O silêncio que tomou conta do escritório depois das palavras de Alexander parecia mais pesado que antes.
Helena ainda estava apoiada na mesa, sentindo o coração bater rápido demais e não era apenas por causa do beijo que tinham acabado de trocar.
— Peça central? — ela repetiu.
Alexander passou a mão pelo cabelo, um gesto raro de tensão.
— Sim.
— Isso deveria me preocupar?
Ele a observou por alguns segundos, como se estivesse medindo a resposta mais honesta possível.
— Um pouco.
Helena soltou um pequeno suspiro e se afastou da mesa, caminhando lentamente pelo escritório.
— Você tem um talento impressionante para colocar minha vida em situações perigosas.
— Eu não pretendia que fosse assim.
— Mas foi.
Alexander não discutiu. Ele sabia que ela estava certa.
Helena parou diante da janela, olhando a cidade abaixo deles.
— Quem é essa pessoa que reagiu?
Alexander caminhou até ela, mas manteve certa distância dessa vez.
— Viktor Sokolov.
O nome não significava nada para Helena, mas o tom de voz dele dizia tudo.
— Um rival?
— Algo pior.
Ela virou o rosto.
— Explique.
Alexander apoiou as mãos nos bolsos do terno.
— Anos atrás, nossas empresas fizeram um acordo para dividir certos mercados. Era uma forma de evitar conflitos diretos.
— E agora?
— Agora ele acredita que eu estou quebrando esse acordo.
Helena franziu a testa.
— Por causa de mim?
— Em parte.
— Isso não faz sentido.
— No mundo dele, faz.
Alexander se aproximou um pouco mais.
— Ele acredita que qualquer mudança no meu círculo de confiança significa uma mudança estratégica.
Helena cruzou os braços.
— Então aparecer ao seu lado em público virou uma declaração de guerra?
— Algo próximo disso.
Ela soltou uma pequena risada incrédula.
— Eu não sabia que minha presença tinha tanto poder.
Alexander olhou diretamente para ela.
— Nem eu.
O silêncio voltou, mas agora havia algo diferente nele. Mais intenso.
Helena percebeu quando ele se aproximou novamente.
— Você ainda pode sair disso — ele disse.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Sair?
— Eu posso resolver tudo sozinho.
— E me mandar embora da sua vida?
A pergunta saiu mais carregada do que ela pretendia.
Alexander ficou em silêncio por um momento.
— Não foi isso que eu disse.
— Foi o que pareceu.
Ele passou a mão pela nuca, pensativo.
— Helena… meu mundo é complicado.
— Eu já percebi.
— Pessoas como Sokolov não jogam limpo.
Ela se aproximou dele novamente.
— Você está tentando me proteger ou me afastar?
Alexander segurou o olhar dela.
— Os dois.
Helena ficou alguns segundos em silêncio.
Então balançou a cabeça levemente.
— Tarde demais.
Ele franziu a testa.
— O que quer dizer?
— Eu já estou dentro disso.
Ela gesticulou em direção ao escritório, à cidade, a tudo ao redor.
— Já apareci ao seu lado. Já fui vista. Já estou envolvida.
Alexander sabia que ela estava certa.
Helena deu mais um passo à frente.
Agora estavam novamente próximos.
— Então não tente me tratar como alguém frágil — ela continuou. — Porque não sou.
Ele observou o rosto dela com uma mistura de admiração e preocupação.
— Eu sei que não é.
— Então pare de agir como se fosse.
Alexander soltou um pequeno suspiro.
— Você tem uma habilidade irritante de desmontar meus argumentos.
Helena sorriu levemente.
— Talvez porque você esteja acostumado a mandar em todo mundo.
— Talvez.
O clima entre eles começou a mudar novamente.
A tensão perigosa ainda estava ali, mas agora misturada com algo mais íntimo.
Alexander estendeu a mão e segurou o rosto dela novamente e Helena não recuou.
— Você entende que isso pode ficar pior? — ele perguntou.
— Eu entendo.
— E mesmo assim quer continuar?
Ela sustentou o olhar dele.
— Quero.
A resposta foi simples. Firme e completamente sincera.
Alexander ficou em silêncio por alguns segundos. Então um pequeno sorriso surgiu nos lábios dele.
— Você realmente é um problema.
Helena ergueu o queixo.
— E você gosta disso.
Ele não negou.
A mão dele deslizou lentamente pelo pescoço dela, provocando um arrepio imediato.
— Muito.
Helena sentiu o corpo responder automaticamente à proximidade dele.
— Nós precisamos trabalhar — ela murmurou, embora não parecesse muito convencida disso.
— Provavelmente.
— E sua reunião?
— Em vinte minutos.
Ela riu baixo.
— Então talvez devêssemos agir como adultos responsáveis.
Alexander inclinou a cabeça.
— Ou aproveitar mais alguns minutos.
Helena tentou manter a expressão séria.
Falhou.
— Você é impossível.
— Eu avisei.
Ele puxou Helena suavemente pela cintura e a beijou novamente.
Dessa vez o beijo foi mais lento.
Mais profundo.
Como se ambos estivessem saboreando o momento em vez de apenas reagir ao impulso.
Helena passou as mãos pelos ombros dele, sentindo a tensão nos músculos dele sob a camisa.
Alexander a segurava com firmeza, mas havia cuidado em cada movimento. Quando finalmente se afastaram, Helena ainda estava sem fôlego.
— Isso definitivamente não ajuda na concentração — ela disse.
Alexander sorriu.
— Nunca prometi ajudar.
O interfone da mesa apitou.
— Senhor Wolf. — disse a voz da secretária — Os diretores já chegaram para a reunião.
Alexander fechou os olhos por um segundo.
— Claro que chegaram.
Helena deu um pequeno passo para trás, tentando recuperar a postura.
— Hora de voltar ao trabalho.
Alexander ajeitou a camisa e pegou o paletó.
Mas antes de sair do escritório, ele parou diante dela novamente.
— Helena.
— Sim?
Ele hesitou por um momento.
— Quando essa reunião acabar… precisamos conversar sobre o próximo passo.
Ela inclinou a cabeça.
— Próximo passo em qual sentido?
O olhar dele escureceu levemente.
— Em todos.
Helena sentiu um frio agradável percorrer o corpo.
— Parece importante.
Alexander abriu a porta do escritório.
— Muito.
Antes de sair, ele olhou para ela uma última vez.
E pela intensidade daquele olhar, Helena teve a forte sensação de que o próximo passo entre eles poderia mudar tudo.