Capítulo 03 - Caio

1056 Palavras
Meu parceiro Romário, morreu em um confronto, e eu fiquei responsável pelo morro, agora sou K2, o temido dono do morro. A vida que eu levo agora é marcada pela disciplina, ordem e pela força e acima de tudo respeito. Mas por dentro, eu ainda sou aquele Caio que sonha com algo melhor. Voltando de uma missão, fui fazer a escolta de uma carga importante. Na volta, algo me fez parar: Avistei uma mina jogada no acostamento. A princípio, pensei em deixá-la ali. Não era minha responsabilidade, mas algo dentro de mim, me incomodou, até porque esse fato estava acontecendo na minha quebrada. Parei o carro e fui ver do que se tratava. A cena era brutäl: a garota estava desacordada, com várias marcas pelo corpo e um corte profundo na cabeça. — Ela tinha sido espancada, e não podia simplesmente deixá-la ali. Até porque a ordem é proteger os menos favorecidos, sendo eles: crianças, mulheres e idosos. Assim que toquei nela, um arrepio percorreu meu corpo. Era como se uma corrente elétrica tivesse me atravessado. Quando o rosto dela virou, fui pego de surpresa pela beleza que emanava dela, mesmo em meio àquelas feridas. — Quem será que foi capaz de fazer isso com ela? — Pergunta Neto, um dos meus homens de confiança, observando a cena com incredulidade. Eu me ajoelho ao lado do corpo, observando os detalhes. O choque inicial dá lugar a uma raiva fria que me consome. — Quem fez isso? — Por que jogaram o corpo da mina na minha quebrada? — E o principal: o que essa mina aprontou para que tal ato fosse cometido? — Digo em voz baixa, mais para mim mesmo do que para Neto, enquanto meus olhos vasculham cada centímetro daquele lugar, procurando por qualquer pista, qualquer detalhe que possa desvendar porque essa mina foi jogada aqui. Aquele corpo, jogado ali como um saco de lixo, era um insulto à minha quebrada, e eu faria de tudo para descobrir a verdade e fazer justiça, mas preciso levar ela pro hospital. Cheguei ao hospital onde meu amigo trabalha, carregando ela nos braços. Ele me olhou estranho assim que entrei. — Foi você que fez isso? — Perguntou ele, com desconfiança na voz. — Que isso, mano! — Você tá louco? — Eu ainda sou o mesmo Caio de antes! — Não é porque fui obrigado a entrar pra essa vida que vou fazer uma coisa dessas com uma mina! — Respirei fundo para me acalmar. — Encontrei ela desse jeito próximo entrar da Maré. E te digo mais: — Essa mina não tem cara de ser da favela, não, mano. As palavras que saíam da minha boca eram um misto de indignação e preocupação. Não sei o que ela fez, mas aquela garota não merecia o que tinha acontecido. O olhar do meu amigo ainda desconfiado começou a mudar, ele percebeu que eu não estava ali para causar mais dor. — Então você vai cuidar dela? — Ele perguntou, agora com uma pitada de curiosidade e preocupação. — Eu não sei... — Respondi hesitante. — Mas não posso abandonar como fizeram com ela. A decisão estava tomada, naquele momento, eu percebi que havia algo mais profundo despertando em mim. Não era apenas sobre ser o K2 ou manter o controle do morro, era descobrir o que aconteceu, e quem é essa mina. Carlos levou ela para fazer todos os exames possíveis, mas ela continuava desacordada. A situação era mais grave do que eu imaginava: costelas fraturadas, um coágulo na cabeça. Na moral, a mina passou por um verdadeiro infernö. Fizeram exames de tudo quanto é tipo, reviraram ela do avesso para descobrir o que tinha acontecido. E o Carlos voltou pra informar o que deu nos resultados e o que ele revelou me deixou completamente putö. Ele disse que ela provavelmente tinha sido espancadä por um homem, pelas quantidades de hematomas e pelas costelas fraturadas. A raiva fervia em mim. — Quem faria algo assim com uma mulher indefesa? — Ou com quem ela tinha mexido? — Será isso um acerto de contas? — Mas o pior ainda estava por vir. Ele continuou, com uma seriedade que me gelou a espinha: ela tinha vestígios de ter sofrido um abortö e que precisou passar por uma curetagem para retirar os restos do feto que ainda estavam presentes em seu útero. Um choque me atingiu. Essa mulher passou por uma violênciä brutä, uma perda devastadora. Eu não podia permitir que mais ninguém a machucasse. — Será que foi o companheiro que fez isso? — Eram varias perguntas que até então estava sem respostas. Olhei para o rosto dela, ainda pálido e sereno, mesmo sob o efeito do sono induzido. Uma pergunta ecoava em minha mente: — O que essa mulher fez para chegar a esse ponto? A fragilidade que emanava dela me tocava de uma forma inesperada, mas jogo esse sentimento para o lado. Depois de tudo resolvido com o Carlos, eu fui pra casa. Afinal, meu amorzinho estava me esperando — Eu tentava disfarçar a turbulência de emoções que sentia. — E a mina vai ficar na UTI por enquanto. Naquele momento, a preocupação com a vítima se misturava à saudade do meu amorzinho. A vida na quebrada exigia que eu fosse forte, que tomasse decisões rápidas e, muitas vezes, difíceis. Mas, mesmo com toda a dureza que o dia me impôs, saber que minha princesa me esperava em casa era o meu refúgio, o meu porto seguro, meu ponto de paz. E, quanto àquela mulher, eu sabia que precisava descobrir a verdade por trás do que aconteceu com ela. Se o moleque que fez isso com ela for do morro, pode ter certeza de que vai morrer — Afirmei, a raiva fervendo dentro de mim. — Mulher não merece ser espancada, a não ser que tenha feito algo realmente grave, mas mesmo assim, quem dá o corretivo é uma mulher. Não aceito esse ato no meu morro. A violência contra mulheres sempre foi um tabu para mim, algo que não poderia ser tolerado. O respeito às mulheres na quebrada era uma questão de honra, e eu não descansaria até que o responsável pagasse por seu ato covarde. Eu sabia que, se fosse necessário, mobilizaria todos os meus homens para garantir que essa situação não ficasse impune.
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