Alex
— E aí, garoto. — Digo, com o tom mais frio e ameaçador que consigo reunir. O brilho da manhã se esvai, substituído por uma tensão palpável. O grupo de garotos ao redor de Rick se encolhe, e ele próprio recua um passo, o olhar um pouco assustado.
— E aí. — Rick responde, sua voz um pouco menos confiante do que a de um "namorado" deveria ser. A hesitação na sua resposta já me levanta uma bandeira vermelha.
— O que você é da Emily? — Pergunto, apontando para minha irmã, que está travada no lugar, a alguns metros de nós, os olhos fixos na cena.
— Nada. Por quê? — A resposta dele me pega de surpresa. O "namorado" dela, o pivô de toda a minha fúria protetora, n**a a relação? Há uma grande probabilidade de ele estar mentindo para se safar, mas a sinceridade em seus olhos parece genuína.
— Qual é o seu nome? E quantos anos você tem, moleque? — Cruzo os braços, minha postura desafiadora, mesmo com a informação inesperada. Tenho que ter certeza.
— Rick, e tenho quinze. Pra que dessas perguntas? — Ele pergunta, erguendo a sobrancelha, um fio de irritação se juntando ao seu medo.
— Olha, pra resumir: eu sou irmão da Emily. E se você se atrever a tocar nela, eu vou ter o prazer de acertar um soco nessa sua cara. — Minha voz é baixa, mas carregada de uma raiva que eu m*l consigo conter. O instinto protetor é mais forte do que a razão.
— Calma aí, cara. Eu nem gosto da sua irmã. Ela que gosta de mim, e eu não pretendo ficar com ela, nem nada do tipo. — Ele se defende, e a facilidade com que ele joga a bomba me atinge como um soco. Ele não está apenas se defendendo, ele está esclarecendo os fatos. O pior fato possível.
— E também, eu nunca gostei dessa garota! — Rick grita, as últimas palavras em um volume alto o suficiente para que Emily ouça.
Viro minha cabeça para minha irmã, e o que vejo me destrói. Lágrimas em seus olhos, uma expressão de dor e humilhação estampada em seu rosto. A raiva que eu sentia por Rick se transforma em algo mais complexo: um misto de culpa e frustração. Eu deveria ter sido mais cuidadoso. Eu deveria ter perguntado a ela.
— Emy! — Grito, mas é tarde demais. Ela se vira e sai correndo para dentro da escola, os soluços ecoando atrás dela.
— Bom, com licença. — Rick diz, com um suspiro de alívio, e também entra na escola, me deixando sozinho no meio do estacionamento.
Penso em correr atrás da minha irmã, em consolá-la. Mas então, olho para o relógio em meu pulso. Já estou super atrasado para a faculdade. A minha própria negligência me impediu de estar lá para ela.
— Desculpa, Emy. — Murmuro para o lugar onde ela estava, sentindo um peso no meu peito, e corro em direção ao meu carro.
Acelero sem pensar na grande quantidade de multas que irei receber. O som do motor, o vento batendo na janela, é a única coisa que me acalma. Não estou nem ligando, meu pai paga tudo. Essa é a verdade crua da minha vida: as consequências sempre são mitigadas.
Entro na faculdade correndo, os passos ressoando pelo corredor, e vou direto para a sala de aula. O professor está prestes a fechar a porta.
— Atrasado de novo, Alex? — O professor, um homem de meia-idade com um ar eternamente cansado, abre a porta para mim, a desaprovação evidente em sua voz.
— Tive uns contratempos. — Digo, ofegante, e ele suspira, permitindo minha entrada.
Vou rapidamente para meu lugar e me sento ao lado de Matt, meu melhor amigo, que me olha com uma expressão de surpresa e curiosidade.
— Tava pegando quem, Alex? — Matt sussurra, um sorriso malicioso em seu rosto.
— Quem me dera. — Resmungo, reclamando. — Eu estava resolvendo um assunto importante. — Digo no mesmo tom, mas sem o brilho do deboche.
— Envolve suas irmãs? — Ele pergunta, conhecendo bem meus padrões.
— Acredita que Emily arrumou um namorado? — Sussurro, com ironia. — Eu fui lá bater um papo com o garoto, só isso. — Matt solta uma risada alta e estridente, chamando a atenção do professor.
— Qual é a graça, Matt? Compartilhe com a classe, tenho certeza que todos também queremos rir. — O professor diz, em um tom de voz sério, apontando o giz para nós.
— Prefiro guardar pra mim, além disso, é um assunto pessoal. — Matt responde, colocando as mãos na cabeça, fingindo inocência.
O professor nos ignora e volta a escrever no quadro n***o.
— Você é louco. — Digo, rindo.
— Pelo menos não sou ciumento. — Matt diz, e eu lhe dou um tapa no braço, fazendo-o rir novamente.
— Chega! Alex e Matt, vão para fora agora!
— O professor grita, apontando para a porta, sua paciência esgotada.
Eu e Matt nos levantamos e saímos da sala, em meio a um ataque de riso. O professor, o atraso, a bronca... tudo se torna uma grande piada.
— Sempre saio da sala por sua culpa. — Digo, rindo, enquanto caminhamos pelo corredor.
— Minha culpa nada, sua culpa. — Ele responde. Respiramos fundo, tentando acalmar o riso para não parecermos dois loucos no meio do corredor vazio.
Depois de duas aulas arrastadas, a hora do intervalo finalmente chega. Vamos direto para a cantina pegar nosso lanche. Matt pega um sanduíche gigante, e eu pego uma maçã e um copo de suco, pensando na babá que só come maçã.
Depois de pegarmos tudo, fomos para nossa mesa, a mesa dos populares. A mesa dos Miller, eu diria. Mylene, minha irmã mais velha, também senta nela. Tendo eu como irmão, quem não seria popular? Além de Mylene e Matt, também estão Vivian (uma loira com quem já fiquei), Léo (um garoto sem importância) e por enquanto é só.
— Alex Miller! — A voz de Mylene, carregada de fúria, me encara assim que me sento.
— Lá vem! O que foi, pirralha? — Digo, a encarando, o deboche já se espalhando na minha voz.
— Pirralha? Eu?! Ah, querido, quem é a mais velha aqui!? — Ela diz, os olhos soltando fogo.
— Tá bom, "irmãzinha", fala logo o que foi? — Digo, segurando o riso.
— Eu vou te bater se continuar com essas criancices! — Mylene se levanta e apoia as mãos na mesa, inclinando-se para a frente, pronta para a briga.
— Desculpa, mamãe, eu não faço mais. — Digo, fazendo bico, a provocação se intensificando. Léo e Matt se acabam de rir, Vivian apenas assiste a cena, assim como todos os outros alunos, já que Mylene chamou a atenção de todos.
Vejo Mylene olhar para o copo de suco em sua frente e depois para mim, um olhar maligno. Eu já sei o que ela vai fazer.
— Mylene, não faz i... — Não termino a frase porque Mylene despeja todo o suco em minha camiseta.
— Ops! — Mylene diz, com um sorriso vitorioso assim que termina de derramar.
Matt não para de rir da minha cara, Vivian está roxa de tanto rir e Léo nem respirando está mais. O suco escorrendo pela minha camisa, a sensação pegajosa, a humilhação pública. Mas eu sou um Miller, e não vou deixar barato.
— Isso não vai ficar assim, sua pirralha! — Digo, pegando o copo de refrigerante de Matt, e jogo todo o líquido em Mylene.
— Seu... seu... — Ela diz, olhando para sua blusa toda suja.
— Ops! — Digo, imitando-a.
— Seu i****a! — Mylene começa a tacar a comida dela em mim, e eu nela. Somos o centro das atenções de todos na cantina. Estávamos tão distraídos com nossa guerra de comida que nem percebemos uma pessoa se aproximar.
— Alex e Mylene, para a minha sala, agora!
— A voz irritada do Diretor Joe nos faz parar.
— Sim, Diretor Joe. — Eu e Mylene respondemos juntos, os rostos sujos de comida.
Pronto, agora ferrou. O caos na faculdade é um problema que nem o dinheiro do meu pai pode resolver facilmente.