De Volta ao passado

2469 Palavras
Século XIX, Soluthur Dois meses se passaram desde o último encontro de Isabelle e Giocondo no baile da Charlotte. Ainda circulavam comentários sobre o possível relacionamento que havia surgido. Mas Giocondo não era visto na companhia de Isabelle em nenhum piquenique ou nas reuniões de jovens que se reuniam quinzenalmente para jogos divertidos. Evril estava em todos, não perdia uma oportunidade de estar no mesmo lugar que seu pretendente Nikläus. No fundo, ela sabia que ele não iria pedir para ela se comprometer. Isabelle continuou seus estudos se aprimorando cada vez mais em outros idiomas. Sua mãe era professora de canto. Muitas moças a procuravam para melhorar suas habilidades oratória e domesticar as cordas vocais; nessa hora uma bela voz podia fazer a diferença na escolha de uma candidata para casamento. Tudo ia muito bem no negócio têxtil da família de Isabelle ao menos era o que aparentava. Seu pai tinha muitos bons contatos com os fornecedores; as senhoras da alta sociedade em soleure estavam sempre procurando seus tecidos maravilhosos para fazer vestidos. Houve clientes que encomendaram muitas peças vindas da Inglaterra. O maior erro do Sr. Du Boise foi não manter grande quantidade em estoque para quando houvera necessidade. Clientes ricos que faziam muitos pedidos, adiavam os pagamentos;era uma prática comum não cobrar pessoas tão distintas ou perderiam a clientela. Porém, antes mesmo de quitar a primeira dívida, esses clientes já faziam outras. Era uma época de consumismo perturbador; madame Du Boise, mãe de Isabella, não estava acostumada a se meter nos negócios do marido, mas percebia uma leve indisposição dele para se divertir. Então ela o chamou para ter uma conversa: —Meu marido, sabe o quanto respeito seu negócio. Dele provém todo o nosso sustento, o dos criados, os estudos da Isabelle com os melhores professores; mas eu o vejo inquieto. Percebo que está evitando viajar para abastecer a loja. Não quer se abrir comigo? O Sr. Du Boise olhou para sua esposa com profunda escuridão em seus olhos. Parecia que estava começando a mergulhar em águas turvas. Foi então que ele falou: —Não há nada que exija sua atenção meu lírio do campo. Eu estou um pouco preocupado porque investi muito em algumas peças das quais já haviam aqui, fiz confusão e não quero troca-las, sabe o quanto é cansativo essas viagens. Não posso voltar e não devo comprar outros tapetes agora. Por isso não se preocupe, logo resolverei tudo assim que houver um novo baile. Todas as senhoras virão correndo fazer compras para arrumar os salões. Sr. Du Boise estava escondendo a verdade de sua esposa. Pelo contrário, já não havia bons tecidos, e tão pouco tapetes novos que pudessem suprir uma grande demanda, até as cortinas haviam sido compradas no último baile sem ninguém efetuar o primeiro pagamento. —Meu marido, vejo uma linha de preocupação em você que não via há anos. Se precisar de ajuda, podemos vender algumas jóias, alguns cavalos puro sangue ou até mesmo pedir um empréstimo ao banco. —Você quer que eles pensem que estou falindo? Não. Eu já disse que não é nada. Acabei de fazer um péssimo negócio com algumas peças. Fica tranquila meu amor. -Madame du Boise não discutiu mais. Algumas semanas depois... —Isabele, querida. Vamos a loja do papai ver se encontro um belo tecido para fazer seu vestido. Temos um chá beneficente para o qual a Duquesa de Genoveva nos convidou, será daqui a duas semanas. Você sabe muito bem como Mademosaile Châteou está sobrecarregada de pedidos. Mas você é uma prioridade para ela. — Mamãe, não quero te desagradar, mas não tenho interesse em estar nesse chá. Só as senhoras estarão lá falando sobre projetos de caridade e não me sinto à vontade. —Minha querida, os jovens foram convidados. É um momento propício para você aprender desde cedo seus deveres com a sociedade mais carente. -Tudo bem, mamãe. Eu farei o que você me pede. Na loja do Sr. Du Boise... —Oh, mas que honra receber um visitante tão ilustre." Se não é o jovem Giocondo Ruschel! — Não tão jovem, meu caro senhor Du Boise- responde Giocondo. Risos - Mas o que te traz aqui, Algum pedido? -Sim. Mas não é para mim. Preciso de tapetes novos. Ouvi dizer que uma remessa chegou há algumas semanas. Posso vê-los? Monsieur du Boise coçou a testa num gesto desconcertante. Giocondo sem dúvida fora o melhor cliente que apareceu em semanas pagando corretamente, mas não haviam mais tapetes de qualidade para oferecer; todos vendidos e não pagos. Naquele momento, a chegada de sua esposa e Isabelle o salvou de mais constrangimento. —Como vai, senhorita Isabelle, senhora Du Boise? Delicadamente ele beijou-lhe as mãos. Isabelle corou. Ela ficou tão surpresa com a presença inesperada que m*l conseguiu responder. Ele deu um meio sorriso olhando para a jovem . — Como vai caríssimo Giocondo, não sabia que era cliente do meu marido?! -Sim, sou um cliente que raramente vem à loja. Normalmente minha mãe faz as compras. Mas hoje ela acordou indisposta. Achei conveniente deixá-la descansar. -Fizeste bem. Desejo o melhor para sua mãe. —Obrigado, senhora. O pai de Isabella pediu licença para ir ao depósito nos fundos da loja; teria que inventar alguma estratégia sobre as vendas de confecção de roupas femininas e decoração das mansões. Não tendo mais o que oferecer de bom, essa seria a saída; não poderia oferecer material inferior. Resolveu então pedir-lhe tempo para adquirir novas peças. — Meu caro Giocondo. Sinto lhe dizer, mas todos os tapetes que haviam em estoque, meu vendedor acaba de me informar que foram encomendados para a Duquesa. Ela estará oferecendo uma chá beneficente . Desculpe não poder atendê-lo imediatamente. —Não se preocupe senhor. Eu não estou com tanta pressa. Poderá solicitar em sua próxima remessa .Eu só queria mesmo escolher as amostras. Faço questão de pagar adiantado. -Muito bem, lhe trago o catálogo de amostras para escolher. – Você poderia me ajudar aqui, querida? -Um momento querido. Sr. Giocondo, faça companhia a Isabelle por gentileza . Não podia ter havido melhor oportunidade que o universo pudesse proporcionar à ambos que alguns minutos a sós outra vez. Giocondo olhou para Isabelle como se tentasse desvendar seus pensamentos. Ela mantinha o olhar baixo, muito envergonhada; não tinha coragem de olhar para Giocondo. Então, ele quebrou o silêncio: —Senhorita, me dê a oportunidade de ver seus lindos olhos verdes mais uma vez. Olhe para mim! Não tenha medo. —Desculpe-me Sr. Giocondo. É que... eu não me sinto confortável na presença dos meus pais. Fico envergonhada. Por outro lado, agora que eles não estão aqui, não sei o que fazer!? — Então deixe-me dizer o que sinto antes que perca a coragem srta, Peço-lhe que não me detenha... é que, eu não consigo parar de pensar no nosso encontro no baile. Isabelle quase perde o fôlego. Ela não queria parecer oferecida, mas não podia perder tempo, ela sorri discretamente consentido sobre o que acabara de ouvir. — Senhor Giocondo, confesso que fiquei surpresa, mas gostei do que me revelou. Se quiser ter outro encontro como o do baile, esteja no chá beneficente da Duquesa. -Sim. Eu farei esse esforço pela srta. Não sou de receber esses convites, mas tenho que admitir que desta vez, valerá a pena. Ela corou, mas desta vez sorrindo para ele sem tirar os olhos. Não era comum esses encontros com um homem estranho mesmo estando com seus pais. Principalmente a sós por alguns minutos. Se despediram. Giocondo seguiu para sua fábrica e Isabella o seguiu com os olhos até vê-lo sumir. O jovem aristocrata saiu com a sensação de ter avistado um anjo. Era assim que ele via Isabelle. Desde o último encontro no baile ele não parou de pensar nela; queria combinar com Charlotte para marcar um encontro, mas não seria possível sendo Isabelle apenas uma garota de dezesseis anos. Seu coração batia forte, suas pernas tremiam e suas mãos suavam no pensamento em poder segurá-la em seus braços. Agora, haveria uma oportunidade melhor de conversar no chá beneficente oferecido pela Duquesa. Enquanto isso na loja... —Isabelli meu amor, você poderia nos deixar um minuto a sós? Preciso falar com seu pai! —O que está acontecendo, mamãe? Tem a ver com minha conversa com o Sr. Giocondo, nós só estávamos conversando! -Não não. É outro tipo de assunto. Negócios, minha filha. Aproveite, vamos ver se você aprova os tecidos que escolhi para o seu vestido. Vá ao balcão e aguarde. Não me demoro. -Sim mamãe, mas acho que não sou mais uma garota. —Nós sabemos, minha filha. Mas não há nada para se preocupar. O Sr. Du Boise ficou desapontado. Ela não poder servir a um homem tão distinto, que no futuro poderia se tornar o pretendente de sua filha. Giocondo era um homem desejado por todas as moças do Cantão de Soleure. A fama de sua família vinha de muitos anos; como eles vieram da Itália e se estabeleceram muito rapidamente. Além de serem pessoas boas e justas dotando o filho órfã de sua dama de companhia. Madame Du Boise percebeu como seu marido se sentiu desconfortável por não ter tapetes em estoque. Não era comum isso acontecer. —Fico mais tranquilo que tenha sido o jovem Giocondo quem fez esse pedido, se fosse outra pessoa agora, toda Soluthurn estaria informada do que aconteceu aqui.- disse o Sr. Du Boise. -Meu marido, volto a insistir que só quero ajudar; eu sei que as mulheres não têm voz nas finanças, mas isso não impede de zelar pelo futuro da nossa filha. Ela vai precisar de apoio. Não minta para mim, conte a situação real em que o negócio se encontra. —Eu já te disse que nada de r**m vai acontecer. Temos tudo sob controle, em breve receberei todos os pagamentos.-disse o marido. — Se for esse o caso, não tocarei novamente neste assunto! — Vamos aguardar as boas notícias que virão com esse chá, ele sempre traz benefícios todos os anos. O Chá de Caridade A Duquesa de Genoveva era uma pessoa elegante. Senhoras e senhores da mais alta sociedade foram convidados, os jovens estariam encarregados de entreter os convidados com suas belas vozes ao piano. Cada convidado participaria do leilão liderado pelo duque Ernest Rollemberg. Pinturas de artistas renomados, jóias, objetos decorativos, vestidos de alta costura seriam leiloadas; sem contar os sete tapetes Persas que saíram da loja dos Boise que estavam incluídos neste evento. As peças mais bonitas e caras comprados pela Sra. Eloise Verne, está não pagou por eles nem a primeira parcela; dois meses já se haviam passado. Certamente quis se apresentar como benfeitora doando ao leilão obtendo assim o agradecimento da Duquesa. Sra. Eloise só não contava com a presença dos donos das peças neste evento. Algo desconcertante a fez sair à francesa buscando esconder-se . Os demais convidados chegaram em suas belas carruagens. Senhoras elegantemente vestidas. Isabelle foi uma das últimas a entrar. Estava num modelo muito bonito. Mademosaile Châteou não poupou nos detalhes no vestido cintura alta de renda azul turquesa e pedras de topázio em seu delicado decote. A bela Isabelle tinha uma linda e discreta tiara de pérolas negras no topo da cabeça. Seus longos cabelos dourados estavam levemente soltos na parte de trás em cachos feitos delicadamente por sua mãe. Ela era a juventude exalando por seus poros. Seu rosto estava iluminado como o Sol. No fundo da sala, conversando com alguns jovens estava Giocondo elegantemente vestido. Ele amava a cor marrom. Seus olhos azuis eram doces e encantadores. Um sorriso discreto que só deixava escapar em momentos especiais, e esse com certeza era um deles. Ele a viu entrar; era como uma criança ao receber um presente. Seus olhares não poderiam ser indiferentes. Parecia não haver mais ninguém naquela sala bem decorada com lindas rosas brancas, lírios e jasmim. No meio da sala, pendia um grande candelabro de esplêndida beleza. Os doces estavam distribuídos em um amplo buffet. Era para ser ao ar livre, mas o tempo não estava cooperando naquela tarde de outono de 1778. Giocondo esperou alguns minutos para não parecer um intruso. Esperou que Evril e Charlotte se aproximassem dela, então logo seria convidado a se juntar a elas. A música começou a ressoar pela sala com a voz de uma jovem convidada. A duquesa parecia satisfeita com sua recepção. Charlotte e seu noivo Henrico abordam Giocondo o convidando para cumprimentar a jovem Isabelle e sua família. Ele rapidamente os segue. Não havia felicidade maior dentro dele de quando olhava para seu sol. Isabelle foi chamada ao piano para recitar um soneto. Estava ruborizada ao ver seu amado ali, mas tinha a oportunidade de expressar seu amor brotando dentro de seu peito. Uma outra jovem estava ao piano tocando Clair de lune de um jovem de apenas 17 anos que mais tarde seria amplamente reconhecido por suas belas sonatas: Claude Debussy. Giocondo suspirou com as palavras que saíram daqueles lábios naturalmente rosados. Após recitar o soneto e deixar todos encantados, Giocondo a convidou para sentar ao seu lado. — Estou muito encantado com sua maneira de recitar o soneto. Confesso que leio muito e já fui a recitais em Paris nas minhas viagens; mas nunca tinha escutado com uma voz tão melódica como a sua. —Estou feliz que tenha gostado. Aprecio muito os recitais. É uma pena não ter estado em muitos. —Se puder um dia, convidarei a srta, acompanhado de seus pais, é claro! -Certamente irei – eles sorriram. O leilão foi anunciado. Havia muito para mostrar. Os primeiros lotes eram joias... Os segundos eram peças decorativas de porcelana imperial de algum colecionador ausente. os tapetes persas ricamente ornamentados logo foram introduzidos. Monsieur Du Boise e sua esposa quase caíram da cadeira. Olharam-se assustados, chamando a atenção de Giocondo que não pôde deixar de reconhecer ali a mercadoria. Ofertas foram feitas. Estavam em alta porque a coleção teria que sair completa. Algumas ofertas foram feitas: "Dou-lhe uma... Dou-lhe duas..."- dizia o leiloeiro ostentando o martelo suspenso. Uma oferta foi oferecida por Giocondo, vendo o desconforto dos pais da sua amada, ele dobra a oferta dos tapetes. Os Boises sentiram algum alívio por Giocondo ao adquirir as peças, assim não teriam mais que esperar a chegada de outro carregamento que levaria meses. Mas, a intenção de Giocondo era devolver toda a coleção ao Sr. Boise. Ele percebeu que houve má-fé por parte de quem os leiloou. O chá continuou com uma conversa agradável. Os Boise encheram Giocondo de perguntas. Isabelle ria de cada resposta do jovem. Organizaram um jantar em sua residência para agradecer tanto esforço para comprar os tapetes mesmo sem saber da intenção de Giocondo em devolvê-los. Eles saíram felizes. Os dois se olharam com ternura, desejando um novo encontro.
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