No Laboratório -II

1366 Palavras
O rosto dele assumiu uma expressão neutra. "Sim. Eles gostam. É a época mais movimentada do ano para a família." "As vendas de doces realmente disparam." Ela assentiu às palavras dele. "Sim. Meu pai, hm..." Ele coçou a têmpora. "Ele também administra uma fábrica no Norte da Europa que produz brinquedos. Faz parte do império global da família." Ele soltou um riso curto. "E ele me deu a opção de assumir o trabalho dele cedo ou administrar esta empresa quando meu tio faleceu. Eu escolhi esta." "Por quê? Por que escolher administrar uma empresa de confeitaria com sete fábricas nos EUA e duas na Europa, além da dor de cabeça que vem com tudo isso, ao invés da facilidade de administrar uma única fábrica de brinquedos?" "O irmão mais novo do meu pai administrava este negócio." Ele fez um gesto ao redor. "Eu era extremamente próximo dele. O nome dele era Klaus. Ele era um homem incrível. Ele era quem me tirava da ‘prisão’ quando minha mãe e meu pai me trancavam por causa das minhas travessuras." Ele sorriu. "‘Prisão’ era como ele chamava quando meu pai me deixava de castigo no quarto. O tio Klaus vinha e me resgatava, e uma vez até me levou para fora do país quando eu deveria estar na escola. Ele amava doces e fez disso o império dele. Foi ele quem me deu esse meu gosto por açúcar. Meu avô também tinha um paladar doce insaciável. Acho que herdamos isso. Meu pai, nem tanto. Eu era mais parecido com meu tio do que com meu pai. Quando ele morreu, meu pai tentou administrar tudo sozinho, mas não conseguiu dar conta. Ele me pediu para entrar e ajudar. Então eu assumi isso aqui. Me faz sentir próximo do Klaus, mas às vezes..." Ele estava medindo ingredientes em uma panela. "Sinto que estou decepcionando ele." "Como assim? A Santos é um dos maiores distribuidores de confeitaria do mundo. Nos últimos dez anos, você bateu a marca do bilhão de dólares todos os anos." "Verdade." Ele assentiu. "Mas meu tio queria mais da vida. Ele queria o que meus pais têm. Uma esposa, filhos, um negócio familiar. Quando era jovem, ele se divertiu muito, mas conforme foi envelhecendo, começou a reclamar que se sentia sozinho. Ele me daria uma bronca por seguir tão fielmente os passos dele como estou fazendo agora." “Você se sente sozinho?” Enquanto pensava na pergunta, ela percebeu que ele não namorava — ou, se namorava, era incrivelmente discreto, e isso acontecia em horários muito estranhos, já que ela passava os dias com ele das sete da manhã às sete da noite, ou até mais tarde, na maioria dos dias. “Não.” Ele balançou a cabeça. “Eu gosto da minha própria companhia e saio com alguém quando quero.” Ele respondeu, “eu simplesmente nunca encontrei alguém do jeito que meu pai encontrou minha mãe, e não posso me contentar com menos do que eles têm. Eles podem ser muito focados nos negócios, mas se amam profundamente. O fato de só terem três filhos já é um milagre. Meu pai é um tarado quando se trata da minha mãe. É nojento.” Ele ligou o fogão e colocou a panela sobre a chama. “E você? O negócio da sua família nunca te interessou? Seu pai parece comandar a sua cidade.” Ela bufou. “E Twila é a primogênita e a resposta para todas as orações dele sobre sucessão.” “Com ciúmes?” “Não. Resignada. Minha família me ama, não me entenda m*l. Não guardo rancor deles por nada disso, mas eu não sei assar como a mamãe. Sei cozinhar, mas minha tia já tem a lanchonete. Não sei fazer a contabilidade como Twila e meu pai, e apesar de ser extremamente organizada e eficiente, eu não dou a mínima para quantas árvores foram plantadas no ano passado ou quais estarão prontas para colheita este ano. O namorado da Twila, desde a pré-escola, é um faz-tudo e ajuda meu pai na manutenção da pousada. Eu sou a segunda filha, mas também fui a filha extra. Não era necessária. Supérflua. No ensino médio, pensei que talvez pudesse ser a administradora do escritório da Bush Enterprises, que é o nome da empresa do meu pai, mas então as coisas saíram dos trilhos e eu realmente precisei sair da cidade.” “O que aconteceu?” Ele mexia a mistura na panela com vigor, ocasionalmente levantando a colher para observar o líquido escorrer de volta para o recipiente. Ela estava gostando de vê-lo dar vida à sua criação. “Assim como Twila, eu também tinha um melhor amigo desde a pré-escola. Todo mundo dizia que cresceríamos juntos, nos casaríamos e teríamos uma família. O nome dele era Kash. Fomos melhores amigos até o ensino médio, quando começamos a namorar. Houve uma festa do colégio da qual fui proibida de ir. Twila é alguns anos mais velha que eu e leva seu papel de irmã mais velha muito a sério. Ela me pegou bebendo antes da idade permitida e dedurou. Mamãe e papai me colocaram de castigo. Kash foi sozinho para uma festa em uma casa. Bebeu demais. E então transou com minha prima Candilicious. Ninguém me contou. Foi um erro terrível, aparentemente. Os dois se arrependeram horrivelmente e nunca quiseram que ninguém descobrisse, mas então Candy descobriu que estava grávida e, como o namorado dela estava fora por um mês inteiro quando ela engravidou, ela foi forçada a contar a verdade. Ela contou para a mãe dela. A mãe dela contou para a minha mãe, e minha mãe me contou." Ela balançou a cabeça ao se lembrar. "Kash e eu literalmente dávamos as mãos no jardim de infância. Fazíamos casamentos de mentira toda primavera sob o grande salgueiro no quintal dos meus pais. Brincávamos de casinha e dávamos nomes para todos os nossos filhos. Ele foi a primeira pessoa com quem dormi. Aí ele e Candy arruinaram tudo com um erro bêbado e nojento. A filha deles tem doze anos agora. Ela é linda. Eles tentaram fazer dar certo. Casaram e tudo mais. Pelo menos eu não precisei ir ao casamento, o que foi bom. Ninguém esperava que eu fosse, e todos foram gentis sobre isso. Eles entraram com o pedido de divórcio quando Honey tinha sete anos. Ele disse que já tinha aguentado o suficiente dela. Candy continuava traindo ele e, segundo ela, era porque ele só a tocava algumas vezes por ano." "Você nunca o perdoou," Nick perguntou em um tom baixo. "Por que eu perdoaria?" "Ele estava bêbado." "Não tão bêbado a ponto do p*u dele não funcionar. Se o p*u ainda funcionava, ele sabia o que estava fazendo. Pode até ser que ele estivesse com a guarda baixa, mas não me venha dizer que ele não sabia a diferença entre certo e errado. Candy era minha prima, e eu não posso odiá-la para sempre, mas ele não é minha família. Eu não preciso perdoar nem esquecer. Além disso, foi ideia dele mentir e esconder o que aconteceu. Covarde." "Devíamos mandar para ele uma caixa disso aqui, um 'g**o no balde'," Nick se inclinou de lado e sussurrou conspiradoramente. "Acho que isso devia substituir carvão na meia de Natal de qualquer pessoa acima dos dezenove anos." Ele deixou o produto escorrer da colher. "Parece esperma. A viscosidade tá perfeita." "É efervescente." Ela riu ao vê-lo tirar a panela do fogo. "Eu consigo ouvir." "Quer provar?" "Vai estar salgado?" "Senhorita Bush!" Nick fingiu indignação, mas seus olhos brilhavam de diversão. "Que tipo de mulher você é?" Ela mergulhou o dedo na colher e lambeu. "Acho que uma vingativa, porque eu realmente queria que tivesse mais bicarbonato e menos ácido cítrico. Mais salgado, menos azedo." Quando se inclinou sobre o ombro de Nick para vê-lo ajustar a receita, percebeu que essa era a interação mais pessoal que já tivera com seu chefe em cinco anos. Ela estava absolutamente se divertindo e adorando essa nova cumplicidade entre eles sobre famílias problemáticas. Quase se arrependia de ter marcado as férias para amanhã, porque queria desesperadamente ver quanto tempo essa nova versão dele duraria.
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