Capítulo 20

716 Palavras
Renata narrando Eu estava sentada no sofá, com o meu corpo ainda fraco da cirurgia, mas o que doía de verdade não era o corte no meu peito, era o buraco que se abriu na minha alma, o silêncio daquela sala, depois que os vapores do Satan arrastaram o meu Leonardo, era o silêncio mais barulhento que eu já ouvi na vida. Eu sou mãe, entende? Por mais que o fruto seja podre, a raiz é a mesma, eu carreguei aquele moleque nove meses, dei o peito, limpei as feridas quando ele era pequeno e caía jogando bola nas vielas, eu vi o brilho nos olhos dele sumir conforme a pedra ia consumindo o que restava do meu filho, transformando o meu menino num monstro que tentou vender a própria irmã. Manuela estava na cozinha, mexendo nas panelas como se estivesse em transe, o som da colher batendo no metal era a única prova de que ainda estávamos vivas, mas eu sabia que, lá no fundo, ela estava morrendo por dentro também. — Ele não volta mais, Manu... — minha voz saiu seca e sem vida. Minha filha parou o que estava fazendo, ela veio até a sala com os olhos vermelhos, inchados de um choro que ela tentava engolir para ser forte por mim, ela se ajoelhou na minha frente, segurando minhas mãos trêmulas. — Mãe, me perdoa... — ela começou, a voz falhando, as lágrimas finalmente vencendo a barreira. — Me perdoa por não ter conseguido evitar isso, me perdoa por ter deixado as coisas chegarem a esse ponto... Eu a interrompi, colocando a mão sobre os lábios dela, o toque era frio, mas o meu olhar era firme. — Não termina essa frase, Manuela, não ouse carregar uma culpa que não cabe nos teus ombros, esse foi o destino que o Leonardo procurou para ele, ele cavou essa cova com as próprias mãos cada vez que roubou de casa, cada vez que humilhou a gente, cada vez que ele escolheu o vício em vez da família, a gente não podia fazer nada, minha filha, ninguém salva quem não quer ser salvo. — Mas dói, mãe! Dói saber que ele morreu daquele jeito! — Ela soluçou, escondendo o rosto nos meus joelhos. — Eu sei que dói, dói como se estivessem arrancando um pedaço do meu corpo sem anestesia, como mãe, eu vou sofrer a perda de um filho até o dia que eu me encontrar com Deus, por mais errado que ele fosse, por mais verme que ele tenha se tornado, ele ainda era o meu sangue, mas o Satan... — respirei fundo, sentindo o peso do nome daquele homem — o Satan não é homem de dar segunda chance, e o Leonardo sabia disso, ele brincou com o cão e acabou queimado. Ficamos ali, abraçadas, sentindo o luto se instalar entre as paredes descascadas, o destino tinha sido c***l demais com a gente, eu tinha acabado de ganhar uma vida nova naquela clínica, mas o meu primogênito perdeu a dele o equilíbrio do morro é assim: uma vida paga a outra, e o sangue nunca para de correr. — Vem, mãe, vamos para o quarto, a senhora precisa descansar, o médico disse que emoção forte é perigoso para o seu coração — Manu disse, me ajudando a levantar com todo o cuidado do mundo. Ela me levou pelo corredor, me segurando como se eu fosse feita de vidro, cada passo era uma agonia, eu deitei na cama e ela me cobriu, o carinho dela era a única coisa que me impedia de desistir de tudo ali mesmo. — Descansa, mãe. Eu vou terminar o almoço, ele disse que vinha... e a gente não pode contrariar. Assenti, fechando os olhos, eu sabia o que vinha a seguir, o Satan ia cobrar o "pagamento" dele, e minha filha ia ter que se entregar ao homem que acabou de mandar o irmão dela para o inferno. O mundo é um lugar podre, e o Santa Marta é a capital dessa podridão. Eu rezei, não pela alma do Leonardo, que essa já devia estar ardendo, mas pela alma da minha Manuela, que ela não se perdesse na escuridão daquele homem, que ela conseguisse sobreviver ao banquete do demônio que estava prestes a começar na nossa cozinha.
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