Capítulo Três

1317 Palavras
Amanda Chego em casa quase flutuando, cada passo leve como se o chão não tivesse resistência, e meu coração bate acelerado, dançando uma melodia própria de pura euforia. O dia foi intenso, mas agora parece que todas as preocupações se dissiparam. A conquista do emprego ainda reverbera dentro de mim, pulsando em cada músculo, cada célula. Sinto-me como se tivesse acabado de vencer uma corrida, mas sem o cansaço habitual, só com a adrenalina da vitória. O sol de fim de tarde, preguiçoso e dourado, joga seus últimos raios sobre as fachadas dos prédios e parece me aplaudir silenciosamente. A luz atravessa os vidros das janelas, refletindo-se em nuances quentes que fazem tudo ao redor brilhar de forma quase mágica. O vento fresco entra pelas frestas, acariciando meu rosto e trazendo um aroma sutil de cidade e liberdade, como se todo o universo estivesse conspirando para celebrar comigo. Subo as escadas do prédio quase correndo, a ansiedade me impulsionando, m*l consigo esperar para compartilhar a notícia. Cada degrau é uma contagem regressiva silenciosa para o momento de explosão de alegria. Quando finalmente giro a chave na porta do nosso apartamento, meu peito parece pronto para explodir de tanta expectativa. Abro a porta com pressa e, antes mesmo de cruzar a soleira, encontro Ana. Ela está encostada no balcão da cozinha americana, com uma bolacha pela metade na mão, e o olhar curioso que sempre anuncia que está prestes a fazer mil perguntas ao mesmo tempo. A sobrancelha arqueada revela seu interesse instantâneo, como se ela pressentisse que algo grande aconteceu. — Que alegria toda é essa? — pergunta, mastigando distraidamente, mas sem desviar os olhos de mim, como se tentasse ler minha mente. Não consigo me conter. A notícia explode de dentro de mim como fogo de artifício: — Consegui o emprego! — grito, ergendo os braços em um gesto triunfante, enquanto começo a pular no lugar como uma criança que acabou de receber o brinquedo mais desejado do mundo. Ana arregala os olhos por um instante, surpresa, mas logo se rende à minha felicidade. Um sorriso largo se abre em seu rosto, tão grande que quase toca as orelhas. A bolacha voa de suas mãos enquanto ela se junta a mim, e em segundos estamos ambas saltando no tapete da sala, gargalhando e gritando. A cena é caótica, hilária até para um observador externo, mas para nós é pura celebração, uma mistura de alegria infantil e vitória adulta. O chão vibra sob nossas pisadas, e eu sinto uma liberdade quase infantil, uma euforia que contagia cada fibra do meu ser. — Me conta tudo! — Ana diz, puxando-me para o sofá quase me derrubando de tanto entusiasmo. Seus olhos brilham com curiosidade, e seu corpo se inclina para frente, ávido por cada detalhe. Sento-me rapidamente na almofada, tentando organizar minhas ideias antes que ela comece a bombardear-me de perguntas. Mas Ana não espera. — Seus patrões são chatos? — dispara, fazendo uma careta dramática, como se estivesse pronta para odiá-los se minha resposta não fosse positiva. — Não, de jeito nenhum. São muito gentis, carinhosos até. — respondo, lembrando da cordialidade e simpatia da senhora Alessandra e do senhor Miller. A lembrança aquece meu coração, uma surpresa reconfortante em meio à ansiedade que senti ao ser contratada. Ana solta um suspiro, como se tivesse acabado de escapar de um desastre iminente. — E a pirra… — começa, mas eu a interrompo com um olhar firme, estreitando os olhos antes que a palavra “pirralha” saia inteira. Ela entende na hora, sorri, corrige a postura e reformula: — A garota que você vai cuidar, você já conheceu? — Só amanhã. — respondo, tentando disfarçar a ansiedade que borbulha dentro de mim. Pensar na menina desperta uma curiosidade genuína, quase uma necessidade de conquistar seu carinho, seu respeito desde o primeiro momento. Ana se inclina mais perto, intrigada: — Ela tem irmãos? Nesse instante, a imagem de Alex invade minha mente com a força de um raio. Lembro-me de seus olhos intensos, a forma como me olhou na escada, aquele sorriso rápido que escapou quando disse: “Foi um prazer te conhecer, Amanda.” Minha respiração falha por um instante, e por um segundo, o mundo parece girar em câmera lenta, prendendo-me dentro do magnetismo daquele olhar. — Nanda… Nanda… NANDA? — Ana me chama, estalando os dedos na frente do meu rosto, e me sinto arrancada de meus pensamentos. — Hum…? — respondo, piscando rapidamente e voltando ao presente, envergonhada com a distração. Ana ergue uma sobrancelha, desconfiada. — Você travou de repente. Que foi isso? — Estava pensando, só isso. — digo, rápido demais, e a desculpa soa artificial até para mim. — Tá bom, se você diz… — ela finge aceitar, mas seus olhos ainda brilham com desconfiança. Ela insiste, curiosa: — Então, tem irmãos? Respiro fundo, tentando afastar a imagem de Alex, mas é inútil. — Tem sim. Acho que são dois. Uma irmã e… — faço uma pausa, recordando a cena na escada. — Uma irmã e um irmão. O interesse de Ana cresce instantaneamente. — O irmão tem quantos anos? Já sei exatamente aonde ela quer chegar. — Uns dezessete ou dezoito, por aí. — respondo, tentando soar indiferente, embora meu coração acelere só de pensar nele. Ana morde o lábio, ansiosa. — E ele é bonito? Minha boca me trai, e a resposta escapa quase sem som, em um sussurro involuntário: — Um gato… Congelo imediatamente. As palavras ecoam no ar, e percebo o que acabei de dizer. Tapo a boca, os olhos arregalados, sentindo a cor subir às minhas bochechas. Ana explode em gargalhadas, divertida com minha reação. — Você XONOU no cara! — E-eu não! — protesto, mas a voz falha e as bochechas ardendo denunciam minha derrota. — Claro que não… — ela responde, ironizando, rolando os olhos. — Qual é o nome dele? Engulo em seco, quase engasgada. — Alex. Só pronunciar o nome faz meu coração disparar novamente. A lembrança de seus olhos e do jeito como me fez sorrir volta em ondas, e meu corpo reage como se tivesse sido eletrizado. — AMANDA! — Ana me acerta com uma almofada, rindo sem parar. — Você tá em outro planeta! Reclamo, massageando a cabeça, mas não consigo conter o sorriso. Ela venceu essa batalha de curiosidade e diversão. O resto da tarde segue entre tarefas e risadas. Arrumamos a casa juntas, preparamos o jantar, lavamos a louça. Tudo parece normal, mas dentro de mim, uma nova expectativa pulsa. Amanhã será o primeiro dia real no trabalho, e isso muda tudo. Finalmente, sinto que vou poder contribuir de verdade, mostrar que não sou apenas alguém que depende, mas alguém capaz de assumir responsabilidades e crescer. Mas há um detalhe que me assusta: como vou me concentrar com Alex por perto? Ele é lindo, isso não posso negar. Alto, com aquele jeito descontraído, sorriso misterioso e olhos que parecem enxergar além. E mesmo sabendo que não devo me iludir, não consigo evitar. Garotas bonitas devem cercá-lo, chamar sua atenção. Eu? Sou apenas a babá, apenas Amanda. Ainda assim, pensamentos sobre ele surgem em cada intervalo do dia, em cada pausa, em cada silêncio. Imagino como será vê-lo novamente, como será a primeira conversa verdadeira, o primeiro momento de proximidade. Tento me controlar, repreender-me por sonhar alto, mas uma parte de mim insiste: E se…? E se tudo fosse diferente? E se, de alguma forma, ele também sentisse algo? E se amanhã fosse apenas o começo de algo que eu nunca imaginei para mim mesma? Mesmo sabendo que é perigoso, mesmo que minha razão diga para manter distância, uma parte do meu coração se recusa a ouvir. Ele invade meus pensamentos de forma irresistível, e eu não consigo escapar da ideia de que, de algum jeito, minha vida pode estar prestes a mudar — e talvez para sempre.
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