O vinho, as lágrimas e a decisão

1350 Palavras
Giulia narrando. Assenti, engolindo em seco. Era difícil conter a mistura de emoção, ansiedade e medo que me inundava. Olhei para meu reflexo, e, pela primeira vez, tentei aceitar que eu estava realmente me tornando uma noiva. Não havia Gabriel ali para me admirar, para sorrir ou me confortar. Havia apenas eu e minha própria imagem, e, mesmo assim, senti que estava começando a me aceitar nesse papel. -Giulia, você está perfeita – disse a estilista, ajustando o véu uma última vez. -Lembre-se: você vai ser incrível no seu grande dia. - Ela me disse de uma maneira acolhedora e encorajadora, que me fez sentir confiante. Sorri timidamente, sentindo um calor misturado à ansiedade. Havia algo de quase mágico naquele momento: a solidão de provar o vestido me obrigava a encarar minhas próprias emoções, minhas inseguranças e meus medos, mas também me dava a chance de me conectar com meu próprio coração, com a noiva que eu estava me tornando. Saí da sala respirando fundo, com o coração ainda acelerado, mas com uma sensação de leveza. Apesar de não haver ninguém ali para me ver, apesar do medo e da dúvida, eu finalmente comecei a sentir que podia enfrentar o grande dia. Que podia me tornar a esposa de Gabriel, mesmo que ainda carregasse cicatrizes do passado e inseguranças sobre meu próprio coração. E, naquele momento, prometi a mim mesma que faria o possível para corresponder ao amor dele, que, mesmo sem vê-lo ao meu lado naquele instante, me guiava, silencioso e constante, em cada passo que eu dava rumo ao nosso futuro juntos. Voltar para casa depois daquele dia parecia mais difícil do que eu imaginava. Carregava comigo não só as sacolas e o peso da prova do vestido, das palavras das minhas amigas e da presença tranquila de Gabriel, mas também algo invisível, sufocante, que se prendia dentro do meu peito. A porta do meu apartamento se fechou atrás de mim com um clique seco, e foi como se o mundo inteiro tivesse ficado do lado de fora, mas dentro de mim o barulho não cessava. Larguei as chaves sobre o aparador, tirei os sapatos com pressa e caminhei até a cozinha quase sem pensar. Abri o armário, tirei uma taça de vidro e, sem hesitar, alcancei a garrafa de vinho que descansava na prateleira. Não era um vinho especial, mas bastava. Eu precisava de algo que aquecesse minha garganta e, talvez, silenciasse os gritos que ecoavam dentro de mim. Enquanto o líquido rubro preenchia a taça, senti minhas mãos trêmulas. Meus dedos não obedeciam direito, e só percebi que estava nervosa quando algumas gotas escorreram pelo gargalo da garrafa. Suspirei fundo, levei a taça à boca e bebi como quem busca um antídoto. O gosto forte, adocicado e amargo ao mesmo tempo, queimou a língua e desceu pela garganta, arranhando um caminho até o estômago. Afundei no sofá com a taça na mão. O apartamento estava silencioso, iluminado apenas pela luz baixa do abajur ao lado. Olhei para a janela, para as luzes da cidade que piscavam distantes, e tudo parecia tão pequeno, tão fora de alcance. Bebi mais um gole e deixei o copo descansar sobre o peito, enquanto meus pensamentos corriam soltos, sem que eu tivesse força para impedi-los. E, claro, ele veio. Renato. Como sempre vinha. Fechei os olhos e era como se eu ainda sentisse o toque dele, a força de suas mãos explorando minha pele, o calor de sua respiração no meu pescoço. Lembrei de cada detalhe: a forma como seus olhos ardiam nos meus, como se ele pudesse me despir só de me olhar; o peso do seu corpo contra o meu, e o quanto eu tremi ao perceber o quanto o desejava. Meus lábios ainda guardavam o gosto do beijo que nunca deveria ter existido. E, ao mesmo tempo, era o beijo que mais me definia, que mais me fez sentir viva. Bebi de novo, rápido demais, como se o vinho pudesse apagar a memória. Mas nada apagava. Pelo contrário: quanto mais eu bebia, mais ele voltava. Senti as lágrimas queimando os olhos. Primeiro tímidas, depois mais fortes, até que escorreram pelo meu rosto sem pedir licença. Coloquei a taça na mesinha de centro e levei as duas mãos ao rosto, escondendo meu choro. Era injusto. Com Gabriel, principalmente. Ele estava ali, inteiro, disposto a me amar, a construir uma vida comigo, a me dar estabilidade, carinho, uma casa, talvez filhos. Ele não cobrava, não pressionava, me respeitava em cada limite. E ainda assim, por mais que eu tentasse, eu não conseguia sentir por ele o que sentia por Renato. Era como se meu corpo tivesse sido marcado. Como se Renato tivesse entrado em cada parte de mim, e agora eu não conseguisse mais expulsá-lo. Me levantei, já meio tonta pelo vinho, e fui até a janela. Apoiei as mãos no vidro gelado e olhei para baixo. O estacionamento do prédio estava quase vazio, e por um instante imaginei como seria se eu o visse ali. Se Renato estivesse voltando para casa, se cruzássemos os olhares sem querer. Minha respiração falhou. Ainda morávamos no mesmo prédio, no mesmo andar. Era como viver lado a lado com o meu próprio tormento. Um soluço escapou da minha garganta. Por que, meu Deus? Por que ele? Por que justo um padre? Por que alguém tão proibido, tão impossível? Era como se a vida tivesse me dado a chance de provar algo intenso, mas tivesse arrancado de mim a possibilidade de viver aquilo em plenitude. Voltei ao sofá, servi mais vinho e deixei a garrafa ao meu lado. Bebi como quem busca coragem, mas só encontrei mais dor. Deitei, abraçando a almofada como se ela fosse um corpo, como se pudesse me consolar. Fechei os olhos e imaginei o rosto de Renato, seus traços sérios, sua boca que dizia não mas que, no fundo, me desejava tanto quanto eu o desejava. A confusão dentro de mim era tão grande que parecia que meu coração ia explodir. Eu amava? Sim. Amava Renato de uma forma que nunca tinha amado ninguém. Mas era um amor que não podia existir. E, por mais que doesse, eu sabia que precisava aceitar isso. Lembrei de Gabriel. Do sorriso dele, da maneira como segurava minha mão em público, da paciência que tinha comigo. Lembrei de como ele falava do futuro, com brilho nos olhos, como se eu fosse o centro de tudo o que ele sonhava. Lembrei da mansão que ele já buscava, do pedido de casamento tão cheio de emoção, da promessa de um amor seguro. Um amor morno, mas seguro. As lágrimas voltaram, mais fortes. Porque eu sabia que estava prestes a dizer sim para um homem que eu respeitava e gostava, mas não amava da mesma maneira. E, mesmo assim, era esse sim que eu precisava dar. De repente, a garrafa já estava pela metade. Eu m*l percebi. Meu corpo estava quente, minhas bochechas ardiam. Passei as mãos pelo rosto molhado e respirei fundo. Eu precisava escolher. Precisava parar de me torturar. E foi ali, sozinha no meu apartamento, com a taça ainda pela metade e a cabeça girando de tanto chorar e beber, que eu decidi. Eu ia seguir em frente. Ia me casar com Gabriel. Ia construir com ele a vida que eu tanto desejava ter, mesmo que parte de mim nunca fosse dele. Renato ficaria no passado, na memória proibida que eu carregaria para sempre, mas que precisava ser enterrada. Eu não podia mais me permitir viver nesse limbo, entre o que eu queria e o que eu podia. Fechei os olhos, encostada no sofá, e deixei o choro vir mais uma vez. Um choro pesado, de despedida, como se eu estivesse enterrando uma parte de mim mesma. Depois de um tempo, o cansaço venceu. Deixei a taça na mesinha, estiquei o corpo no sofá e, sem perceber, adormeci. A garrafa de vinho ficou ali, testemunha muda da minha decisão, enquanto minha mente, mesmo em sonho, repetia uma frase como um mantra: Eu vou me casar. Eu vou seguir em frente. Mesmo que doa.
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