Amanda
Cheguei pontualmente no meu primeiro dia de trabalho, às sete da manhã, com um sorriso enorme nos lábios e uma mistura de nervosismo e excitação borbulhando em meu peito. A fachada da casa dos Miller era imponente, mas a arquitetura moderna transmitia uma sensação de aconchego, algo que eu esperava encontrar em meu novo ambiente. Respirei fundo, tentando acalmar a leve tremedeira nas mãos, e toquei a campainha.
Uma, duas, três vezes. O silêncio da manhã parecia amplificar o som da campainha, e a cada toque, uma pontada de ansiedade me atingia. Será que ninguém estava em casa? Ou talvez eu tivesse vindo muito cedo, apesar do horário combinado? Justo quando estava prestes a tocar pela quarta vez, a porta se abriu de repente.
Uma menina linda estava parada ali, me encarando com olhos que eram a cópia exata dos olhos da Senhora Alessandra. Era Emily, sem dúvida alguma. Sua semelhança com a mãe era extraordinária, quase como ver uma versão em miniatura, mas com uma expressão que prometia problemas.
— Oi, eu sou a ba... — Comecei a dizer, estendendo a mão para um cumprimento amigável, mas ela me interrompeu abruptamente, o rosto fechado.
— Eu sei! Entra! — disse ela, com uma grosseria que me pegou de surpresa. A voz era aguda, cheia de raiva contida. Engoli em seco, sentindo um nó se formar na garganta, mas forcei um sorriso e entrei. A menina bateu a porta com tanta força que o som ecoou pela casa.
— Você não po... — Comecei a falar novamente, tentando estabelecer algum tipo de comunicação, mas ela me interrompeu outra vez, virando-se para mim com os braços cruzados e um olhar de desafio.
— Ah, dá licença, não venha achando que vai chegar e mandar em tudo. — disse ela, me fuzilando dos pés à cabeça, como se estivesse me avaliando e me achando completamente inadequada.
Tenho que admitir, essa garota estava me dando calafrios. A hostilidade em seus olhos, a maneira como ela se portava, era intimidante. Era clara sua insatisfação em ter uma babá. Eu sabia que seria um desafio, mas não esperava uma recepção tão fria e agressiva.
De repente, a voz de Alessandra, a Senhora Miller, preencheu o ambiente.
— Emily, essa foi a educação que eu te dei!? — Minha patroa entrou na sala, os olhos fixos na filha, uma expressão de repreensão no rosto.
Emily não se intimidou.
— Não! A educação que recebi só uso com quem merece! — ela disse, quase gritando, a voz cheia de ressentimento. Arregalei os olhos, chocada com a ousadia da garota. Era um nível de desafio que eu nunca tinha visto.
— Emily! — Alessandra a repreendeu novamente, o tom mais firme.
As duas ficaram se encarando, uma batalha silenciosa de vontades. Emily, pequena e furiosa, e Alessandra, mãe cansada, mas determinada. E eu, no meio, apenas olhando para elas, assustada com a intensidade da cena. Uma estava com mais raiva que a outra, e eu estava ali, uma estranha no ninho, observando o drama familiar se desenrolar.
Então, como uma melodia familiar no meio do caos, a voz de Alex preencheu o local, quebrando a tensão.
— E... está tudo bem aqui?
— Não!! — Alessandra e Emily responderam juntas, a sincronia surpreendente, apesar da discórdia. O som de suas vozes unidas me fez dar um leve sobressalto.
— Ah... está sim. — Digo, tentando apaziguar a situação, um sorriso forçado nos lábios. Meu olhar encontrou o de Alex, e por um instante, o caos ao redor pareceu diminuir.
— Não minta, Amanda, você sabe que não está tudo bem! — Alessandra disse, virando-se para Emily com uma cara de dar medo, os olhos estreitos em advertência.
— Eu já disse que não quero ter babá! Não sei por que essa garota está aqui, ela vai ser uma inútil! — Emily disse, apontando para mim com desdém, e então se virou e saiu correndo, subindo as escadas, os passos pesados ressoando pela casa.
Uma tristeza me invadiu. Era impressionante como as palavras daquela garota, que eu acabara de conhecer, conseguiram me afetar tanto. Senti uma pontada de insegurança. Será que eu realmente seria inútil aqui? Será que não conseguiria fazer meu trabalho?
— Emily, volte aqui agora! — Alessandra gritou, e foi atrás dela, pisando forte, a raiva evidente em cada passo, me deixando sozinha com Alex no meio da sala.
Senhor, me ajude. Era o que eu pensava. A situação era embaraçosa, e estar sozinha com ele era um tipo diferente de desafio.
— E... então... bom... você... — Ele começou a falar, as frases incompletas, passando as mãos pelos cabelos em um gesto que revelava sua timidez.
Vê-lo assim me deu uma vontade incontrolável de abraçá-lo. Ele ficou realmente muito fofo tímido. Era um contraste interessante com a imagem do "gato" que eu tinha em mente.
— Amanda, não é mesmo? — Ele perguntou, já perdendo a timidez, um brilho divertido em seus olhos.
— S-sim. Alex, né? — Digo, mordendo o lábio, demonstrando meu nervosismo. A proximidade dele me deixava um pouco desorientada.
— Exato. — Ele disse, com um sorriso que me deixou sem fôlego. O sorriso dele era tão... cativante.
— Irmão mais velho? — Pergunto, tentando disfarçar minha própria reação, erguendo a sobrancelha, um pequeno desafio em meu tom.
— Não, sou o do meio. — Ele disse, dando um passo para frente, diminuindo a distância entre nós novamente. O ar entre nós pareceu ficar mais denso.
— Quantos anos você tem? — Digo, sentindo-me mais solta, o nervosismo diminuindo um pouco diante da sua atitude descontraída.
— Dezoito, e você? — Ele disse, dando mais um passo, ficando ainda mais próximo. O cheiro do seu perfume, suave e amadeirado, me atingiu.
Com medo dessa proximidade, eu dou um passo para trás, quase imperceptível, mas o suficiente para criar um pequeno espaço.
— Tenho dezessete. — Digo, e aperto as mãos, uma forma de controlar a energia que se acumulava em mim.
— Fico feliz por isso. — Ele abriu um sorriso encantador, um sorriso que parecia ter sido feito para me desarmar, e saiu da sala, rumo à cozinha.
Eu me sentei no sofá, as mãos cobrindo meu rosto. Estava totalmente nervosa com o que estava acontecendo dentro de mim. Meus pensamentos eram tomados por Alex. Era incrível como ele conseguia fazer isso com as garotas. Eu o acabara de conhecer e já pensava nele vinte e quatro horas por dia. Era ridículo, eu sabia, mas não conseguia evitar.
— Para de pensar nele. — Sussurrei para mim mesma, tentando me repreender, fustigar esses pensamentos que não me deixavam em paz.
— Nele quem? — A voz dele soou ao meu lado, e eu dei um pulo de susto, colocando a mão no coração que batia descontroladamente. Ele havia se sentado ao meu lado sem que eu percebesse.
— E-em ninguém. — Gaguejei, sentindo minhas bochechas ficarem quentes novamente.
Alex soltou uma risadinha, seus olhos fixos nos meus, um brilho de divertimento neles. Ele se levantou.
— Vou levar minha irmã para a escola. Tchau, Amanda. — E, num movimento rápido, inclinou-se e me deu um beijo no canto da boca.
Senti meus pelos arrepiarem, meu coração acelerando a ponto de eu achar que ele fosse saltar para fora do peito. Uma vontade de gritar me preencheu, uma mistura de surpresa e uma euforia que eu não entendia.
Controlei o impulso de gritar, pois não queria ser demitida no meu primeiro dia. Imagina que mico: m*l começo e já vou embora. Seria um desastre, e eu precisava desesperadamente desse emprego.
Alguns minutos se passaram. Emily desceu as escadas rapidamente, com a mochila nas costas, e foi direto para a porta.
— Bom estudo. — Digo, acenando para ela, tentando um último gesto de boa vontade.
— Valeu. — Ela disse, sem sequer olhar para trás, e fechou a porta com um baque seco.
Suspirei. Ia ser difícil fazê-la gostar de mim. Seu temperamento era realmente difícil de lidar, mas eu não era de desistir rápido. Meu objetivo era ajudá-la, e eu faria o possível para cumprir isso.
— Não ligue para a Emily, ela é meio difícil. — A voz suave de Alessandra me fez virar. Ela apareceu, descendo as escadas, um pequeno sorriso cansado no rosto.
— Não se preocupe, senhora Alessandra. — Digo, levantando-me do sofá e ficando de frente para ela.
— Por favor, me chame de Sandra, somente. — Ela disse gentilmente, com um aceno de cabeça.
Concordei com a cabeça. Era um alívio ter um ambiente tão acolhedor com os pais, mesmo que a filha fosse um desafio.
— Venha, vou lhe mostrar a casa. — Sandra disse, estendendo o braço em um convite.
Sandra começou a me levar em cada cômodo daquela casa enorme, me mostrando tudo, explicando os detalhes. Mas, honestamente, tudo o que eu conseguia pensar era: será que Alex vai demorar para voltar? Uma parte de mim estava completamente focada em meu trabalho e nas responsabilidades, mas a outra, a parte mais nova e inexperiente do meu coração, estava inexplicavelmente ansiosa por sua próxima aparição. Era uma confusão.