Capítulo 8 — Renata Observa em Silêncio

918 Palavras
O 12º andar era o lugar mais silencioso de toda a empresa. Enquanto no 9º andar a Júlia lidava com o barulho constante de telefones e a correria da equipe de operações, aqui em cima o som era abafado por tapetes grossos e paredes que pareciam isolar o resto do mundo. Era o andar da diretoria, um lugar onde as decisões eram tomadas a portas fechadas e onde o poder era sentido no ar gelado do ar-condicionado. Renata, a secretária da presidência, era a primeira pessoa que qualquer um via ao sair do elevador. Ela era jovem, extremamente eficiente e tinha olhos que percebiam tudo. Renata já tinha trabalhado com muitos chefes, mas o Pedro Villaça era diferente. Ele tinha uma energia que deixava todos em alerta. Naquela manhã de segunda-feira, ela notou que o clima estava mais tenso do que o normal. Pedro havia chegado muito cedo e não queria ser incomodado por ninguém. Quando as portas do elevador se abriram, Júlia Andrade saiu. Ela caminhava com as costas retas, usando um conjunto de roupa impecável que parecia uma armadura. Para quem olhasse de longe, Júlia era a imagem da segurança. Mas Renata, que tinha um olhar treinado, notou como os dedos de Júlia apertavam a alça da sua pasta de couro com força. — Bom dia, Renata. O Sr. Villaça já pode me receber? — Júlia perguntou. A voz dela estava firme, mas os olhos não paravam quietos. — Bom dia, Júlia. Ele pediu para você aguardar um momento — Renata respondeu, indicando a poltrona de luxo na recepção. — Ele está terminando de ler alguns documentos importantes. Júlia sentou-se. Ela odiava esperar. Em São Paulo, esperar era perder tempo, e tempo era a única coisa que ela sentia que não tinha mais desde que aquele homem aparecera. Ela tentou olhar para o celular, mas não conseguia se concentrar em nada. Sua mente voltava para o encontro no elevador e para a reunião desastrosa da semana anterior. Ela se sentia fora do seu território. No 9º andar, ela era a chefe. Ali, no 12º, ela era apenas alguém esperando por uma ordem. Enquanto isso, dentro da sala, Pedro Villaça olhava para uma foto de Helena, sua namorada. Helena era doce, tranquila e não trazia complicações para a vida dele. Mas, por algum motivo, Pedro não conseguia parar de pensar na resistência que Júlia Andrade oferecia. Ele gostava de pessoas difíceis, de pessoas que não se rendiam facilmente. E Júlia era um desafio que ele pretendia vencer. De repente, a porta pesada da sala da presidência se abriu. Pedro apareceu no batente. Ele não estava de terno completo; estava apenas com uma camisa social azul de mangas dobradas, o que o tornava ainda mais intimidador por parecer tão à vontade. Ele caminhou até a mesa de Renata, ignorando a presença de Júlia por alguns segundos. — Renata, a Sra. Andrade já chegou? — Pedro perguntou, embora Júlia estivesse sentada bem na frente dele. — Sim, Sr. Villaça. Ela está aguardando o seu sinal — Renata respondeu, sentindo a faísca entre os dois. Pedro finalmente virou o rosto para Júlia. O olhar dele era pesado e direto. — Sra. Andrade. Ficar sentada esperando o comando de outra pessoa deve ser uma tortura para alguém que gosta tanto de mandar, não é? Júlia levantou-se na hora. Ela não ia aceitar ser humilhada na frente da secretária. — O que me tortura, Sr. Villaça, é a ineficiência. Se o senhor me chamou aqui para falar de trabalho, vamos falar de trabalho. O tempo da minha equipe no nono andar vale ouro. Pedro deu um sorriso curto. Não era um sorriso de alegria, mas de quem tinha conseguido a reação que queria. — A sua equipe ou a sua necessidade de se sentir importante? — Ele deu um passo para o lado, segurando a porta aberta. — Entre, Júlia. Vamos ver se o seu trabalho é tão bom quanto a sua capacidade de dar respostas rápidas. Ao passar por ele, Júlia sentiu o cheiro do perfume dele, um aroma de madeira que parecia tomar conta de todo o corredor. Foi um momento rápido, mas que fez o coração dela acelerar de um jeito que ela não conseguia controlar. Renata, do lado de fora, observou a porta se fechar atrás deles. Ela soltou um suspiro longo. No andar de baixo, a Marina e os outros funcionários continuavam com a rotina de sempre, sem imaginar a guerra de nervos que estava acontecendo ali em cima. Dentro da sala, o silêncio era absoluto. Pedro caminhou até a janela que dava vista para os prédios de São Paulo e apontou para a mesa à sua frente. — Sente-se, Júlia. E pode tirar essa máscara de "executiva perfeita". Eu vi os seus relatórios e vi as suas defesas. Aqui no 12º andar, eu não estou interessado em apresentações de slides bonitas. Eu só trabalho com a verdade nua e crua. E a verdade é que você está apavorada. Júlia sentou-se, sentindo que o estofado da cadeira era a única coisa que a impedia de tremer. Aquela seria, sem dúvida, a reunião mais difícil da sua vida. O jogo de poder tinha acabado de começar, e ela sabia que, a partir daquele momento, as regras do jogo tinham mudado para sempre. A Renata, na recepção, voltou a digitar em seu computador, mas seus sentidos continuavam voltados para aquela porta fechada. O segredo estava apenas começando a ser escrito, e o preço do controle nunca fora tão alto.
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