Capítulo Vinte e Um

1311 Palavras
Alex Ainda bem que a faculdade inventou esse bendito passeio até a praça. No início, achei que seria uma perda de tempo, mais uma atividade sem propósito, só para os professores fingirem que estavam nos dando algum tipo de “experiência prática” fora da sala. Eu mesmo já tinha me preparado mentalmente para fingir interesse, sentar em algum canto, e esperar o tempo passar. Mas não. Se não fosse por esse passeio, eu jamais teria visto Amanda naquela situação. E, principalmente, jamais teria chegado a tempo de confrontar Tony. A cena ficou gravada em minha mente com uma nitidez absurda. Amanda estava ali, sentada, vulnerável, com o tornozelo machucado, e aquele sujeito desconhecido — depois soube que o nome dele era Murilo — a ajudava. Não posso negar: uma pontada aguda de ciúme me atravessou. Foi quase físico, como uma facada certeira no estômago. Eu, que nunca tinha dado a mínima para essas coisas de apego, de relacionamentos sérios, de “minha namorada, meu amorzinho”, de repente me via corroído por algo que eu nem reconhecia direito. Era ciúme. E, por trás desse ciúme, uma fúria crescente, prestes a explodir. E então, o pior: Tony. Aquele desgraçado. Quando percebi que Amanda estava fugindo dele, que estava apavorada, e que o i****a do ex a perseguia como um predador, juro, algo dentro de mim se quebrou. Não foi só raiva. Não foi aquela irritação passageira que eu sentia com meu pai, ou a fúria cega que me dominava em algumas brigas idiotas. Não. Foi algo mais profundo. Primitivo. Um instinto de proteção que eu nunca imaginei sentir por alguém. Eu queria acabar com ele. Queria esmagar aquele sorriso nojento do rosto dele, fazer com que ele pagasse por cada lágrima que Amanda derramou, por cada instante de pavor que ela carregava no peito. O sangue ferveu nas minhas veias. Se não fosse pela presença dela, juro que teria feito uma besteira irreversível. O caminho de táxi até a casa dela foi um tormento silencioso. Amanda estava tensa, os olhos dela varriam a rua sem parar, como se Tony pudesse saltar de qualquer sombra, de qualquer esquina. Eu segurava sua mão, pequena, gelada, e sentia a força desesperada com que ela me apertava. O corpo dela tremia levemente, e essa fragilidade me atingiu de um jeito que eu não estava preparado. Partiu meu coração. Eu, Alex, o garoto problema, o inconsequente, o que sempre zombou de todos os sentimentos, estava ali, preocupado de verdade com alguém além de mim. Que ironia. — Eu estou aqui, anjo. — murmurei, tentando colocar todo o peso da minha segurança naquelas palavras. Passei o polegar pelo dorso da sua mão, acariciando, tentando transmitir calma. — Se ele tentar chegar perto de você de novo, eu juro que mato ele, beleza? Ela respirou fundo, mas sua voz saiu trêmula, quase um sussurro: — Tá. Apesar do tom frágil, o aperto que deu na minha mão foi firme, quase dolorido. Ela acreditava em mim. Confiava em mim. Apoiei meus lábios em sua testa, num beijo demorado. Senti a pele macia, o cheiro adocicado dos seus cabelos, e tive a certeza de que faria qualquer coisa por ela. Olhei bem fundo em seus olhos. Ainda havia medo ali, mas também uma centelha de esperança, como uma chama tentando resistir ao vento. — Você acredita e confia em mim? — perguntei, olhando-a intensamente. Essa pergunta era vital. Eu precisava saber se ela me enxergava como alguém em quem podia se apoiar, como seu porto seguro. — Sim. — respondeu, desta vez com firmeza. Agarrou minha mão com a outra, como se quisesse me prender a ela. Sorri. Foi como se minha alma tivesse encontrado paz por um instante. Inclinei-me e selei nossos lábios. O beijo não foi de posse, não foi marcado por urgência ou desejo bruto. Foi um beijo calmo, cuidadoso, carregado de carinho e promessa. Os lábios dela eram macios, doces, e me viciei naquele gosto imediatamente. Meu corpo inteiro relaxou com o contato, como se finalmente tivesse encontrado o que sempre procurava sem saber. Eu queria que o tempo parasse. Queria que o mundo todo desaparecesse, para que só restasse aquele momento. Ela se afastou um pouco, os olhos fixos nos meus. — Alex… por que você disse que era meu namorado? — perguntou, franzindo o cenho. — Você também disse isso para o Tony. — A curiosidade em sua voz me pegou de surpresa, mas eu não hesitei. — Só estou prevendo o futuro, princesa. — respondi, e lhe roubei um selinho rápido. O riso que ela soltou logo depois foi como música para meus ouvidos. — Bobo. — murmurou, rindo baixinho, e se aconchegou mais perto de mim. — Minha princesa. — declarei, espalhando beijos pelo rosto dela, do queixo à testa. Cada beijo era uma confirmação silenciosa daquilo que eu já sentia. — Meu príncipe. — ela sussurrou, entrando na brincadeira. — Eu sou seu príncipe? — perguntei, teatral, levando as mãos à cabeça como se fosse uma surpresa chocante. Ela assentiu, rindo, o sorriso largo iluminando seu rosto. Aquilo me fez sorrir sem querer, mostrando todos os dentes. Mas então ela falou algo que mudou o tom da conversa: — Promete. — disse, séria. Meu sorriso se desfez. O peso da palavra pairou entre nós. — Prometer o quê? — perguntei suavemente, ajeitando uma mecha do seu cabelo atrás da orelha. Passei o polegar por sua bochecha, acariciando a pele delicada. Eu sabia de onde aquilo vinha. Sabia que não era uma exigência qualquer, mas um pedido nascido da dor, do medo, das feridas que Tony havia deixado. — Não me machucar. Nem me magoar. — respondeu, a voz embargada, quase quebrando em choro. Seus olhos estavam marejados, cheios de fragilidade. Aquela visão me dilacerou. Eu odiava vê-la assim. — Claro que prometo, minha vida. — assegurei sem hesitar, deixando que a sinceridade tomasse cada palavra. — Nunca vou te machucar, muito menos te magoar, amor. Respirei fundo. As palavras seguintes saíram antes mesmo de eu pensar. — Vou te dizer uma coisa louca, que talvez você não acredite. Mas eu acho que te amo. — confessei, segurando seu rosto entre minhas mãos. Meus polegares enxugaram as lágrimas que escorriam. — Você despertou algo em mim que ninguém nunca conseguiu. Esse sorriso seu me fascina, eu adoro cada detalhe seu, eu preciso de você! As lágrimas desceram em cascata pelo rosto dela, mas não eram de medo. Eram de emoção. E o brilho nos olhos dela dizia tudo. — Eu também acho que me apaixonei… — murmurou, a voz quebrada, mas sincera. — Eu não acho. Eu tenho certeza. — corrigi, antes de beijá-la novamente. Dessa vez, o beijo foi diferente. Não era apenas promessa, era uma afirmação. Um selo invisível, confirmando tudo o que tínhamos acabado de dizer. Não era sobre futuro. Era sobre agora. E naquele instante, tive a certeza: Amanda era tudo para mim. Ela era o ar que eu respirava, a garota que eu não sabia que buscava, mas que finalmente tinha encontrado. O destino, irônico e c***l, colocou-a no meu caminho. Eu, o garoto que sempre debochou do amor, que jurava nunca se apaixonar, estava ali, rendido. Pensei em quando isso começou. Tentei buscar o momento exato em que me apaixonei, mas não encontrei. Não houve uma faísca única. Foi um acúmulo de instantes: os olhares trocados, os toques acidentais, os sorrisos roubados. Cada detalhe dela foi se infiltrando em mim, até que, de repente, já não havia espaço para mais nada. Bastou me perder em seus olhos e me achar em seu beijo para que eu soubesse, sem dúvida alguma, que Amanda era — e sempre seria — a mulher da minha vida. Eu, Alex, o garoto que zombava do amor, estava completamente, irremediavelmente, loucamente apaixonado. E, pela primeira vez, não tinha medo de admitir.
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