Renato narrando.
-Eu não posso continuar. Não posso… porque eu te amo, Giulia. Sempre te amei. E nunca deixei de amar.
As palavras saíram da minha boca como uma explosão. Era impossível contê-las, como se estivessem presas há anos, esperando o momento de arrebentar as correntes. No instante em que ecoaram pela nave da igreja, senti o peso da batina desaparecer e a máscara do celebrante ruir. Eu não era mais o padre no altar. Eu era apenas Renato, um homem que amava desesperadamente a mulher diante de mim.
Um silêncio sufocante tomou conta do espaço. O ar parecia pesado, denso, como se ninguém tivesse coragem de respirar. As centenas de olhos fixaram-se em mim e em Giulia, e por um instante, apenas nossos corações batiam dentro daquela redoma invisível.
Gabriel, atônito, deu um passo à frente. Seus olhos, que momentos antes brilhavam de esperança, agora escureciam em dúvida e fúria.
- Como é que é? — ele sussurrou, mas sua voz ecoou pelo microfone preso à lapela.
Giulia tremia. Seus lábios se entreabriram, e lágrimas marejaram seus olhos. Ela tentou falar, mas a voz não vinha. O silêncio dela era tão alto que feria.
Eu avancei um passo, como se o altar fosse pequeno demais para suportar a verdade.
- Eu a amo. — Repeti, firme, sem recuar. — Sempre amei. Nunca deixei de amar.
Um burburinho percorreu a igreja como fogo em palha seca. Pessoas se levantavam dos bancos, algumas chocadas, outras indignadas. Celulares se erguiam no ar. Filmagens e fotos disparadas em segundos.
E então veio a confissão que incendiou tudo.
- Renato… — a voz de Giulia, embargada, finalmente rompeu. — Eu também te amo.
Um grito coletivo tomou o espaço. Senhoras taparam os olhos, outras se benzeram. Jovens riam nervosos, comentando entre si. Pais cobriam os ouvidos dos filhos, como se presenciassem um sacrilégio.
Foi a gota para Gabriel. Ele partiu para cima de mim com uma fúria animalesca. O impacto do soco estourou no meu rosto, forte e preciso, derrubando-me contra o altar. O sabor metálico do sangue inundou minha boca.
- Maldito! — ele rugia, a voz destroçada pelo ódio. — Você destruiu tudo!
Eu me ergui devagar, o rosto latejando, mas meu olhar não se desviou de Giulia. Ela correu até mim, ignorando o noivo, ignorando os olhares, ignorando a própria razão.
- Gabriel… — ela chorava, a mão trêmula no ar — me perdoa. Mas não posso negar. Eu amo o Renato.
Gabriel cambaleou para trás, como se tivesse levado uma punhalada. Sua expressão foi de incredulidade, depois se torceu em algo sombrio.
- Vocês vão pagar. — Ele cuspiu cada palavra como veneno. — Podem fugir agora, mas eu juro que vou me vingar.
Eu estendi a mão para Giulia. Ela a segurou com força, e naquele toque não havia dúvida: nós dois escolhemos. Corremos juntos pelo corredor central. Os convidados se afastavam, uns tentando segurar Gabriel, outros filmando com celulares em êxtase.
A porta da igreja se abriu em estrondo. Do lado de fora, a multidão já se aglomerava. Jornalistas, fotógrafos e curiosos disputavam espaço. Quando nos viram sair de mãos dadas, o caos se transformou em espetáculo.
- Padre foge com a noiva! — alguém gritou.
Flashes dispararam como tiros. Microfones surgiram diante de nós. Perguntas se sobrepunham em um coro ensurdecedor.
- É verdade que abandonou o sacerdócio por ela?
- O senhor ainda é padre?
- Giulia, por que enganou Gabriel?
- Isso é adultério?
Eu puxei Giulia para dentro de um carro estacionado na lateral. Meu coração pulsava tão rápido que parecia querer explodir. Entrei no banco do motorista e arranquei, deixando para trás o eco de vozes, câmeras e o caos absoluto.
No silêncio do carro, apenas nossos suspiros ofegantes se misturavam. Giulia chorava, mas segurava minha mão como quem segura a vida.
- O que fizemos, Renato? — ela sussurrou.
Olhei para ela, a luz do sol atravessando o véu desarrumado, revelando sua pele molhada de lágrimas. E mesmo naquele estado, ela era a coisa mais linda que meus olhos já viram.
- Fizemos o que sempre foi inevitável. — respondi. — Escolhemos o amor.
Ela fechou os olhos, encostando a cabeça no banco, deixando as lágrimas escorrerem livres.
Horas depois, a notícia já estava em todos os canais. Manchetes invadiam as televisões:
“Padre interrompe casamento e foge com a noiva.”
“Escândalo em altar: amor proibido choca fiéis.”
“Noivo traído promete vingança após fuga cinematográfica.”
Vídeos do momento da confissão viralizaram nas redes sociais. A cena do soco de Gabriel foi repetida incontáveis vezes, com comentários inflamados. Uns nos chamavam de corajosos, outros de pecadores. Memes surgiram. Hashtags explodiram.
Na TV, âncoras debatiam se eu ainda era padre, se havia quebrado votos sagrados, se Giulia poderia ser processada por abandono de contrato matrimonial. Juristas discutiam em mesas redondas, psicólogos opinavam sobre paixões proibidas. A história se transformara em espetáculo nacional.
A família de Giulia apareceu diante das câmeras, chocada, dividida entre vergonha e compaixão. Alguns parentes me acusaram de manipulá-la, outros diziam que ela sempre teve esse olhar distante, como se pertencesse a alguém que não era Gabriel.
E Gabriel… o noivo humilhado, o homem traído diante de toda a sociedade, fez questão de dar entrevistas. Com o rosto ainda marcado pela raiva, prometeu vingança.
-Eu vou expor quem eles realmente são. — dizia, a voz carregada de rancor. — Isso não vai ficar impune.
As redes se inflamavam a cada palavra dele. Fãs criavam times: #TeamRenatoEGiulia contra #JustiçaPorGabriel. O país inteiro parecia se dividir diante da nossa história.
Sentia o medo e a angústia, mas tinha a certeza que tudo passaria, pois estava ao lado dela. O seu olhar vibrante, com as cores do oceano me davam forças para seguir em frente. Eu enfrentaria o mundo se fosse preciso, somente por tê-la ao meu lado. Eu só precisava dela. Serei o seu porto seguro, o seu suporte. Sinto que criei uma dependência emocional gigante e que não consigo mais viver sem a Giu.