voltou a tomar seu café, mas a expressão de dúvida não saiu do seu rosto. Ele era arquiteto; seu trabalho era entender estruturas, equilíbrios e pontos de ruptura. E ele estava sentindo que a estrutura de Júlia estava sofrendo uma pressão externa que ele não sabia como combater.
Depois do café, eles decidiram caminhar pelo Beco do Batman. O lugar estava cheio de turistas e artistas, uma explosão de cores e grafites que geralmente encantava Júlia. Mas hoje, as cores pareciam berrantes demais, o barulho das pessoas falado ao mesmo tempo a incomodava. Cada vez que um homem alto de terno passava por eles, o coração dela dava um salto e******o, apenas para se acalmar em seguida ao perceber que não era Pedro.
— Vamos para casa? — Júlia pediu, depois de apenas quinze minutos de caminhada. — Comecei a sentir uma pontada de dor de cabeça.
Rafael olhou para ela com uma mistura de tristeza e frustração. — Tudo bem, Ju. Vamos.
No caminho de volta, no carro de Rafael, o silêncio foi absoluto. Júlia olhava pela janela, observando o movimento da capital. Ela se sentia péssima. Sentia que estava traindo Rafael, não com atos, mas com pensamentos. Como podia estar ao lado de um homem tão bom e estar desejando o confronto, o medo e a tensão que Pedro Villaça provocava nela?
Ao chegarem no apartamento dela, Rafael não subiu imediatamente. Ele desligou o motor, mas manteve as mãos no volante.
— Júlia, eu vou te fazer uma pergunta e quero que você seja sincera.
Ela sentiu o corpo gelar. — O que foi, Rafa?
— Você ainda quer estar nesse relacionamento?
A pergunta atingiu Júlia como um soco no estômago. Ela virou-se para ele, os olhos arregalados. — O quê? Claro que quero, Rafael! Por que você está perguntando isso?
— Porque eu sinto que estou perdendo você para um fantasma — ele disse, finalmente olhando para ela. Havia mágoa nos olhos dele. — Desde que esse novo CEO chegou, você mudou. Você não ri mais das minhas piadas, você não me conta mais sobre o seu dia de verdade... você está guardando segredos. E o pior segredo é esse incômodo que você não me deixa ajudar a carregar.
Júlia sentiu as lágrimas arderem nos olhos.
— Eu não estou guardando segredos, Rafa. Eu só estou tentando lidar com uma pressão enorme no trabalho. Eu sou executiva, tenho metas, tenho pessoas que dependem de mim...
— Eu também tenho tudo isso, Júlia! Mas eu não deixo o meu trabalho apagar quem eu sou. E esse Pedro... parece que ele está apagando você. Ou talvez, ele esteja despertando algo em você que eu não conheço. E isso me assusta de verdade.
Júlia não soube o que responder. Ela queria abraçá-lo e dizer que tudo ficaria bem, mas sentia que seria uma mentira. Ela deu um beijo rápido no rosto dele e saiu do carro.
— Eu preciso descansar. A gente se fala amanhã, tá?
— Tá — Rafael respondeu, mas a voz dele soou sem esperança.
Júlia subiu para o seu apartamento e trancou a porta. Ela jogou a bolsa no sofá e foi direto para o banheiro. Jogou água fria no rosto, tentando despertar daquele pesadelo emocional. Ela se olhou no espelho. Rafael tinha razão. Ela estava mudando.
Ela pegou o celular e viu que Marina tinha enviado uma mensagem no grupo do trabalho: "Gente, acabaram de confirmar: o Villaça vai passar a segunda-feira toda no nosso setor. Preparem os coletes à prova de balas".
Júlia sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Não era medo. Era uma expectativa sombria, um desejo de ser testada novamente. Ela olhou para a aliança de compromisso que Rafael lhe dera no ano anterior. O metal brilhava sob a luz do banheiro, um símbolo de promessa e estabilidade.
Mas, na mente de Júlia, a imagem que aparecia era a de Pedro Villaça parado no fundo do elevador, dizendo que o controle dela era uma mentira.
Rafael percebeu a mudança porque ele a amava. Pedro percebeu a farsa porque ele era igual a ela.
Júlia deitou-se na cama, sentindo o peso da rotina e o peso da culpa. São Paulo lá fora continuava rugindo, uma cidade que nunca dorme e que nunca perdoa os fracos. E Júlia sabia que, na segunda-feira, ela teria que escolher qual versão de si mesma levaria para o escritório: a executiva que Rafael amava ou a mulher que Pedro Villaça estava começando a desenterrar.
O incômodo agora tinha um peso físico. Era uma pressão no peito que a impedia de respirar fundo. Ela amava o Rafael, ou pelo menos achava que amava. Mas o amor dele era um lago calmo, e Júlia, sem saber o porquê, estava começando a sentir sede de tempestade. E ela sabia que Pedro Villaça era o raio que ia partir o seu céu ao meio.
Ela fechou os olhos e, pela primeira vez, não rezou por controle. Ela apenas esperou que a segunda-feira chegasse logo, para que pudesse finalmente descobrir o que restaria dela quando a máscara caísse de vez.