O restaurante estava banhado por luz âmbar, elegante e intimista. Lustres de cristal refletiam sobre mesas impecavelmente postas, enquanto conversas baixas se misturavam ao som suave de um piano ao fundo. O tipo de lugar onde alianças eram seladas com um aperto de mãos… ou destruídas com um simples olhar.
Helena sentiu todos os olhares quando entrou ao lado de Alexander. Ele não exagerava quando dizia que as pessoas precisavam vê-la ali.
A mão dele permanecia firme na base das costas dela, não invasiva, mas impossível de ignorar. O toque guiava, protegia… e marcava território.
— Sorria — ele murmurou discretamente, inclinado ao ouvido dela.
O hálito quente roçou sua pele e um arrepio percorreu sua coluna.
— Eu sei sorrir sozinha — ela respondeu, mantendo a expressão impecável.
— Sei que sabe. Mas quero que sorriam para você… e se perguntem quem é.
Ela virou o rosto ligeiramente.
— E quem eu sou?
Os olhos dele a percorreram com intensidade controlada.
— Alguém que muda o jogo.
Antes que ela pudesse responder, um homem de meia-idade se aproximou com uma taça em mãos.
— Alexander Wolf. Sempre um prazer.
Helena notou a mudança instantânea na postura dele. Ombros firmes. Expressão serena e controle absoluto.
— Igor Petrov — Alexander cumprimentou com cordialidade medida. — Permita-me apresentar Helena.
O olhar do homem deslizou por ela com curiosidade evidente.
— Uma nova parceira de negócios?
Helena sustentou o olhar sem hesitar.
— Algo assim.
Alexander não corrigiu.
Ao contrário, seus dedos pressionaram levemente as costas dela, como aprovação silenciosa.
Durante os minutos seguintes, Helena observou o jogo de palavras. Indiretas. Ameaças veladas. Promessas disfarçadas de elogios. E algo importante: ela percebeu que Alexander não estava apenas negociando, ele estava testando reações. E ela fazia parte da estratégia.
Quando finalmente se afastaram para a mesa reservada, Helena soltou o ar que nem sabia que estava segurando.
— Você me jogou numa arena sem aviso — ela comentou, sentando.
Alexander acomodou-se diante dela, os olhos atentos.
— E você não vacilou.
— Eu poderia ter cometido um erro.
— Não cometeu.
O garçom serviu vinho. O silêncio que se seguiu foi diferente do da biblioteca. Menos íntimo. Mais carregado de expectativa.
Helena levou a taça aos lábios, mas sentiu o olhar dele sobre si.
— O que foi? — perguntou.
— Você gosta de desafios.
— Gosto de não ser subestimada.
Um leve sorriso surgiu no canto da boca dele.
— Nunca subestimei você.
— Ainda não.
O jantar começou e outras conversas cruzadas surgiram. Outros empresários se aproximaram, algumas mulheres lançaram olhares curiosos, agumas avaliando, outras claramente incomodadas.
Helena notou.
Alexander também.
Em determinado momento, uma mulher loira, elegante e excessivamente confiante se aproximou da mesa.
— Alexander, quanto tempo.
Ela inclinou para beijar o rosto dele. Próxima demais.
Helena sentiu algo desconfortável apertar seu estômago.
Alexander cumprimentou com formalidade.
— Irina.
O nome saiu neutro. Sem calor.
— Você desapareceu — a mulher comentou, ignorando Helena por completo.
— Estive ocupado.
Irina finalmente voltou o olhar para Helena.
— E você é…?
Helena sustentou o sorriso.
— Helena.
Alexander respondeu antes que a mulher pudesse continuar:
— Ela está comigo.
Simples, direto e definitivo.
Irina arqueou levemente a sobrancelha.
— Vejo que seus interesses mudaram.
— Meus interesses evoluem — ele respondeu calmamente.
Helena quase riu.
Irina percebeu que não teria espaço ali. Despediu-se com elegância ensaiada e se afastou.
O silêncio que ficou na mesa era carregado.
Helena girou lentamente o vinho na taça.
— Interesse antigo? — perguntou, casual.
Alexander apoiou os cotovelos na mesa, inclinando-se levemente.
— Ciúme?
Ela ergueu o olhar.
— Curiosidade.
— Não há nada ali.
— Mas houve.
Ele não negou.
Helena sentiu a provocação subir pela pele.
— Você costuma misturar negócios com… distrações?
Os olhos dele escureceram levemente.
— Você está tentando me analisar ou me provocar?
— Talvez os dois.
O ar entre eles mudou.
Alexander estendeu a mão por cima da mesa e, sem pressa, segurou delicadamente o pulso dela.
O gesto foi sutil. Disfarçado para quem observasse de longe, mas íntimo demais para ser inocente.
O polegar dele deslizou levemente sobre a pele sensível do pulso dela e o coração de Helena acelerou.
— Cuidado — ele murmurou, a voz mais baixa.
— Com o quê?
— Com perguntas que você talvez não esteja pronta para ouvir respondidas.
Ela não puxou a mão.
Não conseguiu.
— E você? Está pronto para respondê-las?
O toque dele permaneceu firme por alguns segundos a mais.
Depois soltou.
Como se estivesse se impondo limites.
O jantar seguiu, mas a tensão não dissipou. Cresceu. Em pequenos gestos. Olhares longos demais. Silêncios carregados.
Quando o evento finalmente começou a esvaziar, Alexander levantou.
— Vamos.
Helena caminhou ao lado dele novamente. Do lado de fora, o ar noturno estava frio, contrastando com o calor que ainda pulsava sob a pele dela.
Antes que o motorista abrisse a porta, um grupo de fotógrafos surgiu.
Flashes. Perguntas sobre negócios. Sobre alianças. Sobre a mulher ao lado dele.
Alexander aproximou Helena instintivamente, a mão firme em sua cintura agora.
— Senhor Wolf! Quem é ela? — alguém gritou.
Ele não hesitou.
Olhou diretamente para as câmeras e depois para Helena.
E disse:
— Alguém importante.
O mundo pareceu silenciar por um segundo e entraram no carro.
Dentro, do carro o espaço era pequeno demais para o que sentiam.
Helena virou-se para ele.
— Você gosta de incendiar situações, não gosta?
Ele a observava como se estivesse medindo cada respiração dela.
— Só quando vale a pena.
— E eu valho?
A pergunta saiu mais vulnerável do que ela pretendia.
Alexander aproximou-se devagar sem pressa. Como se cada centímetro fosse calculado. A mão dele subiu lentamente pelo braço dela, até repousar em seu ombro.
Quente.
Firme.
— Você não faz ideia.
O rosto dele estava próximo demais agora.
Helena podia contar os segundos entre uma respiração e outra.
— Isso também faz parte da estratégia? — ela sussurrou.
Os lábios dele pairavam a poucos centímetros dos dela.
— Não.
A resposta veio quase rouca.bO mundo fora do carro deixou de existir.
Ela sentiu os dedos dele deslizarem lentamente da curva do ombro até a lateral do pescoço. Deliberado. Contido. Como se ele estivesse à beira de ultrapassar um limite… e escolhendo não fazê-lo.
Helena fechou os olhos por um segundo.
— Alexander…
Não era um protesto, era um aviso. Ou talvez um pedido.
O polegar dele roçou levemente o contorno da mandíbula dela.
— Se eu continuar — ele murmurou — não vai ser só estratégia.
Ela abriu os olhos.
— Então não continue.
Mas não se afastou.
O motorista parou diante da mansãone o momento quebrou.
Alexander recuou primeiro, restaurando o seu controle. Abriu a porta e saiu.
Helena desceu logo depois, sentindo as pernas levemente instáveis.
Na entrada da casa, antes que atravessassem as portas, ele segurou a mão dela uma última vez.
— Isso está ficando perigoso.
— Para quem? — ela perguntou.
Ele segurou o olhar dela.
— Para nós dois.
Ela percebeu que o maior risco não estava nos inimigos dele. Estava na maneira como o coração dela começava a bater diferente sempre que Alexander chegava perto demais.