Continuei encarando aquela garota, por mais que tentasse desviar meu olhar, eu não conseguia. Era como se uma força invisível prendesse minha atenção aos seus olhos, um azul-esverdeado misterioso que parecia conter universos inteiros. Algo sem explicação me impedia de desviar o foco. Era uma sensação estranha, uma intensidade que nunca havia experimentado antes, e isso me deixava um tanto desconcertado. Minhas bochechas pareciam queimar.
— Bom, querida, pode começar amanhã às sete da manhã, ok? — Minha mãe, alheia ao meu transe, perguntou à garota, colocando uma mão gentil sobre seu ombro. O som da voz da minha mãe me trouxe de volta à realidade, mas meu olhar ainda estava nela.
— Sem problemas, senhora — respondeu a garota, com uma voz suave e um tom levemente tímido, o que só a tornava ainda mais intrigante.
E lá estava eu, em um tormento silencioso, implorando mentalmente a qualquer divindade que alguém, qualquer um, falasse o nome daquela garota. Eu não era louco de perguntar diretamente, não depois de ser pego tão descaradamente a encarando. Minha reputação de "irmão superprotetor e durão" iria por água abaixo em questão de segundos.
Meus anseios foram atendidos segundos depois, quando Rute, uma amiga próxima da família que devia estar visitando, entrou na sala.
— Já está indo, Amanda? — Rute perguntou, caminhando diretamente em direção à garota.
Meu coração deu um salto. Amanda. O nome ecoou na minha mente, um som tão simples, mas que parecia carregar um peso inesperado. Esperei sua resposta para ter a confirmação, uma validação da minha prece silenciosa.
— Sim, Rute, já vou indo — ela respondeu, com um sorriso gentil, e abraçou Rute.
Eu não pude evitar. Um sorriso meio que involuntário se abriu em meu rosto. Amanda. Então esse é o seu nome. Obrigado, Senhor, por me ouvir. Uma sensação de alívio e uma pitada de excitação se misturaram dentro de mim.
— Filho. — A voz de meu pai me chamou, tirando-me abruptamente do meu devaneio e fazendo-me desviar o olhar para ele.
— Fala. — Respondi, tentando parecer casual, mas sabia que meu rosto provavelmente ainda estava com alguma tonalidade avermelhada.
Meu pai se aproximou, e, com um sorriso matreiro e um brilho divertido nos olhos, sussurrou baixo o suficiente para que apenas eu ouvisse:
— Para de babar na nova babá.
Em um gesto rápido, quase instintivo, passei a mão pela boca. Eu realmente tinha chegado ao ponto de babar por uma garota, e na frente da minha família? Depois de verificar que não havia uma gota de saliva sequer, retornei a encarar meu pai com uma indignação forçada.
— Não estava babando. — Falei no mesmo tom de voz conspiratório, minha voz carregada de falsa ofensa.
Ele apenas gargalhou, um som abafado, mas que encheu o ar.
— Não estava, mas pretendia. — Ele me deu uma piscadela. Eu revirei os olhos, mas não pude evitar um pequeno sorriso. Meu pai sempre foi assim, nos provocando, mas com um carinho que só ele tinha.
— Eu vou para meu quarto! — Anunciei, talvez
um pouco mais alto do que o necessário, na esperança de soar indiferente. Todos na sala olharam para mim, incluindo Amanda. Nossos olhares se encontraram novamente, e o mesmo arrepio percorreu minha espinha. Não podia sair sem um último aceno, sem uma última tentativa de deixar uma impressão, mesmo que eu não soubesse qual. — Foi um prazer te conhecer, Amanda. — Adicionei, sorrindo para ela. Seus olhos se arregalaram levemente, e uma cor sutil tingiu suas bochechas. Ela corou. Meu sorriso se alargou.
Comecei a subir as escadas, sentindo o olhar dela em minhas costas. No último degrau, minha irmã Mylene, que devia ter esperado pacientemente minha saída triunfal, me empurrou para o lado com uma força desnecessária, fazendo minhas costas baterem contra a parede.
— Ai, garota! Pirou de vez foi? — Reclamei, massageando minhas costas com a mão.
Mylene me ignorou, seus olhos fixos em mim, vasculhando cada parte do meu corpo, como se estivesse verificando algo crucial.
— Por que você não correu? Pensei que o combinado era correr no três!
— Eu só não corri por... — Comecei a explicar, mas ela me interrompeu antes que eu pudesse terminar.
— Ai, meu Deus, que vermelhidão é essa nas suas costas! — Ela se espantou, puxando minha blusa para cima.
— Ôu! Cai fora que o corpo é meu! Tira a mão, tarada! — Falei, abaixando minha blusa apressadamente.
— Qual é? Estou preocupada! Estou aqui sem saber se você apanhou ou não. — Mylene disse, já entrando no meu quarto sem pedir permissão, com aquele ar de quem está fazendo um grande favor.
— Eu não apanhei, agora sai do meu quarto. — Falei, apontando para a porta. Ela me encarou por um momento, então sorriu, um sorriso que eu conhecia bem, de quem sabe que está sendo irritante de propósito.
— Tá bom, seu grosso! — Ela disse, revirando os olhos, e finalmente saiu, caminhando em direção ao próprio quarto.
— Ótimo. — Murmurei, já me preparando para fechar a porta, quando um chorinho abafado me fez parar.
Andei pelo quarto, tentando localizar a origem do som. Não era alto, mas era distintamente um choro, um soluço intermitente. Parei na frente do guarda-roupa, percebendo que o som estava mais alto ali. Abri a porta e me deparei com minha irmã caçula, Emily, encolhida entre as roupas penduradas, com o rosto vermelho e inchado.
— Emily, o que foi, baixinha? — Perguntei, me sentando ao lado dela, sem me importar com as roupas que esmagava.
Ela secou uma lágrima com a manga da blusa, e só então percebi que seu choro não era de tristeza, mas de pura raiva.
— Eu só não quero uma babá! — A voz dela estava embargada, mas carregada de indignação.
— Por que não? — Perguntei, envolvendo minhas mãos nos joelhos, tentando parecer casual para não irritá-la ainda mais.
— Porque, olha o meu tamanho! Eu tenho treze anos, babás é só para as crianças! — Ela disse, apoiando a cabeça nos braços, a voz abafada.
— Desculpa aí, adulta. — Levantei as mãos em forma de redenção, um sorriso divertido no rosto, o que fez Emily virar o rosto, irritada.
— Ah, qual é, Alex? Se você tivesse minha idade, ia gostar de ter uma babá te perseguindo? — Ela disse, me encarando, esperando uma resposta séria.
Eu pensei por um segundo. A imagem de Amanda, com seus olhos expressivos e sorriso tímido, surgiu na minha mente.
— Se fosse uma babá tão gata igual a sua, eu iria adorar. — As palavras saíram antes que eu pudesse contê-las.
Emily me encarou, os olhos arregalados, e então soltou uma gargalhada.
— Nossa, seu safado! Ainda bem que meu namorado não é igual você! — Ela riu.
Espera aí. Como assim, namorado? O ar no quarto pareceu rarear. Namorado? Eu deixei? Ele me pediu permissão? Minha mente travou. A curiosidade sobre Amanda foi imediatamente substituída por uma onda de fúria protetora.
— Que namorado?! — Alternei a voz, o tom subindo drasticamente.
Emily saiu de dentro do guarda-roupa, como se nada tivesse acontecido, e me olhou com uma calma irritante.
— O meu, ele é da minha escola. — Ela explicou, com uma naturalidade que me fez querer explodir.
— Bom saber. Amanhã eu vou te levar para a escola. — Falei, minha voz controlada, mas meus punhos cerrados.
— E a faculdade? — Emily perguntou, com um sorriso cínico.
— Não me importo em chegar atrasado. — Respondi, sentindo um calafrio na espinha só de pensar na possibilidade de um “namorado” rondando minhas irmãs. Ela me mostrou a língua e saiu do quarto, deixando-me sozinho com meus pensamentos.
Namorado. Coisa que minhas irmãs não terão se depender de mim. Especialmente não a Emily. Essa tal Amanda, apesar de toda a sua beleza, já chegou trazendo um tipo diferente de caos. Primeiro, ela me distraiu e me fez apanhar de Mylene. Agora, essa bomba de um "namorado" da Emily. Parecia que minha vida estava prestes a ficar muito mais complicada. O superprotetor em mim já estava em modo de alerta máximo.