Giulia narrando.
Eu nunca imaginei que me sentiria assim, tão exposta, tão vulnerável, tão perdida dentro de algo que nunca deveria ter começado.
Desde aquele dia em que me declarei para o Renato, sinto que minha vida saiu completamente do controle. Eu não sei o que me deu naquele momento. Talvez fosse tudo o que estava preso dentro de mim há tanto tempo, explodindo de uma vez. Mas quando disse que ele mexeu comigo de uma forma que ninguém nunca mexeu… eu estava sendo sincera.
E agora me arrependo profundamente.
Ele ficou em silêncio. Não disse nada, mas o silêncio dele gritou mais alto do que qualquer resposta. Depois, quando finalmente falou, foi para me dizer que não sentia nada por mim. Que aquilo que eu estava imaginando não existia. Eu sorri, fingi que tudo bem, e saí. Mas por dentro, desmoronei.
Desde então, moro no mesmo andar que ele, no mesmo corredor, e é como viver em um campo minado. Cada passo que dou me faz temer que vou cruzar com ele. Não consigo mais sair do meu apartamento sem antes espiar pelo olho mágico, certificando-me de que o corredor está vazio.
Alterei meus horários, comecei a inventar compromissos só para não correr o risco de encontrá-lo no elevador.
E, mesmo assim, ele está em toda parte. No cheiro do incenso que às vezes sinto vindo do apartamento dele, no som distante da voz dele quando fala ao telefone, nos passos firmes que reconheço pelo corredor. Tento me convencer de que não penso mais nele, mas basta um som, um sinal, e ele está de volta à minha mente, invadindo tudo.
A pior parte foi no sábado passado, quando desci para a garagem e encontrei um amigo meu, o André, que veio trazer umas compras que pedi. Conversamos por alguns minutos, ele fez piadas bobas para me animar e eu ri. Eu precisava rir. Só que, quando olhei de relance, vi um movimento ao fundo.
Alguém estava ali, meio escondido, observando. E eu não precisei de mais de um segundo para saber quem era. Senti o coração disparar, um misto de vergonha e raiva. Porque, se ele não sente nada, por que estava ali me olhando daquela forma? Por que parecia incomodado?
Passei o resto do dia remoendo aquilo. Ele não me quer, mas também não me deixa em paz dentro da minha própria cabeça. Isso não é justo.
Quando soube que ele estaria na paróquia atendendo confissões, não planejei ir. Juro que não planejei. Mas algo dentro de mim me empurrou até lá, como se fosse a última chance de me libertar desse peso. Sentei no banco da igreja por alguns minutos, olhando para o altar, tentando reunir coragem. Minhas mãos tremiam. Eu sabia que, se entrasse naquele confessionário, teria que ser sincera, mesmo que doesse, mesmo que me destruísse.
E eu entrei.
Quando fechei a porta e ouvi sua voz do outro lado, senti meu corpo inteiro estremecer. Ele disse “Boa tarde, minha filha” com aquela firmeza que sempre me atraiu, e eu quase desabei ali mesmo. Mas respirei fundo e disse o que precisava dizer: que pequei.
Cada palavra que saiu da minha boca parecia rasgar minha alma. Disse que estava apaixonada, que não conseguia parar de pensar nele, que acordava e dormia com ele na minha mente. Disse que me sentia humilhada porque ele me rejeitou, mas ainda assim não conseguia deixar de amá-lo. Enquanto falava, lágrimas escorriam sem que eu pudesse controlar. Era como se tudo o que eu guardava finalmente encontrasse um escape.
Esperei que ele me julgasse, que me repreendesse, que me lembrasse de todas as razões pelas quais esse sentimento era errado. Mas ele não fez isso. Ele ficou em silêncio por um tempo, e quando falou, sua voz… não sei explicar. Havia algo ali, algo que parecia tão contido, tão reprimido, que quase me fez acreditar que minhas palavras não tinham sido em vão.
“Amar não é um pecado”, ele disse.
Aquilo me desarmou completamente. Eu esperava tudo, menos isso. Talvez fosse coisa da minha cabeça, talvez eu tenha ouvido mais do que ele realmente quis dizer, mas naquele momento eu senti como se, do outro lado daquela grade, houvesse alguém tão machucado quanto eu.
Saí do confessionário com as pernas bambas. Não tive coragem de olhar para trás, de confirmar se era verdade o que senti. Mas, quando cheguei em casa, trancada no meu apartamento, chorei por horas. Porque, apesar de todas as palavras que ele usou para me orientar, eu senti que ele também estava lutando contra algo.
E essa sensação me consome.
Eu já não sabia mais o que fazer comigo mesma. Depois da confissão, achei que me sentiria aliviada, mas foi o contrário. Eu saí de lá com um peso ainda maior, como se tivesse aberto uma ferida que não cicatrizaria nunca. Passei os dias seguintes trancada em casa, tentando me ocupar com qualquer coisa que não me lembrasse dele. Mas tudo me lembrava dele. O corredor do prédio. A voz grave que às vezes ecoava pelo apartamento ao lado. O cheiro do incenso que, de vez em quando, atravessava a porta.
Tudo.
Então decidi que precisava tentar seguir em frente. Ou pelo menos fingir que estava tentando. André, um amigo antigo, me mandou mensagem dizendo que passaria pelo meu bairro e perguntou se eu queria ir tomar um café. Eu hesitei, mas disse sim. Talvez fosse bom me distrair, lembrar a mim mesma que existem outros homens no mundo além dele.
Passei um batom leve, vesti um vestido simples e esperei André no hall do prédio. Quando o elevador abriu, ele desceu sorridente, segurando uma pequena sacola com chocolates que ele sabia que eu gostava. Abracei-o de forma amigável, sincera até, porque André sempre foi gentil comigo. E, por um instante, achei que estava fazendo a coisa certa.
Saímos do hall em direção ao estacionamento, conversando sobre coisas banais. Ele me contou sobre uma viagem que faria a trabalho e riu de uma situação engraçada que tinha acontecido com um colega dele. Eu ri também, mas minha risada saiu um pouco mais alta do que deveria, quase forçada. Talvez porque eu quisesse me convencer de que estava bem.
Foi então que senti. Um arrepio na nuca, uma sensação estranha de estar sendo observada. Virei o rosto discretamente e, lá estava ele.
Renato.