Dona Suzana, com um olhar ameaçador, Disse: — Você só deve estar fora de si! — Ao sair do quarto dos empregados onde eu estava, ela me lançou um último olhar penetrante. — Isso não vai ficar assim.
Um arrepio percorreu minha espinha ao ouvir suas palavras. Conhecia bem a natureza dela, sabia do que era capaz quando se sentia ameaçada. O medo se misturou à indignação dentro de mim. Eu estava cercada por um labirinto de manipulações e crueldadës, sem saber como escapar daquela armadilha que se forma na minha vida.
— Fique longe da minha mãe, ou você vai sofrer as consequências — Kevin disse, sua voz fria e ameaçadora antes de se retirar do quarto.
Logo em seguida, tia Ester entrou, seus olhos cheios de compaixão e preocupação.
— Minha menina, como você está se sentindo? — Ela perguntou, com a voz suave.
— Tia, diga que isso é um pesadelo! — Eu desabafei, com as lágrimas voltando com força. — Por que eu tive que passar por tudo isso? — Por que eu vim para este mundo? — Fui abandonada pelos meus pais e entregue a uma família maldita, cujo meu pior pesadelo destruiu minha vida e, ainda por cima, me engravidou! — As palavras saíram em um pranto desesperado.
— Calma, meu amor, — Tia Ester tentou me consolar. — Tudo vai se resolver quando você olhar o rostinho do seu bebê.
Interrompi, a angústia me consumindo. — Eu vou lembrar de tudo o que passei, tia. Eu não quero esse bebê. — Isso é pecado?
— Não diga isso, meu amor, — Ela implorou, segurando minhas mãos. — Essa criança não tem culpa do que aconteceu.
Os dias se arrastaram em um tormento sem fim. Eu não aguentava mais olhar para minha barriga, que já começava a ganhar forma. Minha vida havia se tornado um infernö. Dona Suzana dificultava minha vida ao máximo, assim como todos os outros na casa. E agora, até a mulher com quem Kevin iria se casar vinha para me humilhar.
Estava organizando a cozinha, aproveitando que todos tinham saído. Para mim, era um alívio momentâneo, um respiro longe das humilhações constantes. Tia Ester não estava se sentindo bem hoje, e eu me vi sozinha, buscando um pouco de paz em meio ao caos. Mas a tranquilidade foi breve, pois Soraia apareceu, acompanhada de Dona Suzana.
O coração disparou, e uma sensação estranha tomou conta de mim. — Comemorei cedo demais, — Pensei. Antes que eu pudesse reagir, Soraia me puxou violentamente pelo braço. O impacto foi brutäl, bati a minha barriga na quina da mesa e uma dor surreal invadiu meu corpo. Instintivamente, levei a mão à minha barriga, que parecia estar se abrindo.
Nem tive tempo de reagir quando um tapa forte atingiu meu rosto, fazendo com que o sangue escorresse pela minha boca.
— O Kevin é meu! Sua vagabundä! Sua imundä! — Soraia gritou, com uma fúriä evidente: — Vou mandar você e esse bastardo pro infernö! — As palavras dela cortaram o ar, revelando que Dona Suzana provavelmente havia contado a ela sobre minha gravidez.
E então, o pesadelo se transformou em realidade. O espancamento começou, e eu fui inundada por uma dor insuportável. Eram muitos pontapés, principalmente direcionados à minha barriga e abdômen. Cada golpe era como facas sendo cravadas em meu corpo e na minha alma. Senti que Soraia e Dona Suzana não tinham piedade, elas estavam possuídas por uma fúriä cega, como se quisessem extrair toda a raiva acumulada em mim.
Eu nunca quis Kevin, pelo contrário, ele havia abusado de mim, de várias maneiras que eu ainda não conseguia nem falar. Era como se todo o sofrimento que eu tivesse suportado ao longo dos anos estivesse se condensando naquele momento brutäl. Ninguém fez nada para me proteger, ninguém se importou com a dor que eu sentia. Agora, diante daquela ira desenfreada, eu era apenas um alvo.
A dor se intensificava a cada golpe, até que tudo começou a ficar embaçado. As vozes ao meu redor se tornaram distantes. A escuridão me envolveu lentamente, era como se o mundo ao meu redor estivesse desaparecendo, levando com ele toda a dor e o sofrimento.
E depois disso tudo, apagou.
Aos poucos, a consciência retorna. Estou deitada em uma cama, e sinto a frieza de uma compressa em minha testa, aliviando a febre que me consome. Ao abrir os olhos, o cenário me atinge como um golpe: Dona Suzana está ali, um médico ao lado, e Kevin? — Pera, Kevin não estava viajando?
Nesse momento, pouco me importa a sua ausência ou retorno. O médico fala, sua voz carregada de pesar: — Senhorita, você terá que ficar de repouso. Infelizmente, você perdeu o bebê.
Olho para Dona Suzana, que exibe um sorriso vitorioso e cruël. Kevin, por outro lado, me encara com um ódio visível. Tia Ester, em meio a tudo isso, me olha com uma compaixão que é meu único refúgio.
De repente, Kevin explode em fúria: — Por que você fez isso? — Por que matou meu filho?
Tento articular uma resposta, mas a dor me sufoca, porém Dona Suzana fala rapidamente. — Ela não pode se estressar! — Diz, puxando Kevin para fora do quarto, deixando para trás um rastro de acusação.
— Tia, a senhora viu? — Pergunto, a voz embargada, buscando confirmação no olhar da tia Ester.
Ela aperta minha mão com ternura. — Sim, filha. Ela está agindo como se você tivesse provocado tudo isso, mas sua barriga está toda marcada. São vários hematomas. Eu cheguei no momento em que elas ainda estavam batendo em você, e Carlos, o segurança, veio me chamar.
Um medo gelado me percorre. — Ele vai acreditar nela, tia?
— Calma, minha menina. Tudo vai se resolver, — Ela sussurra, um fio de esperança em sua voz.
Minutos depois, De repente, a porta do quarto se abre com violência, e a gritaria retorna. Kevin entra, em seu rosto, uma fúriä, ele estava completamente transtornado. Sem hesitar, ele avança sobre mim, com agressividade.
Ele me atinge com força, me bate com tanta força, me arranca da cama de uma forma brutäl. Sinto como se eu não pesasse nada em suas mãos, meu corpo é arremessado com uma violênciä na parede, minha cabeça batendo com força no chão. As palavras dele se misturam aos golpes, um turbilhão de acusações e insultos: — Sua vagabundä! — Você provocou isso! — Você matou meu filho!
Em meio à dor que me cega, flashes de memória surgem: — A voz de tia Ester, desesperada, gritando que a verdadeira culpada pela perda do meu bebê era a mãe dele, a Soraia. — Mas a clareza se esvai tão rápido quanto veio.
A última imagem nítida em minha mente é o rosto de Kevin, um borrão de ódio e desespero. E então, a escuridão me engole mais uma vez. — Apago de vez, levada pela brutalidadë e pela dor avassaladora.