Renato narrando..
Foram semanas de silêncio. Meses em que tentei, de todas as formas, matar dentro de mim aquilo que queimava como fogo proibido. Dobrei os joelhos tantas vezes diante do crucifixo que perdi a conta. Pedi perdão, clamei por força, tentei me convencer de que tudo não passava de uma tentação passageira.
A verdade, porém, nunca deixou de me esmagar: eu amava Giulia.
E amar Giulia era a minha maior condenação.
Os dias se arrastavam, todos iguais, e mesmo assim cada um parecia carregar um peso novo. Evitava os corredores do prédio, os horários de movimento no andar, qualquer possibilidade de encontrá-la. Mas não evitava os pensamentos. Eles vinham de madrugada, vinham no silêncio da missa, vinham até mesmo quando eu tentava mergulhar nas leituras sagradas. Era inútil lutar contra uma lembrança que tinha se gravado no meu corpo como cicatriz.
E então o tempo passou. Meses. Eu havia aprendido a sobreviver com a ausência, a respirar mesmo com o peito apertado. Até que chegou o convite para celebrar mais um casamento.
Eu sempre gostei desse tipo de cerimônia. Era o momento em que duas almas se uniam diante de Deus, e eu tinha orgulho de ser instrumento desse elo. Preparava-me com zelo: revia cada passo da celebração, cuidava das palavras, ajustava os detalhes. Naquela manhã, não foi diferente.
Coloquei a batina com calma, arrumei o cabelo diante do espelho e respirei fundo. Um casamento como tantos outros, pensei.
Apenas mais um casal que começaria sua vida juntos.
Até que abri o registro dos noivos.
Meus olhos percorreram as linhas com distração, até que congelaram no nome dela.
Giulia.
Meu coração disparou tão forte que senti como se fosse romper minhas costelas. Pisquei várias vezes, tentando me convencer de que era apenas uma coincidência, alguém com o mesmo nome. Mas não havia como negar. Era ela. Minha Giulia. A mulher que ainda queimava em cada parte de mim. A mulher que eu havia amado em silêncio e pecado em segredo.
E agora, ali, diante de mim, em letras frias, estava escrito que ela se casaria.
Com outro homem.
Minha visão embaçou de imediato. As lágrimas vieram sem que eu pudesse impedir. Fechei o livro com força, pressionei os olhos e deixei que as lágrimas corressem. Nunca, em todos aqueles meses, eu havia chorado com tanto desespero. O chão parecia fugir dos meus pés, como se tudo o que me sustentava tivesse sido arrancado de uma vez.
Sentei-me na cadeira do sacristão, apoiei a cabeça nas mãos e chorei como uma criança. Era injusto. Era sufocante. O amor da minha vida caminharia até o altar, mas não para mim. Eu teria que ser a voz que abençoaria a entrega dela a outro homem.
Senti vontade de gritar, de fugir dali, de desaparecer. Mas eu era padre. Eu tinha um dever. E, mesmo quebrado, eu precisava cumprir.
Limpei o rosto às pressas quando fui chamado para iniciar a celebração. As mãos ainda tremiam, e percebi que estava com os olhos vermelhos. Respirei fundo, ergui o rosto e vesti a máscara de serenidade que tantas vezes usei.
A música começou, suave, preenchendo a igreja. Os convidados se levantaram. Meu coração martelava com uma força insuportável.
E então ela surgiu.
Giulia.
Radiante, vestida de branco, cada passo dela era uma punhalada em mim. Ela estava linda, tão linda que doía olhar. O sorriso tímido, os olhos marejados, a forma como segurava o buquê… cada detalhe era um lembrete c***l do que eu havia perdido.
E ali estava Gabriel ao seu lado, esperando por ela com um olhar apaixonado. Debulhando-se em lágrimas, era nítido o quanto aquele homem a amava. Seu amor transparecia em seus olhos.
Eu quis odiá-lo. Quis culpá-lo por ter roubado o lugar que eu nunca pude ocupar. Mas não havia culpa. Ele apenas a amava. Talvez até mais do que eu deveria amar.
O cortejo terminou, os convidados se acomodaram e a cerimônia começou. Minha voz ecoava pelo microfone, firme, mas cada palavra me destruía por dentro. Falava de amor, de fidelidade, de entrega, e sentia que cada frase me queimava como ferro em brasa.
Meus olhos fugiam, mas sempre voltavam para ela. Giulia evitava me encarar, mas uma ou duas vezes nossos olhares se encontraram.
E eu vi.
Vi a dor que ela escondia por trás daquele sorriso.
Ela não o amava. Isso estava claro como a água. O olhar dela de encontro o meu era como um encontro de almas. Um misto de desespero e desistência. Desistência do nosso amor impossível, aceitando um amor morno e confortável.
Segui a celebração com dificuldade. O tempo parecia não passar. Eu me agarrava às orações, às repetições ensaiadas, como se fossem muletas para me manter de pé. Até que chegou o momento dos votos.
O silêncio na igreja era absoluto. Todos esperavam por aquele instante. Eu abri o livro, minhas mãos tremendo, e comecei a ler.
– Em nome de Deus, que testemunha este amor, estamos aqui reunidos para celebrar...
Minha voz falhou. Engasguei nas palavras.
Senti o peito explodir, como se todo o peso daqueles meses tivesse se acumulado para me esmagar naquele segundo. O rosto de Giulia diante de mim, prestes a jurar amor eterno a outro homem, era insuportável.
As lágrimas que eu havia contido voltaram com força. Minha visão se turvou, e eu m*l conseguia enxergar as letras.
– Eu... – tentei continuar, mas minha garganta se fechou.
Um murmúrio percorreu a igreja. Os convidados se entreolhavam, confusos.
Larguei o livro sobre o altar, levei a mão ao rosto e desabei em lágrimas, diante de todos. Não consegui mais conter. O choro era alto, convulsivo, como se minha alma estivesse sendo arrancada.
– Eu não posso... – soltei, a voz quebrada.
Um silêncio tenso tomou conta do ambiente. Os noivos, os padrinhos, todos me olhavam sem entender.
E foi nesse instante, no exato momento em que estava prestes a revelar o motivo do meu surto, que tudo parou.
O mundo inteiro pareceu suspenso, à espera da minha próxima palavra.