No hotel em San Francisco, Elliot olhava fixamente para o teto do quarto. O quarto executivo cinco estrelas não oferecia paz.
Camila estava estranha. Distante. E por mais que ele quisesse acreditar que era apenas o estresse, algo dizia que havia mais.
Muito mais.
Ele pegou o celular e ligou para casa. Chelsea atendeu.
— Oi, maninho. Está tudo bem por aqui.
— E a Camila?
— Está... ótima — respondeu ela, numa voz doce demais. — Passou a tarde de hoje conversando com um certo rapaz no portão.
Elliot se endireitou na cama.
— Como é?
— Um tipo bem latino, um charme vulgar. Parecia íntimo. Não me meti, claro. Só pensei que... talvez você quisesse saber.
— Você viu isso e não me avisou antes?
— Eu não sou sua babá, Elliot. — A voz dela agora estava fria. — Mas talvez devesse escolher melhor quem você coloca dentro da sua casa.
Ele desligou sem responder.
Algo queimava dentro dele. Raiva, ciúme, frustração.
Mas, acima de tudo, uma certeza: precisava voltar. Agora.
Camila não esperava a porta se abrir naquela noite.
Muito menos ouvir o som grave e inconfundível da voz de Elliot ecoando pela sala.
— Camila?
Ela quase deixou a mamadeira de Ivy cair da mão.
— Você... voltou?
Ele entrou, vestindo ainda a camisa de alfaiataria azul, a mala de mão esquecida no chão. Os olhos dele, geralmente suaves quando pousavam nela, estavam duros. Sombrios.
— Antecipei o voo. Não consegui ignorar a sensação de que algo estava... errado.
Ela engoliu em seco.
— A Ivy tá bem. Eu cuidei de tudo. Não houve nenhum problema com—
— Quem era o homem que esteve com você aqui na frente da casa?
Camila parou.
O silêncio foi sua resposta. Um segundo longo demais.
Elliot passou a mão pelo cabelo, frustrado.
— Então é verdade.
— Não é o que parece — ela respondeu rapidamente.
— Então o que parece? — A voz dele subiu um tom. — Minha irmã me liga dizendo que você estava no portão com um desconhecido, e você não me conta nada? Você me responde mensagens como se não quisesse que eu voltasse!
— Porque eu não queria que você viesse com raiva. Não tem nada entre mim e ele, Elliot!
— Mas já teve?
Camila ficou em silêncio.
Elliot riu, sem humor.
— Ótimo. Ótimo. Uma babá que dorme comigo e recebe o ex-namorado na porta da minha casa. Que excelente manchete.
Ela deu um passo à frente, ferida.
— Não me reduza a isso. Você sabe que eu não sou esse tipo de mulher.
— Então por que me escondeu?
— Porque eu tive medo! — explodiu. — Medo de você pensar que eu ainda tinha laços com ele. Medo de perder a confiança da única pessoa que me deu uma chance aqui!
Elliot a olhou com o maxilar travado.
— Você não me deu escolha. Me deixou no escuro. Me fez parecer um i****a.
— Você quer saber tudo? — os olhos dela brilharam de raiva e mágoa. — Aquele homem foi o primeiro que me partiu. Me deixou sozinha. Quando mais precisei. E agora está tentando se aproximar porque me viu feliz. Mas eu não quero ele. Eu quero... — ela parou, engolindo as palavras.
— Você quer o quê?
Ela hesitou.
Mas não disse.
Porque o medo ainda era maior do que a coragem.
Elliot suspirou.
— Não sei se consigo confiar em você, Camila. Não com a minha filha envolvida.
Essas palavras perfuraram mais fundo que qualquer briga.
Camila sentiu o chão se partir sob os pés. Mas apenas balançou a cabeça e saiu da sala, sem olhar para trás.
Naquela noite, dormiram em quartos separados.
E pela primeira vez... parecia que havia um abismo entre eles.