RENATO NARRANDO.
Fiquei imóvel na poltrona, com o corpo inteiro pulsando. Aquela confissão da Giulia fez meu coração bater tão forte que tive medo de ela ouvir.
“Você mexeu comigo de uma forma que ninguém nunca mexeu.”
As palavras dela ecoavam na minha cabeça como um mantra proibido. Quase como uma profecia daquilo que, no fundo, eu já sabia: não dava mais para ignorar o que estava acontecendo entre nós.
Ela ainda estava parada no sofá, com os braços cruzados e os olhos perdidos em um vazio que eu não conseguia decifrar. O sol da tarde desenhava um contorno dourado na linha do seu maxilar, que estava tenso, como se ela travasse uma batalha interna.
Mas eu não me sentia diferente, estava em um dilema. E me culpava por sentir esse peso, esse dilema não deveria sequer existir. Abdiquei de tudo em prol da minha vida espiritual e estava tudo desmoronando na minha frente.
Ela se levantou e saiu, sem maiores explicações.
Fiquei sozinho na sala, imóvel, tentando entender o que tinha acabado de acontecer. O silêncio que ela deixou ao sair parecia gritar dentro de mim. Aquele mesmo sofá onde ela esteve sentada agora parecia carregar a presença dela, o calor do corpo dela, o perfume suave que ainda pairava no ar. Fechei os olhos e senti meu peito apertar. Como posso, meu Deus? Como posso me sentir assim por ela?
Levantei-me devagar, como se cada movimento pesasse mais do que deveria. Fui até a janela e olhei para fora. O céu estava limpo, mas dentro de mim havia uma tempestade. Eu deveria ter dito algo quando ela falou aquelas palavras. Eu deveria ter sido claro, ter colocado um limite. Mas ao invés disso, eu fiquei mudo, perdido entre a razão e um desejo que me assusta.
Sentei-me novamente, apoiei os cotovelos nos joelhos e cobri o rosto com as mãos. O que eu disse para ela naquela última conversa… que eu não sentia nada. Uma mentira descarada. Disse para protegê-la, para tentar proteger a mim mesmo. Mas cada vez que lembro dos olhos dela naquele momento, vejo a dor que causei.
Desde que Giulia saiu, evito qualquer possibilidade de cruzar com ela. E isso, morando no mesmo prédio, no mesmo andar, é quase impossível. Preciso calcular horários, escutar pelo olho mágico antes de sair, manter meus passos silenciosos pelo corredor. Tornei-me um fugitivo dentro do meu próprio lar.
E, mesmo assim, a imagem dela me persegue. Quando tento rezar, é o rosto dela que aparece na minha mente. Quando fecho os olhos à noite, lembro da forma como ela disse aquilo.
“Você mexeu comigo de uma forma que ninguém nunca mexeu.”
As palavras queimam na minha memória. Mexeu comigo também, Giulia. Mas eu não posso admitir. Não devo admitir.
O mais c***l é saber que ela está tão perto. Apenas algumas paredes me separam dela. Às vezes, à noite, quando o silêncio domina o prédio, ouço passos do outro lado do corredor. Imagino que seja ela. Meu coração dispara mesmo sem vê-la. Em algumas manhãs, escuto a porta do apartamento dela se abrir e fecho a minha rapidamente, fingindo que ainda estou dormindo, só para não precisar encontrá-la.
E imagino que ela faça o mesmo. Deve estar tentando me evitar, com vergonha do que disse. Penso nela trancada lá dentro, talvez sentada no sofá, encarando o vazio como estava naquele dia. Penso que, quando se lembra de mim, deve sentir arrependimento, talvez raiva.
Mas eu sei que, por mais que ela tente, assim como eu, não consegue parar de pensar no que ficou entre nós.
Os dias passam em um estranho silêncio compartilhado. Não trocamos palavras, não nos olhamos, mas sabemos que estamos próximos. Essa proximidade física aumenta o peso de tudo. Não há como fingir que somos estranhos quando nossos mundos estão separados apenas por alguns metros de corredor.
Certa noite, acordei com um barulho no andar. Fui até a porta, olhei pelo olho mágico e vi Giulia voltando do elevador. Ela usava um vestido simples, mas para mim parecia um convite ao pecado. Os cabelos soltos caíam sobre os ombros, e havia algo no jeito dela andar – cansado, talvez triste – que me fez querer abrir a porta e chamá-la. Mas fiquei imóvel, preso entre o desejo e o medo.
Voltei para o quarto, deitei na cama e me odiei por essa covardia.
Tento me convencer de que é apenas um impulso, que vai passar. Mas então escuto a risada dela vinda do apartamento ao lado, e tudo volta com força. Tento rezar, mas minhas preces se transformam em confissões silenciosas sobre o que sinto. Tento ler, mas cada palavra me leva de volta ao que quero esquecer.
E o pior é imaginar que, em algum momento, inevitavelmente, vamos nos encontrar no corredor. Vamos trocar olhares. E eu não sei o que vou fazer quando isso acontecer.
Tenho medo desse encontro, mas também o aguardo. É uma espera torturante. Porque, apesar de tudo, eu sei que quando nossos olhos se cruzarem de novo, toda essa distância artificial vai ruir em segundos.
Deito-me, olhando para o teto escuro do quarto, e me pergunto se ela também está acordada, pensando em mim.
E, em silêncio, admito o que jamais ousarei dizer em voz alta:
Eu sinto.
Eu sempre senti.
E não sei até quando conseguirei mentir.