Capítulo 9

1188 Palavras
O silêncio entre Helena e Alexander não era vazio. Era carregado. Denso. Quase palpável. A biblioteca da mansão permanecia envolta pela luz dourada do entardecer. As cortinas pesadas filtravam o sol, projetando sombras longas sobre as estantes repletas de livros antigos. Helena ainda segurava o envelope que ele lhe entregara minutos antes, provas, documentos, segredos que poderiam mudar o rumo de tudo. Mas, naquele instante, o que mais a desconcertava não era o conteúdo do papel. Era a proximidade dele. Alexander estava perto demais. Ela conseguia sentir o perfume amadeirado que ele usava, misturado ao leve cheiro de couro da poltrona atrás dele. Ele não tocava nela, mas a ausência de toque era quase pior, como se o espaço entre seus corpos estivesse eletrizado. — Você não devia confiar em mim tão rápido — ele disse, a voz baixa, controlada. Helena ergueu o olhar. — Eu não confio. Ele arqueou levemente a sobrancelha. — Então por que ficou? Porque você me puxa como um ímã. Mas ela não disse isso. Helena respirou fundo, mantendo a postura firme. — Porque eu preciso saber a verdade. Alexander inclinou-se um pouco, apoiando as mãos na mesa atrás dela. O movimento a prendeu entre a madeira maciça e o corpo dele, sem que ele a tocasse de fato. — A verdade tem um preço — murmurou. O ar pareceu diminuir. Helena manteve o queixo erguido, embora o coração estivesse acelerado demais para alguém que fingia controle. — Eu pago. Os olhos dele desceram por um segundo, apenas um segundo, até os lábios dela. Foi rápido, mas ela percebeu. E o corpo reagiu antes que a mente pudesse impedir. O calor subiu por sua pele. Alexander voltou a encará-la, como se tivesse notado cada mínima mudança. — Cuidado com o que promete, Helena. O nome dela, na boca dele, soava diferente. Mais íntimo. Ela não recuou. — Você acha que eu tenho medo de você? Ele se aproximou um centímetro a mais. O suficiente para que o calor do corpo dele atravessasse o tecido da roupa. — Não — respondeu, com honestidade perigosa. — Acho que você não tem medo o suficiente. Por um momento, o mundo pareceu se resumir ao espaço entre os dois. Helena podia sentir a respiração dele, lenta, controlada, contrastando com a dela, que traía a tensão que tentava esconder. Ele ergueu a mão. Ela prendeu o ar. Mas ele não a tocou. Apenas segurou uma mecha do cabelo dela que havia caído sobre o rosto e a afastou lentamente. O gesto foi simples. Deliberado. O polegar roçou de leve sua têmpora. Um toque mínimo, quase inexistente, mas suficiente para fazer a pele dela formigar. Helena engoliu em seco. — Isso faz parte do preço? — ela sussurrou. Um leve sorriso curvou os lábios dele. — Não. Isso é falta de disciplina. O comentário deveria soar arrogante, mas havia algo ali, uma tensão contida, como se ele também estivesse lutando contra algo. Antes que qualquer um dos dois pudesse cruzar uma linha invisível, o som de passos no corredor ecoou. Alexander afastou-se imediatamente. A mudança foi abrupta. O calor foi substituído por frieza. O homem que estava a centímetros dela desapareceu, dando lugar ao empresário impassível. A porta se abriu. — Senhor, o carro está pronto — anunciou o assistente. Alexander assentiu. — Estamos descendo. A porta se fechou. O silêncio voltou, mas agora estava diferente. Mais pesado. Helena ajeitou o envelope contra o peito, tentando recuperar o controle. — Para onde estamos indo? — Para um jantar. Ela franziu o cenho. — Você não mencionou isso. — Não mencionei muitas coisas. Ela cruzou os braços. — Eu não sou um acessório para os seus eventos. Ele a observou por alguns segundos. — Eu sei. — Então por que preciso ir? Alexander caminhou até a estante, pegando o paletó com movimentos precisos. — Porque as pessoas que estarão lá precisam ver você ao meu lado. Helena estreitou os olhos. — Como o quê? Sua aliada? Sua protegida? Ele vestiu o paletó lentamente antes de responder: — Como alguém que eu não estou disposto a perder. A frase caiu entre eles como um impacto silencioso. Helena não estava preparada para aquilo. — Isso é estratégia ou sinceridade? Ele caminhou até ela novamente, agora mantendo uma distância respeitosa. — Às vezes é a mesma coisa. Ela queria insistir. Provocá-lo. Testar os limites. Mas havia algo nos olhos dele, algo vulnerável demais para ser completamente fingido. Helena respirou fundo. — Eu não jogo sujo, Alexander. — Eu sei. — E não vou ser usada. — Não pretendo usar você. Ela deu um passo à frente. — Então o que pretende? Ele segurou o olhar dela por longos segundos. — Descobrir até onde você está disposta a ir. O desafio estava lançado e ela odiava o fato de que aquilo a excitava. Alexander estendeu a mão. — Vamos? Helena hesitou. Olhou para a mão dele. Lembrou-se de tudo o que sabia sobre homens como ele. Poderosos. Controladores. Perigosos. Mas também lembrou-se da forma como ele havia afastado o cabelo dela do rosto. Da maneira como sua voz havia falhado por um segundo quando disse que não estava disposto a perdê-la. Ela colocou a mão na dele. O toque foi firme, quente. Alexander fechou os dedos ao redor da mão dela com segurança, não possessivo, mas decidido. Eles caminharam juntos pelo corredor longo da mansão. Cada passo parecia marcar um acordo silencioso entre os dois. No carro, sentaram-se lado a lado no banco traseiro. O motorista fechou a porta, e o mundo exterior ficou distante. Helena olhava pela janela, tentando acalmar o turbilhão interno. — Está nervosa? — ele perguntou. — Não. Ele inclinou-se levemente, aproximando o rosto do ouvido dela. — Seu pulso diz o contrário. Ela virou o rosto para encará-lo. Estavam perto demais novamente. — Você não devia prestar atenção nesses detalhes. — Eu presto atenção em tudo que envolve você. O calor voltoube Helena manteve o olhar firme. — Isso é perigoso. — Eu sei. O carro reduziu a velocidade. As luzes do restaurante de luxo surgiram diante deles. Alexander afastou-se, retomando a postura controlada. — Lembre-se — disse, ajustando o próprio relógio. — Não importa o que aconteça lá dentro, você está comigo. Ela ergueu o queixo. — Não preciso que me proteja. Ele abriu a porta quando o carro parou. — Não é proteção. Ele ofereceu a mão novamente. — É escolha. Helena segurou a mão dele e saiu do carro. Os flashes de câmeras começaram quase imediatamente. Ela percebeu, então, que aquela noite não seria apenas sobre negócios. Seria sobre exposição. Sobre poder. E sobre a linha tênue entre desejo e estratégia. Alexander aproximou-se o suficiente para que a mão dele repousasse na base das costas dela, um toque discreto, mas firme. A pele dela queimou sob o contato. Ele inclinou-se e murmurou: — Não me faça perder o controle esta noite. Helena virou o rosto levemente, seus lábios quase roçando os dele ao responder: — Então não chegue tão perto. E, juntos, atravessaram as portas de vidro, conscientes de que o verdadeiro jogo estava apenas começando.
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