O confessionário

1069 Palavras
Renato narrando Os dias seguiram um após o outro, em um ciclo de tensão que eu não conseguia quebrar. Giulia continuava sendo uma presença constante mesmo sem nunca aparecer diante de mim. Eu a via apenas de relance, sempre por acaso, sempre quando ela não percebia. Na última manhã de sábado, desci até a garagem mais cedo do que o habitual. Precisava buscar algo no carro, mas, no fundo, acho que parte de mim só queria respirar fora daquele apartamento que parecia cada vez mais sufocante. Foi quando a vi. Ela estava alguns metros à frente, próxima ao seu carro, com um rapaz que eu nunca tinha visto antes. Ele segurava uma sacola pesada e, pelo jeito que conversavam, pareciam íntimos. Giulia ria. Uma risada leve, espontânea, daquela que há semanas eu não ouvia e que agora era dirigida a outro. Fiquei paralisado por alguns segundos, apenas observando. Senti algo dentro de mim se contorcer. Um calor estranho, um aperto no peito que não tinha nada a ver com fé, espiritualidade ou qualquer coisa que eu pudesse justificar com palavras santas. Era ciúme. Um ciúme tão intenso que tive que virar as costas e me esconder atrás de uma coluna para que ela não me visse ali, encarando como um t**o. Passei o resto do dia atormentado por aquela cena. Quem era ele? O que estavam fazendo juntos? Será que ela já me esqueceu tão rápido? Será que o que disse naquela tarde não significou nada? Eu tentava me convencer de que era melhor assim, que ela seguir em frente era o que devíamos querer, mas a verdade é que a ideia de outra pessoa ocupando o espaço que eu neguei me destruía por dentro. A semana seguinte chegou carregada de um silêncio ainda mais pesado. Comecei a ouvir o som da porta do apartamento dela abrir e fechar em horários diferentes, talvez para evitar me encontrar. Às vezes, quando passava pelo corredor, um perfume suave escapava pela fresta da porta dela, como uma provocação involuntária. Na quinta-feira à noite, estava terminando de organizar alguns papéis quando o celular vibrou com uma mensagem da paróquia: precisavam de mim para confissões no dia seguinte. Suspirei. Sempre gostei de ouvir confissões, de estar ali para ajudar, orientar, ser o ouvido que tantas almas precisam. Mas, naquele momento, até isso parecia um fardo. O dia seguinte chegou e me encontrei dentro do confessionário, um espaço pequeno, de madeira escura, iluminado apenas por uma luz suave que passava por entre as grades. Ali, eu sempre me sentira protegido, um intermediário entre o pecador e Deus, alguém com o dever de ouvir sem julgar. Mas eu não estava preparado para o que viria. No início, as confissões eram comuns, corriqueiras: pequenas mentiras, brigas familiares, dúvidas de fé. Até que ouvi passos leves aproximando-se. Uma respiração contida. A porta do lado oposto se abriu e alguém entrou. - Boa tarde, padre - disse uma voz que fez meu coração parar. Giulia. Reconheci imediatamente. Senti meu corpo inteiro reagir, um arrepio percorrendo minha espinha. Engoli em seco e tentei manter a postura. -Boa tarde, minha filha - respondi, com a voz firme, embora por dentro tudo estivesse ruindo. - Em que posso ajudar? Houve um breve silêncio, como se ela estivesse reunindo coragem. Quando falou, sua voz estava trêmula, carregada de emoção. - Padre… eu pequei. Fechei os olhos e senti um nó na garganta. Ela prosseguiu, com um tom baixo, quase um sussurro: -Eu pequei porque… porque estou apaixonada. E… e esse amor não é certo. Eu tentei evitar, tentei fugir, mas não consigo. Eu penso nele todos os dias. Todos os dias, padre. Eu acordo e ele é a primeira coisa que me vem à mente. Eu vou dormir e ele ainda está lá, nos meus pensamentos. E eu me sinto suja por isso, porque eu sei que ele… ele não deveria ser alguém que eu desejasse. Minhas mãos tremiam. Era a mim que ela se referia, e eu sabia. Cada palavra dela era uma faca cravando fundo, porque tudo o que ela descrevia era exatamente o que eu sentia também. - Eu sei que errei ao dizer isso a ele - continuou, com a voz embargada. - Eu me sinto humilhada. Ele me disse que não sentia nada por mim e, mesmo assim, eu não consigo parar. Eu fico imaginando se ele pensa em mim, se ao menos um dia ele sentiu algo. E isso me mata, padre, porque… eu não consigo seguir em frente. Ela começou a chorar do outro lado, e cada soluço dela era um golpe em mim. Senti vontade de abrir aquela porta, de segurá-la nos braços e dizer a verdade: que eu penso nela, que eu minto para protegê-la, que ela é tudo o que eu tento negar. Respirei fundo, tentando recuperar o controle. -Filha… - falei, e minha voz quase falhou. - Amar não é um pecado. O que fazemos com esse amor pode ser. Ela permaneceu em silêncio, talvez surpresa com minha resposta. - Mas e quando esse amor… é impossível? - perguntou, em um fio de voz. Não consegui responder de imediato. Minhas mãos apertaram com força o crucifixo que carregava no pescoço. Eu queria dizer que não era impossível, que nada no mundo era capaz de tirar o que eu sentia por ela. Mas eu era o padre Renato, e o padre Renato precisava dar uma resposta diferente. -Às vezes, o que sentimos é um caminho que precisamos compreender. Talvez seja um desafio, um aprendizado… Enquanto falava, sentia-me um hipócrita. Ela chorava e eu me escondia atrás de palavras que eu mesmo já não acreditava. -Eu só queria que ele soubesse… - disse, quase num sussurro. - Que eu ainda sinto. Que, mesmo tentando odiá-lo, eu ainda o amo. Fechei os olhos, e uma lágrima solitária escapou. Ela nunca saberia que, naquele momento, do outro lado daquela grade, o homem que a fazia sofrer também estava em pedaços. - Reze, filha. Peça força para seguir. E… cuide do seu coração - foi tudo o que consegui dizer antes que minha voz traísse tudo o que eu escondia. Ela permaneceu em silêncio por um instante, depois fez o sinal da cruz e saiu. Fiquei ali, sozinho, com as mãos cobrindo o rosto, lutando para não correr atrás dela. E pela primeira vez, dentro daquele espaço sagrado, senti que estava perdendo a batalha contra mim mesmo.
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