Um amor tranquilo e morno

1012 Palavras
Giulia narrando Seis meses haviam se passado desde aquela noite que me consumiu inteira. A lembrança de Renato ainda queimava dentro de mim, mas com o tempo, a dor e a confusão foram se transformando em uma memória dolorosa, porém distante. Eu não podia mais viver ali, presa ao que jamais poderia acontecer. Ele havia prometido que não voltaria, e eu precisava acreditar nisso, precisava acreditar que minha vida podia continuar sem ele, mesmo que cada célula do meu corpo ainda desejasse sua presença, seu toque, seu cheiro. Decidi seguir em frente. Não era fácil. Cada manhã me lembrava de sua ausência, cada passo pelo prédio me fazia pensar que poderia encontrá-lo, e o coração ainda disparava sempre que sua imagem invadia minha mente. Mas era hora de retomar minha vida, de reconstruir meus dias e minha mente. Retornei às missas, ainda evitando olhar para o altar quando Renato estava presente, ainda evitando qualquer contato visual, mas sentindo que cada oração me dava força para continuar. O cotidiano se transformou em uma rotina de cuidado comigo mesma, com meu trabalho e com pequenas alegrias que eu havia negligenciado durante aquele turbilhão de emoções. Caminhadas, livros, amigos, café nas manhãs frias. Aos poucos, meu coração começou a se abrir para a possibilidade de algo novo, ainda que tímido, ainda que seguro. Foi em um dia comum, naquela rotina que eu começava a aceitar, que conheci Gabriel. Eu estava na fila do mercado, distraída, com a mente ocupada pensando no trabalho, nas contas, nos detalhes da vida que precisavam de mim. E então ele apareceu, com um sorriso despretensioso e olhos que pareciam enxergar algo além da superfície. -Oi, desculpa, você pode me ceder seu lugar? – disse ele, tentando pegar um suco que estava atrás de mim, com uma voz firme, mas gentil. Sorri, surpresa pela gentileza, educação e pela maneira como seus olhos encontraram os meus. Havia algo nele que me acalmava, que me deixava curiosa, mas não assustada. Algo que não me consumia como Renato, mas me despertava atenção e interesse de um jeito diferente. - Claro, pode pegar. – respondi, sentindo um leve calor subir pelo meu pescoço. Conversamos ali mesmo, na fila, de maneira simples, despretensiosa. Falamos sobre coisas pequenas: o clima, o mercado, frutas que estavam frescas. Mas havia uma energia, um fio invisível que nos conectava, uma sensação de conforto que me envolvia sem esforço. Ele era diferente de Renato em todos os sentidos: não havia tensão, não havia risco, apenas uma proximidade que me fazia sorrir genuinamente. -Eu sou Gabriel – disse ele, estendendo a mão de forma natural. -Giulia – respondi, apertando sua mão, sentindo uma firmeza acolhedora que contrastava com tudo que eu havia vivido nos últimos meses. -Lindo nome, Giulia. Aliás, nomes com a letra "G" são bem difíceis de serem estranhos... - Ele fala piscando para mim. - Deixa a Gertrudes saber disso... - Falo em tom de brincadeira e ele fica vermelho ao soltar uma gargalhada. Não houve pressa, nem intenções apressadas. Apenas uma troca de olhares, risadas discretas, e a sensação de que talvez aquela fosse a primeira oportunidade de um recomeço real. Gabriel parecia confortável na própria pele, seguro, sem pressa ou cobrança, e aquilo me trouxe uma paz que eu nem lembrava que existia. Nos dias que se seguiram, encontramos pequenas desculpas para nos falar. Uma mensagem aqui, um encontro casual ali. Nada intenso, nada que ameaçasse me devorar emocionalmente. Mas havia algo que crescia, silencioso e constante, um interesse que se transformava em cuidado, atenção, pequenas demonstrações de carinho que aqueciam meu coração. Eu ainda pensava em Renato, claro. Sempre haverá lembranças dele, sempre haverá saudades daquele desejo impossível e daquela noite que me marcou. Mas, olhando para Gabriel, percebi que era possível sentir algo novo sem apagar o passado. Era possível existir um espaço seguro, uma paixão morna, confortável, que me permitia sorrir sem medo, respirar sem culpa, sentir sem dor. -Quer ir tomar um café depois? – ele me perguntou certo dia, olhando-me nos olhos com um sorriso que parecia sincero e tranquilo. -Eu adoraria – respondi, surpresa pela leveza daquele convite, pela normalidade de sentir meu coração acelerar sem desespero, sem tensão. Naquele momento, percebi que havia dado o primeiro passo para reconstruir minha vida. Que era possível sentir desejo e carinho por alguém de forma saudável, sem culpa, sem medo. Que a paixão não precisava queimar como fogo, mas podia aquecer como sol de fim de tarde, constante e acolhedora. Enquanto caminhávamos juntos, sentindo o calor suave do sol, conversando sobre coisas simples e rindo de pequenas histórias, senti um alívio profundo. Não era Renato, não era aquela entrega intensa que me havia consumido, mas era bom, era real, era possível. E talvez, apenas talvez, essa fosse a forma de continuar vivendo e amando, sem se perder no desejo insano que nos destrói. Gabriel segurou minha mão de forma natural, e eu senti meu coração apertar de uma maneira diferente. Era conforto, era carinho, era segurança. Algo que Renato nunca poderia me oferecer, pelo menos não naquele momento, e algo que eu precisava desesperadamente para seguir em frente. Até que ele se aproximou e colou seus lábios nos meus, um beijo calmo e, aparentemente, apaixonado. - Eu queria fazer isso a tanto tempo. Foi muito melhor do que eu imaginava... - Ele diz se afastando e esboçando um sorriso. Enquanto os seis meses de dor e desejo lentamente se dissolviam, percebi que estava pronta para deixar o passado descansar. Que estava pronta para sentir algo novo, mesmo que morno, mesmo que seguro, sem se queimar no fogo de uma paixão impossível. E naquele instante, na fila do mercado, com Gabriel sorrindo para mim, percebi que a vida ainda podia ser doce, ainda podia ter amor, ainda podia ter momentos de felicidade simples e genuína. O passado continuaria a existir em mim, mas eu não precisava mais ser prisioneira dele. Eu podia seguir em frente, abrir meu coração de novo, e quem sabe, encontrar uma forma de amar que fosse sustentável, real e verdadeira.
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