Compromisso com Deus

1140 Palavras
Fiquei paralisada por alguns segundos. A porta do elevador se fechou atrás de nós, e estávamos ali, presos, em um cubículo metálico que parecia cada vez menor. O padre - ou melhor, Renato - mantinha aquele olhar tranquilo, como se não percebesse o furacão que girava dentro de mim. E talvez não percebesse mesmo. Eu estava habituada a esconder bem o que sentia. - Então somos vizinhos agora -ele completou, com um sorriso leve. Assenti com a cabeça e tentei manter o mínimo de compostura. - É, parece que sim... O elevador subiu lentamente. Eu me concentrava em não olhar diretamente para ele, mas era difícil ignorar sua presença. O perfume amadeirado que ele usava era sutil, mas invadia meu espaço como se quisesse se alojar na minha memória. Quando as portas se abriram, saímos juntos. Caminhamos em silêncio pelo corredor, e, ao pararmos em frente à porta do meu apartamento, percebi que a dele era a unidade logo ao lado. Claro. Óbvio que o universo teria esse tipo de humor comigo. - Parece que seremos mais do que vizinhos de igreja - ele brincou, tentando aliviar o clima. Sorri, tentando não parecer nervosa. - É... Bem-vindo ao prédio. Se precisar de alguma coisa, estou por aqui - Falei, já colocando a chave na fechadura. - Obrigado, Giulia. É bom saber que tenho uma vizinha simpática. A maioria dos lugares onde morei era bem mais fria... Entrei rapidamente no apartamento e encostei a porta com cuidado, tentando não parecer grossa. Encostei as costas na madeira e respirei fundo. Era oficial. Eu estava envolvida até o pescoço em algo que eu nem compreendia. Por que esse homem mexia tanto comigo? Joguei as sacolas na cozinha e fui direto tomar outro banho. O segundo do dia. A água fria bateu nas minhas costas como um lembrete de que eu precisava colocar minha cabeça no lugar. Isso não fazia sentido. Eu não me envolvia com ninguém. Nunca me envolvi. Então por que agora, e justamente com ele? Passei o resto do dia tentando me distrair com planilhas e balanços, mas nem as oscilações do mercado financeiro conseguiam me tirar daquele estado de torpor. Era como se uma parte de mim tivesse despertado de um sono profundo e agora estivesse inquieta, ansiosa por algo que eu não sabia nomear. No fim da tarde, ouvi um barulho na porta. Meus amigos chegaram para o nosso sagrado encontro de todas as semanas. Júlio, Carina e Paulo. Tomamos cervejas e conversamos sobre assuntos corriqueiros. Foi muito agradável, mas nunca prolongamos para não incomodar os vizinhos, então quando foi 21h30 eles se despediram e foram embora. Enquanto eu termino de limpar a bagunça que fizemos, ouço o barulho da campainha. Era o porteiro, entregando uma encomenda. Assinei o recibo e voltei, mas percebi que havia uma outra embalagem na frente da porta. Uma caixinha branca, pequena, sem remetente. Olhei para os lados, desconfiada, e levei a caixa para dentro. Abri com cuidado. Lá dentro, um bilhete escrito à mão: "Giulia, espero não estar ultrapassando limites. Preparei alguns biscoitos de castanha-do-pará. Fiz demais e achei que talvez gostaria de experimentar. - Renato." Meu coração deu um pulo no peito. Eu nem sabia que padres cozinhavam. Fiquei olhando para o bilhete por longos minutos, como se cada letra me dissesse mais do que o texto permitia. Peguei um biscoito e dei uma mordida hesitante. Estava delicioso. Levemente amanteigado, crocante, com o sabor da castanha realçado. Mas era isso que me deixava ainda mais confusa. Ele parecia tão... normal. Humano. Gentil. Revirei os pensamentos a noite toda. E, por mais que tentasse me convencer de que aquilo era só uma gentileza, uma cordialidade entre vizinhos, algo dentro de mim gritava que havia algo a mais. Uma tensão no ar. Uma sutileza nos olhares. Decidi que precisava manter distância. Ao menos por um tempo. Nos dias que se seguiram, evitei os horários da missa, e parei de passar pelo corredor em horários previsíveis. Voltei a treinar em horários diferentes, evitando qualquer chance de esbarrar com ele no elevador. Mas claro, como tudo que tento controlar, saiu pela culatra. Em uma manhã de domingo, acordei tarde, suando, após um sonho que preferia não lembrar. Um sonho onde eu e Renato... Bom, não era um sonho apropriado para ser descrito. Sentei na cama, abri a janela e vi, para minha surpresa, ele correndo na rua. Usava uma regata preta e shorts, e confesso que demorei mais do que deveria para desviar o olhar. Ele corria com leveza, como se cada passo fosse calculado para manter o equilíbrio entre o corpo e a mente. Mais tarde, naquele mesmo dia, resolvi encarar o problema de frente. Vesti uma calça jeans, uma blusa discreta, e fui até o apartamento ao lado. Bati na porta com a mão hesitante. Ouvi passos e, em segundos, a porta se abriu. Renato apareceu com um sorriso, como se já soubesse que eu iria. - Giulia... que surpresa boa. - Oi. Desculpa aparecer assim, mas... você tem um tempinho? Ele assentiu e abriu mais a porta. - Claro, entra. O apartamento dele era simples, acolhedor. Alguns livros religiosos empilhados em uma estante, quadros de paisagens e uma imagem de São Francisco sobre a mesa de centro. Havia cheiro de café no ar. Sentei no sofá e ele se acomodou na poltrona à frente. - Eu... - comecei, mas logo parei, envergonhada. - Eu só queria agradecer pelos biscoitos. Estavam ótimos. - Fico feliz que tenha gostado. - Ele sorriu, mas seu olhar era sério. - Você anda sumida. Não te vi mais na igreja. Suspirei. Não podia mentir. - É verdade. Eu... fiquei um pouco desconfortável. Ele franziu o cenho, preocupado. - Fiz algo que te incomodou? Balancei a cabeça, rápido demais. - Não! Pelo contrário. Você foi gentil, educado... é só que... eu nunca senti isso antes. Ele me olhou em silêncio. O ar parecia ter ficado mais pesado. - Sentiu o quê, Giulia? Fechei os olhos por um segundo, buscando coragem. - Uma conexão. Uma coisa... forte. E isso me assusta. Porque não deveria acontecer. Porque você é um padre. E eu... nem sei o que estou dizendo. Ele se levantou e caminhou até a janela, de costas para mim. Ficou em silêncio por alguns segundos, e quando falou, sua voz estava mais baixa, mas firme. - Giulia, você está confundindo as coisas... Você é um mulher incrível e eu não quero te magoar, mas... Meu coração disparou. - Mas eu fiz um voto. Um compromisso com Deus. E ainda estou tentando entender o que tudo isso significa. Porque... Não quero te magoar, espero que entenda que isso não existirá. As palvras dele vieram como facas no meu coração, não por ele ter me rejeitado, mas pelos seus olhos dizerem outra coisa. Fiquei ali, sentada, paralisada. E também completamente perdida.
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