A noite havia sido maravilhosa para Amélia e Thor. Os dois se amaram como da primeira vez, demonstrando o carinho e respeito que um sentia pelo outro. Mas o dia amanheceu e com ele a expectativa para as surpresas que certamente o mesmo lhes traria, só que o Mastro não sabia que tais surpresas fossem tão avassaladoras. Thor levantou-se primeiro do que Amélia e foi até a cozinha para ver o que estava sendo preparado para o café da manhã, algo do qual já estava acostumado, mas ao passar pela sala, o jovem músico acabou se deparando com algo que não esperava. Aliás, ele já esperava, mas da forma como aconteceu.
— Mãe?
O homem de cabelos loiros, olhou com espanto ao ver Norabel sentada à vontade no sofá. A mulher nada respondeu de imediato, apenas permaneceu encarando o filho por alguns segundos, antes de enfim, começar a falar.
— Vai ficar aí só me olhando, ou vai dar um abraço na sua mãe? — perguntou, levantando-se e abrindo os braços.
— Mas é claro, mãe! — ele diz, indo de encontro a ela. — Só não esperava que fosse chegar hoje. E por que não disse para que eu fosse busca-la no aeroporto? — perguntou o homem, após o abraço.
Norabel suspirou antes de responder.
— Simples, eu não queria incomodar o meu filhinho lindo. E tem mais, eu ceguei há dois dias, mas decidi ficar hospedada em um hotel! — ela respondeu, voltando a se sentar.
— Como é? E por que você fez isso, mãe? Preferir ficar em um hotel ao invés de vir ara a casa do seu filho? O que lhe deu?
Thor ficou sem entender muito bem a atitude da mãe, a mulher por sua vez não entrou em detalhes, apenas disse que precisava resolver uns assuntos pessoais e não queria preocupar seu filho.
— Não queria, mas deixou. — disse ele. — Mãe, por acaso está traindo o meu pai?
— Que conversa é essa, menino? — Norabel o repreende. — Como você ode dizer uma coisa dessas? Eu jamais, entendeu bem, jamais me rebaixaria ao ponto!
— Ei, calma, senhora Gandersen. Eu só perguntei por causa da forma com a qual se referiu a “um problema pessoal” e também por não ter vindo direto para cá! — o filho riu, logo em seguida. — Mas vamos, venha tomar café comigo.
— Está bem! — ela concordou. — Você não estaria acompanhado, sim?
Thor balançou a cabeça, como quem estivesse confuso com a pergunta. No que, ele estando ou não acompanhado, incomodaria a sua mãe? Mas a resposta foi única.
— Não. Por que? Está com ciúmes, dona Norabel? — falou, sentando-se à mesa, ao lado de sua mãe.
— Ciúmes? Eu? Desde quando eu vou ter ciúme de um marmanjo? Você já e bem crecidinho para esse tipo de sentimento da minha parte. Você não acha? — ele disse, mas em seu íntimo, os sentimentos na verdade eram outros. “Então é verdade. Tem uma fulMaria com ele, mas ela não perde por esperar.”
Os dois ficaram ali tomaram o café da manhã, algo que Thor não fazia há muito tempo. Compartilhar a primeira refeição do dia com alguém de sua família. Lucia fez questão de servir aos dois e a cada ida da governanta na sala de jantar, ela recebia uma encarada forte da parte de Norabel, um olhar m*****o e ameaçador. “Vou logo avisar a Amelia que não venha aqui por agora”, pensou a mulher de cabelos curtos. “Eu sei muito bem, quando essa cobra está planejando alguma.”
***
Amélia acordou, mas antes de ir até a cozinha, ela primeiro pensou em passar no seu quarto para trocar de roupa, depois iria tomar o café ao lado do seu amor.
— Thor deve estar na sala de música. — disse ela, falando consigo mesma. — Vou fazer uma surpresa para ele.
A morena entrou no banheiro, fez sua higiene, tomou um banho e pôs uma roupa. Quando ela já estava saindo do quarto, foi abordada por Lucia, já na porta. Arregalou os olhos a encarar a mulher mais velha.
— Lucia! — disse, surpreendida pela governanta. — Bom dia!
— Bom dia, Amélia. E me desculpe por te abordar assim. — disse la.
— O que houve? Algo na cozinha? Ou com o Thor? Ele está bem? — Amélia, lançando uma série de hipóteses, mas todas erradas.
— Não, o senhor Gandersen está bem.
— Então, o que aconteceu. Você parece nervosa!
— Lembra de que a Norabel Gandersen viria visitar o filho? Pois bem, ela está aqui! — falou, de forma clara e objetiva.
— Tá, mas o que isso tem de tão r**m? — a jovem ainda não acreditava na potência da maldade de sua sogra.
— Acho que você anda não me entendeu. — Lucia começou a esclarecer. — Olha, tudo o que eu tenho a te dizer é para que não vá até ela antes que o Thor a chame, entendeu? Eu conheço essa família, Amélia e posso garantir a você, que fora o Thor, nenhum deles é confiável.
— E o que eu faço?
— Fique aqui e não tente ficar frente a frente com aquela cobra, entendeu? — alertou.
Amélia assentiu. Assim que Lucia deixou o quarto, a jovem voltou a mudar de roupa e dessa vez ela colocou o uniforme de inverno, que as funcionárias da casa costumavam usar. Um terninho cujo tecido era revertido por dentro por uma espécie de isolante do frio. Mesmo o inverno ainda não estando em seu auge, a temperatura ficava mais baixa a cada dia. Amélia passou pela outra porta, afim de não ter que cruzar com Norabel. Ela não a conhecia pessoalmente, mas já tinha ouvido coisas terríveis a seu respeito, coisas essas que deixava certa dúvida pairando seus pensamentos. Será que tudo aquilo não seria uma mera implicância de Lucia? Ou talvez pudesse se tratar de sentir ciúmes de Thor.
A moça foi para a cozinha, onde lá passou a ajudar as demais empregadas em seus afazeres.
— O que houve, Amélia? Você parece preocupada hoje? — perguntou Kelly. A empregada estava de volta depois de passar alguns dias convalescente.
— Nada não. Eu só não dormi direito ontem à noite! — respondeu, um tanto sem graça.
Enquanto as duas conversavam, Carina, uma das muitas que trabalhava ali, entrou na cozinha, cheia de empolgação. A euforia da moça podia até mesmo ser sentida por quem estava por perto, era como uma corrente que contagiava a todos, mesmo que de forma negativa.
— Carina. Que emoção é essa, mulher? — Kelly perguntou. — Parece que viu um estro de Hollywood.
— Bom, de Hollywood, pode não ter sido. — Veronica sorriu. Amélia permaneceu calada.
— Bom, é que vocês não sabem quem está lá fora...
— Quem? — dessa vez, a brasileira resolveu entrar no jogo, já que seu romance com Thor era segredo apenas de Thor, Lucia e dela própria. — Pois parece mesmo que você viu uma celebridade. Fora o senhor Gandersen, né?
Carina olhou para Amélia, com certo desdém, pois não escondia o fato de não ser muito favorável á presença da morena por ali. Ela então ergueu a cabeça e respondeu.
— Gente, a dona Norabel Gandersen em pessoa, está ali fora. Nossa, como eu sou fã dessa mulher. — falou toda eufórica. — E para completar, ela mesma me pediu para ficar servindo-a enquanto ela estiver por aqui!
Para quem gosta de focar puxando o saco, não vejo lugar melhor do que lambendo os sapatos da Norabel! — respondeu Lucia, entrando na cozinha e deixando Carina sem jeito. — Norabel está aqui sim, mas isso não significa que o trabalho aqui vai mudar, pelo contrário, nosso patrão se chama Thor Gandersen e a mens que ele autorize algo, vocês vão continuar trabalhando como sempre trabalharam. Será que fui bem clara? — Lucia concluiu, olhando direto nos olhos de Carina.
— Sim, senhora Montalvan! — todas responderam, ao mesmo tempo.
— Venha comigo, senhorita Alves. Tenho de lhe passar algumas instruções!
Amélia assentiu e saiu acompanhada por Lucia. O riso no rosto de Carina, foi imediatamente substituído por uma expressão escura e descaída. Assim que Amélia chegou à mansão, a mulher de cabelos castanhos escuros se mostrou contra sua permanência na casa de Thor, principalmente por perceber que a jovem latina chamava a atenção do patrão. Ela também sempre fora, de certa forma, confidente e os olhos de Giuliana ali, até mesmo com as cantoras do projeto, cabia a Carina deixar sua “amiga” a par de tudo o que acontecia na sala de música. “Aproveita bem, Amélia”, pensou a empregada ciumenta.
***
Lucia ainda conversava com Amélia no jardim, quando as duas foram surpreendidas por Norabel. A mulher nem ao menos se deu ao trabalho de cumprimentar a morena e já foi logo cobrando da governanta o motivo por suas coisas ainda estarem dentro do carro e porque o seu quarto ainda não estava devidamente arrumado. Humildemente, Lucia se desculpou e disse estar quase tudo pronto, mas a norueguesa não quis mais saber de conversa e disse palavras ofensivas a Lucia. Uma coisa que Amélia pôde notar foi que parecia haver muita amargura por parte da mãe de Thor, outra coisa foi, que Lucia tinha razão em cada palavras dita a respeito de Norabel. Ela deu sim, toda razão em ser descrita como uma cobra venenosa e sem o menor senso de empatia para com os outros. Mas o que chamou mais sua atenção foi o fato de antes que terminasse, Norabel olhou fixamente para Lucia, dizendo que sabia perfeitamente quem ela era e que nada no mundo a faria esquecer do que fizera. Tais palavras arrancaram um suspiro profundo de Lucia e logo seus olhos começaram a quererem se encher de lágrimas, mas a mulher de cabelos curtos imediatamente se conteve e Norabel deixou a ambas, no jardim.
— Mas o que foi isso? Senhora Montalvan? — indagou a jovem. — Essa mulher é muito rude e m*l educada. E ainda dizem que nós, os obres, é que somos selvagens. Nada a ver com o Thor!
— Eu te disse que ela era cobra. — quase que sussurrando, Lucia respondeu. — E isso é só o começo. Agora vamos. Você me ajuda a arrumar o quarto da serpente?
— Claro. Ajudo sim! — disse Amélia. — Por que ela te trata dessa maneira, Lucia?
— É uma longa história, Amélia. Uma história que eu prefiro esquecer. Agora vamos e não desista do amor do Thor, ele mais do que ninguém, merece ser feliz!
A brasileira sacudiu a cabeça em sinal de concordância e seguiu sua chefe até o quarto que foi designado ara Norabel. Mas a jovem também sentiu falta do Maestro, já quem o tinha visto naquela manhã e nem ele a tinha procurado, o que despertou certa curiosidade nela. Será que a mãe já o estava influenciando? Foi quando, depois de Lucia ter saído por um minuto, ela foi surpreendida por Thor, que a chamou da porta do quarto de Norabel.
— Nossa. Como me esqueceu rápido, mocinha!
Amélia olhou para trás e o viu, abriu um lindo sorriso e correu na direção do homem mais alto. Em seguida e abraçou e o beijou.
— Eu quem digo que você me esqueceu, rapazinho. Não me procurou depois que acordou. Muito ocupado? — com os braços passados em volta do pescoço do homem mais alto, Amélia perguntou.
— Não sei se já está sabendo...
— É, eu sei que sua mãe está aqui. Inclusive até a vi. — ela o respondeu, interrompendo-o.
— Sério que a viu? Você falou com ela? — Agora, Thor se afasta um pouco, com certa preocupação e seu olhar.
— Não, acredito que houve chance. — disfarçou. — Ela só pediu a Lucia que arrumássemos o quarto dela. E é o que estou fazendo, melhor, terminando de fazer. Espero que ela goste.
— Vai gostar sim. Minha mãe gosta muito das coisas bem feitas. Mas não se reocupe, logo irei apresentar você a ela. — Thor sempre esboçava um sorriso a cada fala, mas era visível a expressão de quem não estava se sentindo bem e que algo o incomodava. — Bom, eu vou voltar ao estúdio para passar aquela música, Flor do Deserto, ao Marzo. Ele ficou interessado e é sempre bom passar as ideias a diante, estou certo?
— Claro, amor. Pode ir, eu vou ficar e esperando, mas não se preocupe, dê toda a atenção à sua mãe. Elas são insubstituíveis!
Thor respondeu com um belo sorriso e lodo depositou um beijo doce em seus lábios, deixado Amélia com as pernas trêmulas. Cada olhar, cada gesto trocado entre ambos, era como se uma sinfonia estivesse sendo composta. Mas será que aquele amor iria durar para sempre? O que será que pode acontecer com eles, com uma mãe supostamente encrenqueira, por perto. Esses eram os pensamentos que pairavam sobre a cabeça de Amélia, enquanto se deliciava com o beijo do Maestro.
***
No estúdio, Thor contava para Marzo como ele havia encontrado inspiração para compor uma nova melodia, o sócio do músico ficou admirado. E ainda mais depois de ouvi-lo tocar a melodia no piano. Cada nota era acompanhada da emoção que emMariava do coração de Thor.
— Mas isso foi incrível, Thor. Quando pretende começar os preparativos para lança-la? Sim, pois isso vai ser um sucesso estrondoso, meu amigo. Essa música é maravilhosa. — disse Marzo Michel.
— Primeiro eu vou precisar passar para uma partitura e depois ver a boa vontade da Marta. Mas acredito que essa música ficará ótima na voz dela. — disse Thor. — Agora vamos aos preparativos para o conserto e saber se a nossa marrenta vai estar melhor na semana que vem.
— Você tem razão, depois a gente pensa em como começar os ensaios para A Flor do Deserto.
Marzo pediu licença a Thor e foi até a outra parte do estúdio. O Maestro ficou por ali, mexendo no piano, quando de repente algo chamou a sua atenção. Ao levantar as vistas e olhar na direção da porta, ele viu Giuliana parada. Ela o observava enquanto esse tocava uma melodia delicada.
— O que faz aqui, Giuliana? Pensei ter ouvido você dizer que não queria mais saber de mim? — falou, voltando ao que fazia anteriormente.
A loira suspirou, em seguida ela pôs a bolsa que trazia consigo, sobre um aparador que focava ao lado da porta e caminhou lentamente até o loiro.
— Você mais do que ninguém, Thor, sabe que na hora da raiva dizemos coisas que na maioria das vezes, nos arrependemos. — ela diz. Mais uma vez, Thor ergueu as vistas, mas apenas bufou, mediante o comentário de Giuliana. — Eu sei que você ficou chateado naquele dia. Nosso relacionamento sempre foi aberto, só que eu me recusava a aceitar isso!
— Não foi por falta de aviso.
— Eu sei, Thor, mas...
— Mas nada, Giuliana. — ele a interrompe. — E eu não estou chateado com você, apenas acho melhor que cada um siga o seu caminho. E outra...
— O que?
— Eu estou gostando de uma pessoa. Sugiro que faça o mesmo, que siga a sua vida. — a declaração foi como um balde de água fria, para Giuliana. Ela não esperava tal atitude da parte de Thor. — Você é jovem e linda — ele prosseguiu — não vai demorar a encontrar alguém que ame você como você merece.
— Obrigada, é bom ouvir isso de você, Thor. E eu também desejo que você seja muito feliz com sua nova namorada. — disfarçou, mas por dentro ela se sentia despedaçada. — É aquela menina? A que estava com você naquela noite?
— Sim, Amélia. — com um sorriso no rosto, ele confirma. — Ela tem algo que eu ainda não tinha visto em mais ninguém, sem ofensas. Acho que é isso que as pessoas que acreditam em almas gêmeas, acreditam.
— É. — respondeu e suspirou. — Bom, eu já v indo. Espero que possamos nos encontrar mais. — timidamente, Giuliana se aproxima e dá um beijo no rosto de Thor. — Tchau!
— Tchau!
Marzo vinha chegando no exato instante em que Giuliana saía da companhia de Thor. O homem calvo olhou para o companheiro e apenas deu de ombro, confuso pela presença da Milanesa ali. De igual modo, Thor sacudiu a cabeça negativamente e voltou a tocar seu piano.
— Te trouxe um de morango, que sei que você gosta. — falou o calvo, entregando um sorvete ao amigo.
— No verão eu gosto muito. Você não vu a temperatura que está lá fora? — ironizou. — Mesmo assim eu vou aceitar.
— Que nada. Se esfriar muito a gente aumenta os aquecedores. — Marzo diz, sorrindo.
Só você mesmo, Marzo, para me fazer tomar sorvete quando a temperatura beira os 0ºC. Mas vamos lá.
***
Depois que terminou seus ensaios, Thor foi direto para casa, mas ao chegar ali sua mãe não estava. Lucia lhe deu o recado de que ela havia ido visitar uma amiga que não via há muito tempo. O jovem assentiu e perguntou onde estava Amélia, Lucia sorriu e disse que a jovem se encontrava no jardim. Sem pensar duas vezes ele foi ter com ela. Assim que os dois se viram, os beijos substituíram as palavras e ambos se entregaram a eles com toda sua força. Mas os dois não estavam sozinhos, de maneira sorrateira, um par de olhos verdes os observava, atrás de uma estátua.
— Então a Giuliana estava certa. Quer dizer que a empregada está mesmo indo além do que sua insignificância permite. — Norabel sussurrou a si mesma. — Não perde or esperar, Amélia Alves!