Capítulo 24

1092 Palavras
Rick Dowson Caminhávamos pela floresta há horas. Os galhos secos estalavam sob nossas botas, e o farfalhar das folhas mortas parecia amplificar o silêncio opressor que nos envolvia. Cada passo era um fardo, não apenas pelo terreno traiçoeiro, mas pelo peso das verdades que se acumulavam entre nós. O ar frio cortava minha pele, mas nada se comparava à tensão que pairava entre mim e Ayla. Ela caminhava ao meu lado, a mão firme na da menina misteriosa. Seus olhos estavam fixos à frente, mas eu sabia que sua mente estava em turbilhão. Ela escondia algo algo grande. E eu estava cansado de ser mantido no escuro. A menina era uma incógnita. Seu silêncio não era apenas infantil, era enigmático. Seus olhos, grandes e atentos, pareciam enxergar além do que qualquer um de nós conseguia. Era inquietante. Como se ela soubesse o desfecho dessa história antes mesmo de começarmos a contá-la. —Por que você não me contou antes? — Minha voz soou mais dura do que eu pretendia, cortando a quietude ao nosso redor. Ayla parou abruptamente, seus olhos encontrando os meus com firmeza. —Porque você não estava pronto. — Sua voz era um misto de paciência e determinação. Revirei os olhos, soltando uma risada amarga. —E agora estou? —Você precisava saber, Rick. — Ela não hesitou. — Quanto mais você n**a, mais poder as sombras terão sobre você. Minha mandíbula se contraiu. Eu chutei uma pedra com raiva, tentando digerir suas palavras. —Então, além de ser caçado por criaturas feitas de trevas, agora tenho que lidar com um poder que nem sei usar? Ótimo. Ela deu um passo à frente e segurou meu braço, me obrigando a encará-la. Seu toque era firme, quente, mas seus olhos... aqueles olhos eram um campo de batalha entre medo e esperança. —Você não está sozinho. — Sua voz saiu baixa, quase um sussurro. —Não parece. — Retruquei, afastando-me de seu toque. — Você está escondendo algo, Ayla. E essa garota... — Me virei para a menina, que apenas nos observava em silêncio, seu rosto sereno demais para a situação. — Ela sabe mais do que está dizendo. —Rick, me escute! — Ayla elevou a voz, um raro sinal de frustração. — Eu estou aqui. E vou continuar aqui, até o fim disso, mesmo que você me odeie por isso. Fiquei paralisado por um momento. Havia verdade em suas palavras, mas também um segredo, um que ela ainda não estava pronta para compartilhar. O que mais ela estava escondendo? Suspirei, sentindo a exaustão pesar sobre mim. —Tudo bem. — Voltei a caminhar, minha mente ainda fervilhando de dúvidas. — Mas se vamos enfrentar isso juntos, quero saber de tudo. Sem segredos. —Sem segredos. — Ayla respondeu. Mas havia algo na hesitação em sua voz que me deixou inquieto. De repente, um estalo no meio das árvores nos fez congelar. O som de um galho se partindo reverberou no silêncio, trazendo um calafrio à minha espinha. A menina girou a cabeça na direção do barulho, seus olhos arregalados e atentos. Então, pela primeira vez, sua voz cortou o ar, baixa, fria e carregada de urgência. —Corram. O chão tremeu sob nossos pés, uma vibração crescente que se intensificava a cada segundo. O rugido grave que vinha de longe reverberava pelo ar como um presságio de destruição iminente. Ayla praguejou baixinho, seus olhos afiados analisando a escuridão ao redor antes de puxar suas lâminas com um movimento ágil. — As sombras nos encontraram. — A voz dela era firme, sem espaço para dúvidas. Meu instinto gritou para agir, e, sem pensar, segurei a menina nos braços e comecei a correr. Ayla vinha logo atrás, seus passos leves, mas determinados. As árvores pareciam se fechar ao nosso redor, como se a floresta estivesse viva e conspirasse contra nós. O rugido sobrenatural se intensificou, fazendo o ar vibrar. — Você disse que eu não estava sozinho, Ayla! — gritei, desviando de um galho baixo. O suor frio descia pela minha nuca. — Então prove isso agora! Ela parou abruptamente, girando sobre os calcanhares. O brilho de suas lâminas refletiu a luz escassa que conseguia atravessar o dossel das árvores. Havia um fogo feroz em seus olhos, uma determinação que fez meu coração vacilar por um instante. — Continue correndo, Rick. Eu cuido disso. — Sua voz era um comando inquestionável. — Como assim? Você não vai... — Agora, Rick! — A intensidade no olhar dela me atingiu como um golpe direto no peito. Eu queria protestar, queria ficar e lutar ao lado dela. Mas algo na forma como Ayla me olhou me fez obedecer. Contra meu próprio instinto, continuei correndo, segurando a menina com força contra o peito. O som de lâminas cortando o ar e rugidos grotescos ecoava atrás de mim, misturado ao barulho seco de golpes brutais. A cada passo, o peso do que estava deixando para trás se tornava insuportável. Eu sabia que Ayla estava lutando por nós, que sua força era admirável. Mas a cada grito abafado, a dúvida se infiltrava como um veneno: será que ela sobreviveria? Eu conseguiria vê-la de novo? E então, quando a esperança começava a se esvair, avistei sua silhueta emergindo da penumbra. Ayla corria em minha direção, o corpo inteiro tenso, as lâminas manchadas com vestígios de batalha. Quando nossos olhares se cruzaram, um alívio esmagador me atingiu como uma onda impetuosa. Ela estava viva. A menina estava segura. Mas a realidade veio como um golpe brutal. Eu sou o Alfa. Eu sou quem deveria protegê-las, manter ambas seguras a qualquer custo. E, no entanto, tudo parecia de cabeça para baixo. As sombras não estavam atrás delas. Elas estavam atrás de mim. A maldição que carrego, esse fardo que me consome, é isso que elas querem. Mas chega. Chega. Minha mandíbula se apertou, e uma fúria ardente tomou conta de mim. Senti a fera dentro de mim rugindo, exigindo sangue, exigindo o fim daquela perseguição. Eu estava pronto para acabar com aquelas malditas sombras, mesmo que isso me custasse a vida. Já vivi o suficiente. Já lutei o suficiente. O sacrifício não me assusta mais. Se o preço da segurança delas for a minha vida, que assim seja. Já vivi 28 anos, e para mim está ótimo. Ayla parou a poucos passos de mim, os olhos brilhando de preocupação. Ela sentia minha decisão, sabia que eu estava pronto para fazer o impensável. Mas não havia tempo para conversas ou explicações. As sombras estavam aqui. E eu não fugiria mais.
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