Ele estava parado próximo ao corredor que levava aos apartamentos, quase escondido, como se tivesse acabado de sair de casa e tivesse parado ao nos ver. Seus olhos estavam fixos em mim. Não, não em mim - em nós.
O tempo pareceu desacelerar. Eu, com André ao meu lado, sorrindo distraído, e Renato, imóvel, me olhando com um misto de algo que não soube decifrar na hora, mas que depois entendi: ciúme.
Meu coração disparou, mas tentei disfarçar. Não queria que ele percebesse o que aquela presença causava em mim. Continuei andando, continuei conversando, mas minhas palavras começaram a sair trêmulas, e André percebeu.
-Você está bem? -ele perguntou, parando de repente.
-Estou - menti, sorrindo. -Só um pouco cansada.
Enquanto isso, pude ver pelo canto do olho que Renato ainda estava lá, parado, nos observando. A tensão no ar era quase palpável. E eu me perguntei, em silêncio: por quê? Por que ele olha assim se diz que não sente nada? Por que parece tão incomodado se fui clara que estou tentando seguir em frente?
Chegamos ao carro de André. Ele abriu a porta do passageiro para mim, um gesto simples, mas que me fez sentir ainda mais exposta, como se eu estivesse deliberadamente provocando. Senti o olhar de Renato queimar minhas costas e precisei respirar fundo para não desabar ali mesmo.
Antes de entrar no carro, olhei discretamente na direção dele. Foi rápido, quase imperceptível, mas suficiente para me atingir em cheio. Seus olhos estavam escuros, intensos, e quando se encontraram com os meus, senti um turbilhão: raiva, dor, desejo - tudo misturado em um olhar que dizia muito mais do que qualquer palavra.
Desviei o olhar rapidamente e entrei no carro. André continuou falando, alheio a tudo, mas eu não ouvi mais nada. Minha mente estava presa naquela troca silenciosa no estacionamento.
Enquanto o carro saía da garagem, olhei pelo retrovisor e o vi ainda lá, parado, com as mãos nos bolsos, o maxilar travado. E naquele instante eu percebi: ele estava com ciúmes.
O problema é que, em vez de me sentir vingada ou satisfeita, aquilo me destruiu. Porque, se ele sente ciúmes, significa que ele sente algo. E se sente algo, por que continua me afastando? Por que me fez sofrer tanto?
Durante o trajeto até o café, fiquei em silêncio a maior parte do tempo. André percebeu, mas não insistiu. Talvez tenha achado que eu estava preocupada com outra coisa. m*l sabia ele que eu estava em pedaços, porque uma única troca de olhares com Renato tinha desfeito toda a força que eu tentava construir.
Quando voltei para casa, horas depois, o corredor estava silencioso, como sempre. Mas havia algo diferente no ar, uma tensão que parecia impregnar as paredes. Passei pela porta do apartamento dele e senti meu coração acelerar. Será que ele estava lá dentro, pensando no que viu? Será que estava tão perturbado quanto eu?
Entrei no meu apartamento, fechei a porta e deslizei as costas contra ela até me sentar no chão. E chorei. Chorei porque não aguento mais viver assim: entre a distância que ele impõe e a intensidade que ele não consegue esconder.
Eu queria bater na porta dele e gritar: “Para com isso! Para de me olhar assim se não pretende fazer nada!” Mas, no fundo, sei que, se ele abrisse aquela porta e me encarasse de novo, eu não teria forças para manter qualquer discurso de raiva.
Porque, apesar de tudo, eu o amo.
E, mesmo quando ele tenta me afastar, cada olhar dele só me puxa ainda mais para perto.
O pior era saber que ele tinha mentido para mim. Naquele dia, depois que deixei escapar meus sentimentos, ele me olhou nos olhos e disse que não sentia nada. Disse com tanta frieza que, por um momento, acreditei. Mas depois, quando fiquei sozinha, comecei a repassar cada detalhe de nossos encontros anteriores, cada olhar que durava um segundo a mais, cada suspiro preso entre uma palavra e outra, cada vez que ele parecia lutar contra algo invisível. Era impossível que ele não sentisse nada.
Eu podia sentir isso no ar, na energia que existia quando estávamos próximos.
Me senti uma tola por confessar, mas ainda mais tola por querer acreditar que talvez houvesse uma chance. Desde então, evitei sair de casa nos horários em que sabia que ele poderia estar passando.
Evitava o elevador quando ouvia seus passos no hall. Me escondia. Mas, ao mesmo tempo, ansiava por um vislumbre dele, mesmo que de longe. Um castigo que eu mesma me impunha.
Era um ciclo doentio. Pensava nele ao acordar, pensava nele antes de dormir. Tentava preencher meus dias com trabalho, com tarefas, com qualquer coisa que me distraísse, mas bastava uma lembrança mínima, um cheiro que me remetesse a ele – o perfume discreto que ele sempre usava, amadeirado, quase imperceptível – e pronto, eu me perdia novamente.
Às vezes me perguntava se ele também pensava em mim. Se também estava travando uma batalha interna. Se também sentia essa falta absurda. Mas então lembrava da expressão dele quando me negou, da firmeza nas palavras, e me castigava mentalmente por ainda ter esperança.
No fundo, eu sabia que nossa história não tinha como acontecer. Ele era – ou havia sido – um homem dedicado a Deus, alguém que tinha feito votos de castidade, alguém que jamais admitiria para si mesmo sentimentos como os que eu nutria. E eu? Eu era apenas uma mulher comum, falha, com cicatrizes na alma e um coração que insistia em bater na direção errada.
Às vezes penso que tudo seria mais fácil se eu conseguisse odiá-lo. Se eu pudesse lembrar apenas da dor que ele me causou com aquela negativa fria, ignorando todo o calor que eu sentia quando ele me olhava. Mas não. Meu coração parecia não saber escolher o caminho mais fácil.
Então, vivo assim: prisioneira de uma confissão que me persegue, de um amor impossível que consome cada parte de mim. Esperando, talvez, que o tempo tenha piedade e apague aos poucos esse sentimento que parece maior do que eu.