Giulia narrando.
O dia da noiva começou cedo, antes mesmo do sol se elevar sobre a cidade. Eu acordei com o coração acelerado, a cabeça cheia de pensamentos que me impediam de aproveitar qualquer silêncio. A cama parecia pesada demais, como se cada decisão que tomaria hoje estivesse afundando meus ombros no colchão. Respirei fundo e tentei lembrar que, afinal, era meu grande dia — o dia que eu havia decidido seguir em frente. Mas, por mais que tentasse, não conseguia afastar os fantasmas do passado, nem as lembranças do que Renato representara em minha vida.
Minha mãe e minhas amigas chegaram logo cedo, trazendo sorrisos e conselhos, tentando me arrancar do mar de nervosismo em que eu estava afundada. A estilista me conduziu para a sala de prova, onde o vestido branco esperava pacientemente. Ele era mais que tecido; era a promessa de um futuro que eu sabia que deveria abraçar, mesmo que meu coração tremesse. Enquanto as mãos habilidosas da estilista ajustavam cada detalhe, pensei em Renato.
Lembrei do calor de seus toques, da intensidade de seus olhares e de como eu havia me perdido em nós duas vezes, em momentos que deveriam ter sido impossíveis. Fechei os olhos por um instante, respirando fundo, tentando não chorar diante do espelho.
-Você está linda, Giulia — disse minha amiga, com um sorriso tímido, percebendo meu nervosismo.
- Obrigada… — murmurei, a voz quase falhando. — Mas não consigo parar de pensar…
-Sobre ele? — perguntou, compreendendo de imediato.
-Sim… mas preciso seguir em frente — respondi, tentando soar firme, mas sentindo uma pontada de dor no peito.
O resto da manhã passou em borrões de risadas, maquiagem, cabelo e pequenos ajustes no vestido. Cada detalhe me lembrava que hoje eu deixaria para trás uma parte de mim que ainda pertencia a Renato. Mas eu tinha que ser forte. Gabriel confiava em mim, me amava de uma forma que eu sabia ser verdadeira e pura, e eu não podia desperdiçar isso.
Chegou a hora de sair para a igreja. Meu coração disparou ao entrar no carro, e uma sensação estranha de antecipação se misturava ao medo.
Vi o Gabriel me esperando no altar e senti uma maré de medo e confusão. Era nítida a sua emoção ao me ver, ele estava muito emocionado e eu me esforcei para dar um sorriso na sua direção.
Renato estava lá, vestido com a batina de sempre, imponente como sempre, e com a expressão serena que eu tanto conhecia. Meu coração parou. A batina não podia ser apenas batina; os olhos dele não podiam ser aqueles que tanto conheci. Ele estava ali para celebrar meu casamento. Gabriel, sem saber de nada, havia escolhido Renato como celebrante. E eu não tinha ideia.
Minhas pernas tremeram, e eu segurei o buquê com força, tentando me manter firme. Ele olhou para mim por um instante, e eu senti cada memória que havíamos compartilhado atravessando meu peito. Senti o calor que ainda existia entre nós, mesmo com todos esses meses de distância.
-Respire, Giulia — murmurei para mim mesma, tentando controlar a ansiedade.
-Você vai conseguir — disse uma amiga, segurando meu braço com delicadeza.
O cortejo começou, e eu caminhei lentamente pelo corredor, tentando manter a compostura. Cada passo parecia ecoar na minha mente como um tambor de guerra. Gabriel estava lá, ao meu lado, e eu via a alegria em seus olhos, sem saber que dentro de mim havia uma tempestade prestes a explodir.
Renato permaneceu no altar, firme, a expressão calma demais para o que eu sentia. Mas eu sabia que ele estava me observando. E eu sentia cada olhar como se fosse um toque, como se ele pudesse enxergar cada medo, cada culpa, cada desejo que eu carregava.
Quando chegamos ao altar, meu corpo tremia, mas tentei me firmar. Gabriel segurou minha mão, e por um instante senti a segurança que ele sempre me ofereceu. Mas então vi Renato me olhando mais de perto, e meu corpo estremeceu de novo. O silêncio na igreja era quase sufocante, preenchido apenas pelos passos suaves e pelo murmúrio de respiração de cada convidado.
A cerimônia começou, e eu tentei me concentrar nas palavras. Mas cada frase sobre amor e fidelidade soava como uma ironia c***l.
Meu coração gritava por Renato, mas meus lábios sorriam para Gabriel. Cada palavra que Renato proferia parecia perfurar meu peito, e eu sentia o calor das lágrimas querendo escapar.
Quando chegou o momento dos votos, meu corpo inteiro se contraiu. Renato abriu o livro, e eu vi suas mãos trêmulas. A voz dele começou firme, mas a cada palavra, a tensão aumentava, até que não conseguiu mais controlar o que sentia.
-Eu… — começou ele, engasgando, a voz quebrando — Eu não posso…
Meu coração disparou, e todos os olhares se voltaram para ele. Gabriel piscou, confuso, e eu apenas o encarei, sentindo o mundo desabar.
Renato começou a chorar, lágrimas escorrendo pelo rosto, a batina não escondia mais nada. Ele se virou levemente para mim, e naquele instante, toda a dor, toda a intensidade dos meses passados explodiu na igreja.
-Giulia… — disse, a voz trêmula e rouca — Eu… eu te amo. Não posso realizar este casamento. Eu… eu não consigo ver você casar com outro. Não depois de tudo que… que passamos.
O silêncio que se seguiu era absoluto. Alguns convidados se moveram, chocados; outros mantiveram os olhos fixos, sem entender completamente. Gabriel ficou imóvel, a expressão confusa, sem palavras para reagir.
Eu senti meu coração apertar. Cada sílaba que saía da boca dele me atravessava como lâminas. Ele chorava copiosamente, mas havia algo mais profundo ali: arrependimento, dor, desejo e amor cru, não filtrado por qualquer convenção.
-Eu… — continuou Renato, respirando com dificuldade — Eu não consigo. Eu te amo, Giulia. Amo você mais do que qualquer coisa. E ver você se entregar a outro… eu… eu não posso suportar.
Meu corpo inteiro estremeceu. Eu queria correr para ele, segurá-lo, dizer que tudo bem, que talvez pudéssemos encontrar um jeito, mas ao mesmo tempo sabia que era tarde demais. Gabriel estava lá, e a situação era impossível de ignorar.
A igreja estava em silêncio absoluto, apenas o choro dele ecoando, e eu não conseguia mover-me. Minhas mãos tremiam, segurando o buquê, e meus olhos não podiam deixar de encontrar os dele. Cada lágrima, cada palavra, cada respiração pesada dele parecia arrancar minha alma do corpo.
O surto de Renato atingiu seu ápice. Ele se apoiou no altar, tentando recompor a voz, mas sem sucesso. O amor que ele confessava não era apenas uma emoção; era um peso físico, visível, quase palpável. Eu sentia cada fragmento de dor que ele carregava, e minha própria culpa se multiplicava, pois apesar do amor que sentia por Gabriel, meu coração ainda batia por ele.
Ele respirou fundo, olhou para todos, e então disse, em voz alta, firme apesar do choro:
-Eu não posso casar ninguém hoje. Não posso. Eu… eu amo a noiva. Amo a Giulia.
Um silêncio mortal caiu sobre a igreja. Os convidados se entreolharam, Gabriel estava paralisado, e eu senti meu coração explodir de emoções conflitantes: medo, desejo, culpa, e uma sensação estranha de alívio por finalmente ouvir a verdade que ele carregava.