Savannah
Abri a porta do meu aconchegante apartamento no subúrbio de Londres com as minhas roupas encharcadas, e Mimi se aproximou, farejando o ar para ver se eu tinha trazido para casa algo mais interessante do que a minha própria chatisse.
Eu poderia estar morando em um castelo no pitoresco interior da Inglaterra pelo que paguei por este apartamento de dois quartos no térreo, mas Londres é assim.
Não me entenda m*l, eu amo este lugar. Ele tem todas aquelas características vitorianas charmosas — a lareira original, a arquitetura chique. É parte de uma casa maior que foi dividida em três apartamentos, então não posso reclamar. Se eu realmente me esticar na ponta dos pés enquanto estou de pé na minha cama, posso ter um vislumbre da agitada Londres. E das calcinhas da minha vizinha balançando na brisa.
— Como vai, linda? — me abaixei para lhe dar uma coçada naquele queixo macio e redondo.
— Você teve um dia divertido?
Mimi está sempre saindo com o gato do vizinho, Tobby. Eles entram e saem pelas portas de gato um do outro como se fossem donos da rua inteira.
Tiro meus saltos, arrancando meu elegante terninho ali mesmo no corredor, até minha calcinha. Estou segura para fazer esse ato burlesco, já que Charlotte, minha melhor amiga e colega de casa, está fora esta noite. Por mais que eu ame uma boa roupa de escritório poderosa, não as uso nem um segundo a mais do que o necessário.
No trabalho, sou uma profissional de 29 anos, certinha e correta. Terninhos perfeitos, cabelo bem penteado. Mas, no segundo em que entro no meu apartamento, é como se eu viajasse no tempo de volta aos meus vinte anos, relaxando de moletom e comendo Nutella. Estou levando uma vida dupla aqui.
Visto uma camiseta velha e surrada, um short de algodão e vou até a cozinha para verificar a tigela de comida de Mimi.
— Por que você não comeu? Você pegou um rato ou algo assim no jardim?
Por favor, não. Ainda estou em terapia por causa do último presente que ela deixou na banheira — uma carcaça de rato meio comida me encarando.
Mimi apenas ronrona, fazendo um círculo em volta das minhas pernas, esfregando-se contra mim em uma manipulação descarada. Provavelmente tentando me bajular para que eu esqueça suas traquinagens.
Troco sua ração intocada por um lote fresco de sua mistura orgânica favorita, ridiculamente cara, tentando atiçá-la. Ela dá uma cheirada desdenhosa e se afasta, balançando o r**o como se eu tivesse tentado envenená-la com comida de lata de lixo.
— Merda — murmuro baixinho.
— Amanhã cedo, vamos ao veterinário. O Campbell pode se virar sem mim por uma hora; não vou deixar você sofrer pelas margens de lucro dele.
Mimi me lança um olhar nada impressionado com aqueles penetrantes olhos dourados, claramente desapontada com minha corajosa posição contra a tirania corporativa.
— Obrigada por perguntar sobre o meu dia também — resmungo, deslizando até a janela para acender meu cigarro diário — meu triste e vergonhoso pequeno vício. Sim, eu sei que fumar mata. Mas trabalhar para o Campbell também.
Acendo um cigarro, dando uma longa e satisfatória tragada, sob o olhar crítico de Mimi. Suspiro, apagando o cigarro depois de algumas tragadas miseráveis.
— Está feliz agora? — pergunto, jogando a ponta no cinzeiro com um floreio derrotado. Em uma tentativa vã de mascarar o cheiro persistente da minha vergonhosa indulgência, risco um fósforo e acendo uma das minhas velas artesanais caras.
Exausta, desabo no sofá, e Mimi pula ao meu lado, enrolando-se como uma bola de pelos contra minha coxa.
Expirando profundamente, fecho os olhos por um momento no sofá, deixando seu calor me embalar em um estado quase comatoso, mesmo tendo trabalho para terminar.
Tenho inveja de quem consegue se desligar do modo de trabalho às cinco horas e deixar o emprego no escritório. Não me entenda m*l, eu amo meu trabalho... na maior parte do tempo. Estou acostumada a ficar sem energia, trabalhando sob pressão constante. Eu me divirto quando estou ocupada e sou necessária. Não há nada como a pressa das pessoas que vêm até mim com seus problemas.
Mas ultimamente, a balança tem se inclinado — estou me afogando em tudo que está sendo despejado no meu prato. O Campbell colocou mais pressão sobre nós do que nunca. É muita, até para ele, e isso quer dizer alguma coisa.
E por mais que eu goste do trabalho em si, eu poderia viver sem o chefe babaca constantemente respirando no meu pescoço. Estou cansada de pular em posição de sentido toda vez que ele grita uma ordem.
Um dia serei autônoma. Montarei minha própria empresa de consultoria de RH e trabalharei para uma gama de clientes diferentes nos meus termos. Serei minha própria chefe e nunca mais terei que lidar com outro Campbell.
Não é nem tanto sobre o dinheiro para mim, embora seja ridículo dizer que isso não importa. Tenho contas para pagar e um vício em terninhos para sustentar. Mas é mais do que apenas o dinheiro. É sobre a liberdade. A liberdade de trabalhar nos meus próprios termos, de definir meus próprios horários.
Um dia.
Ligo meu notebook, a tela piscando para a vida. Meus olhos parecem ter sido lixados, mas tenho que terminar este projeto. Mergulho no documento. Certo, Savannah. Você consegue.
O que deveria levar no máximo trinta minutos se arrasta por duas horas excruciantes porque meu cérebro é uma pilha inútil.
E eu ainda não fiz o dever de casa que meu terapeuta continua reclamando. Dr. Singh, que faz parte do nosso tão generoso programa de funcionários "nós nos importamos com sua saúde mental", insiste em fazer um diário como uma forma de exorcizar as emoções. Ele me deu a tarefa de anotar todas as coisas que me irritam durante o dia, só para tirar isso da minha cabeça. Então, eu deveria rabiscar o que supostamente me faria sentir melhor.
Na semana passada, tenho rabiscado diligentemente todas as noites antes de dormir, derramando minhas entranhas na página. Uma carta para mim mesma. Só que, em vez de um diário de verdade, preciso ser eficiente e ter muito a dizer, então o meu é digital.
A ideia é que colocar tudo isso no papel me ajuda a processar o estresse do dia de uma forma mais saudável. E tenho que admitir, é como uma rebelião secreta, uma chance de deixar todos os pensamentos sarcásticos fluírem. E, surpresa, a maioria desses pensamentos gira em torno de um certo CEO alto, moreno e implacável. E agora acabei de descobrir que ele tem uma filha de aproximadamente 6 anos.
— Não me olhe assim, Mimi — resmungo enquanto abro meu diário salvo na minha pasta particular. — Todos nós temos nossas estratégias de vida questionáveis. A sua envolve apenas se esfregar no carpete.
Querido Diário, eu digito, encolhendo-me com o quão ridícula pareço.
A maioria das pessoas não precisa eliminar todos os motivos pelos quais seus chefes as irritam. E elas certamente não inventam novos motivos para fazer isso todos os dias.
Há algo muito errado com este homem.
Sabe o que me faria sentir melhor? Enrolar a gravata i****a do Campbell em volta do seu pescoço grosso e musculoso e apertar até que aquela boca irritantemente presunçosa dele esteja me implorando por misericórdia.
Por onde eu começo?
Vamos falar sobre suas exigências malucas. O homem espera que milagres aconteçam do nada diariamente. E que o céu te ajude se você ficar um centímetro longe das expectativas impossíveis dele.
Minha equipe e eu estamos trabalhando duro há meses nessa nova campanha de recrutamento, enquanto tentamos desesperadamente cuidar do bando de hienas raivosas que Campbell chama de funcionários.
Nem me faça começar a falar daquela reunião de toda a equipe que o Campbell me fez remarcar no último minuto. Ele tem alguma ideia de quanto trabalho dá para planejar essas coisas? Claro que não.
Ele está muito ocupado sendo um tirano, controlador, um grande babaca mandão para se importar com a logística. Não importa que eu esteja planejando isso há três meses. Não importa que eu tenha os canapés mais chiques e pretensiosos conhecidos pelo homem vindos de alguma fazenda na Ilha de Wight (a pedido de Thomas) e um palestrante convidado voando por apenas um dia da Alemanha.
Não, ele simplesmente entra valsando como se fosse o Rei da Inglaterra e decide, por capricho, que a reunião precisa ser mudada. E hoje ele sai para seu evento chique, provavelmente bebendo champanhe no umbigo de alguma modelo com silicone, enquanto eu fico sentada com minha gata que adora me julgar, tentando juntar os restos despedaçados daquele pesadelo em forma de homem.
Juro por Deus, ele faz essa merda só para ver se consegue me fazer chorar.
Bem, ele que se dane, porque eu sou forte e durona. Eu sou como um daqueles sacos de pancada. E, não importa quantas vezes você me derrube, eu simplesmente levanto de volta, com um sorriso profissional estampado no rosto.
Mas, ah, o que eu não daria para ver a expressão em seu rosto estupidamente bonito se eu simplesmente me irritasse e dissesse exatamente onde ele deveria enfiar suas mudanças de última hora e seu total desrespeito ao meu tempo e à minha sanidade.
Talvez eu esteja sendo um pouco dramática demais, mas é bom desabafar. Estou realmente inspirada esta noite, tocando em algum canto obscuro do meu cérebro. Meu discurso sobre o Campbell continua por mais dois parágrafos, meus dedos voando pelo teclado.
Eu vomito tudo que me irritou hoje.
Os analistas gritam como se estivessem em um bar assistindo à Inglaterra na Copa do Mundo.
A pele do Dennis da contabilidade está descascando na minha mesa. Ele tem uma alergia miserável que piora quando ele está nervoso.
Samantha ligando dizendo que está "doente" com uma voz estranhamente rouca, quando eu sei muito bem que ela estava tomando doses de tequila ontem à noite.
Mas continuo voltando para Campbell.
Estou começando a pensar que ele sente algum tipo de excitação s****l sádica ao me controlar.
Mas ele nunca, e eu quero dizer nunca mesmo, me verá eu me dobrar para ele.
Ficarei ali, sorrindo aquele sorriso profissional, mantendo contato visual tão firme que deixaria um serial killer orgulhoso, enquanto secretamente fantasio sobre dar um tapa naquela cara irônica e tirar aquele sorriso perfeito do seu rosto.
Isso foi libertador. Estou sentindo uma mistura confusa de excitação induzida pela raiva e horror profundo e existencial. Acho que preciso de outro cigarro. No chuveiro.
Tenho que dizer, meu monólogo interior tem a maturidade emocional de uma adolescente cheia de hormônios, o que é simplesmente fantástico considerando que sou uma mulher de trinta e poucos anos com um emprego adulto e uma hipoteca. E um gato. Não posso esquecer o gato.
Falando no diabinho, Mimi mia para mim, como se tivesse alguma sabedoria para transmitir.
— Não me olhe desse jeito — murmuro, coçando atrás das orelhas dela. — Tente trabalhar para o maior bastardo de Londres e veja como você se sai. Você estaria ficaria careca em um dia de tanto estresse.
Um barulho lá fora assusta Mimi. Provavelmente algum sujeito irritado confundindo minhas tulipas com um mictório de novo. Ela pula na mesa de centro, seu r**o balançando para frente e para trás. Eu observo em câmera lenta enquanto minha taça de vinho balança, depois tomba, fazendo os restos do vinho caírem em cascata sobre o teclado do meu notebook.
— Mimi — eu suspiro, tentando enxugar as teclas.
Mimi apenas me encara, antes de pular do chão e ir para a cozinha, provavelmente para planejar seu próximo ato de terrorismo felino.