É o padre.
Estou alucinando, não pode ser.
Eu descobri que eles não moram na igreja, mas morar no meu prédio. Isso é demais para mim.
- Bom dia, que coincidência. – Ele me diz com aquela voz rouca.
Bo Bom dia. – Digo pigarreando, sem conseguir esconder o meu nervosismo.
Vejo que o elevador tem o mesmo número do meu andar pressionado, então percebo que o que está r**m, pode ficar ainda pior. ELE MORA NO MEU ANDAR.
- Você mora aqui? – Ele me pergunta tentando puxar assunto.
- Sim, faz muitos anos. Você também? – Pergunto.
- Acabei de me mudar. Poucas pessoas sabem que os padres podem não morar na igreja. – Ele diz e eu percebo que está surpreso com a minha informação, m*l sabe ele que eu pesquisei tudo sobre padres na internet e estou quase fazendo um TCC sobre isso...
RENATO NARRANDO.
Acabei de me formar como padre. Foi mais rápido do que eu imaginei que seria. Depois de tudo o que vivi, eu só quero me entregar de corpo e alma para Deus. A única maneira de salvar a minha vida, foi me consagrando.
Me chamo Renato, tenho 38 anos de idade e já vivi muitas coisas na minha vida. Sou alto, tenho cabelos pretos e barbas pretas. Meus olhos são castanhos e eu tenho ombros largos, sempre me dediquei a saúde física do meu corpo, me esquecendo da vida espiritual.
Hoje faço atividades físicas, mas não sou bitolado como era antes.
Era piloto de helicóptero e vivi coisas que eu gostaria de esquecer. Quase me casei, fui noivo por 4 anos e uma semana antes do meu casamento, peguei a minha futura esposa na cama com o meu pai.
Aquilo dilacerou o meu peito e eu resolvi cortar vínculos com todos da família. Minha mãe faleceu quando eu tinha apenas dez anos e eu nunca superei a sua morte. Como piloto, logo após o episódio de traição, sofri um acidente em que eu fui o único sobrevivente. Apesar de saber que não foi minha culpa, eu carrego como se fosse.
Meu psicológico estava abalado e eu deveria ter tirado uns dias de folga, mas quis me afundar no trabalho para esquecer a decepção que eu estava vivendo.
Foi traumatizante ver os corpos dilacerados, as dores dos meus ferimentos também eram terríveis. O resgate demorou cerca de 5 horas para chegar e, nesse tempo, eu achei que morreria. Resolvi entregar minha vida a Deus, por isso comecei o processo para me tornar padre.
Fiz a faculdade de teologia e filosofia e fiquei 5 anos no celibato. Confesso que foi a parte mais difícil, porque eu era acostumado com outra realidade. Um mundo pecaminoso em que os prazeres carnais são mais importantes do que princípios.
Hoje estou aqui, dedicando minha vida ao Senhor. Em busca da paz.
Na minha primeira missa eu já vejo a tentação passando pelos meus olhos.
É impossível não reparar na moça que está na minha frente. Uma mulher linda e doce, seus olhos azuis como o céu transmitem uma pureza que poucas vezes fui capaz de notar.
Se fosse em outra época, eu não a deixaria passar por mim sem me conhecer. Acabo tendo que me apresentar, por intermédio do padre mais antigo e luto bravamente contra os meus pensamentos e a vontade de tê-la para mim.
Oh céus. Eu não cheguei tão longe para desistir.
Faço todas as minhas obrigações como padre e volto para o apartamento que aluguei. É a minha primeira semana morando nesse prédio, eu decidi ter um pouco de privacidade em meus momentos sozinhos e deixar o lugar para algum padre que precise mais do que eu.
Minha família sempre teve muito dinheiro, então eu acabei investindo desde novo e hoje tenho um valor confortável para viver, vindo desses investimentos. O que sobra e o que eu acho que é riqueza, eu doo para a igreja.
Meu dia começa cedo, preciso ir para a paróquia ajudar os padres nas minhas obrigações. Quando tudo se resolve, volto para o meu apartamento. Porém, no elevador vejo aquela mesma mulher que me encantou na missa.
Não pode ser possível algo assim, ela está ainda mais linda. Mesmo com um corpo esbelto, vejo que está sempre com roupas que cobrem o seu corpo. Isso a deixa ainda mais bela.
Trocamos algumas palavras e eu a comunico que estou morando aqui. Para a minha surpresa, ela é a minha vizinha da porta da frente.
- Foi um prazer te encontrar, Giulia. – Falo e ela me olha surpresa, deve achar que eu não lembrava o seu nome.
- O prazer foi meu, padre Renato. – Ela responde e vejo que também gravou meu nome. Afasto esses tenebrosos pensamentos e volto para limpar a minha casa.
Vejo que algumas pessoas chegam na porta do apartamento dela e tocam a campainha. São pessoas bem diferentes dela e carregam consigo cervejas. São dois homens e uma mulher.
Será que é o namorado dela, com um casal de amigos? Me sinto um padre safado e curioso em estar olhando no olho mágico, mas eu acho que curiosidade não é pecado.
Ela os cumprimenta com um beijo e um abraço e eles entram.
Posso ouvir de fundo uma música baixa e risadas. Eles conversam alegremente. Parece que são muito felizes.
Isso me causa uma sensação que eu não sentia faz muito tempo... Eu nunca fui feliz no mundo lá fora, busco a minha felicidade nos caminhos de Deus. O medo de me decepcionar é muito grande, depois de tudo o que vivi.
Resolvo me abster desses pensamentos e sigo meu dia normalmente. Faço a faxina da minha casa e resolvo preparar alguns biscoitos de castanhas. Faço uma quantidade maior do que o necessário e me recordo da minha vizinha, não vejo m*l algum em mandar pelo porteiro alguns para ela - aproveito e também entrego alguns para o porteiro, que fica extremamente feliz.
O dia da missa chega e nem sinal dela. Eu acho estranho, pois o padre mais antigo me disse que ela não faltava nunca. Será que ela entendeu m*l o envio dos biscoitos? Será que eu passei do limite da mera cordialidade?
O padre mais antigo começa o seu discurso final.
Volto para o meu apartamento e sigo com a minha rotina, por dias sem esbarrar com ela - apesar dela nunca sair dos meus pensamentos.