Ayla Solano
Havia algo errado com Rick quando ele voltou.
A postura ainda era firme, dominante como sempre, mas seus olhos... Seus olhos estavam diferentes. Sombrios, opacos, como se carregassem um peso invisível que nem ele próprio conseguia compreender. A brisa fria da noite soprava, fazendo as chamas da fogueira dançarem, projetando sombras distorcidas pelo acampamento. Mas o verdadeiro frio vinha dele.
Ele não disse nada. Apenas se aproximou da fogueira e sentou-se com movimentos calculados. O silêncio que o acompanhava era pesado o suficiente para me sufocar.
Eu sabia que algo tinha acontecido. Ele tinha estado com sua alcateia, e alguma coisa naquela reunião o perturbará. O Rick que eu conhecia era impetuoso, controlador, sempre certo do que fazer. Mas agora... agora, havia hesitação nos músculos rígidos de seu corpo, uma sombra no brilho âmbar de seu olhar.
Mas eu também carregava minha própria inquietação. Precisava falar, precisava quebrar aquele silêncio que parecia ameaçar me engolir inteira.
— Rick.
Minha voz saiu mais trêmula do que eu queria, e isso fez com que ele erguesse os olhos lentamente. O brilho âmbar refletia o fogo, mas havia algo mais. Algo mais animal do que humano.
— O que foi? — A voz dele era grave, carregada de um peso que não pertencia apenas à exaustão.
Engoli em seco. Ele não parecia irritado, mas a tensão em suas palavras era como um trovão ao longe, anunciando tempestade.
— Eu havia te falado que conheço alguém... alguém que pode nos ajudar com o símbolo.
O cenho dele franziu, e o cansaço que antes marcava sua expressão desapareceu, substituído por uma intensidade cortante.
— Quem?
Respirei fundo. Sabia que ele não reagiria bem.
— Naara.
O nome saiu dos meus lábios como um sussurro, como se até a noite pudesse ouvi-lo e carregar seu significado ao vento. O ar ao nosso redor pareceu se tornar mais denso.
— Ela vive nas montanhas, isolada. É uma guardiã, Rick. Ela entende essas coisas... coisas que nós nem começamos a compreender.
Levantei minha mão, mostrando o símbolo que pulsava em um ritmo lento e hipnotizante. O brilho tênue da marca parecia vibrar, como se respondesse ao nome de Naara, como se a mera menção dela fosse suficiente para agitá-lo.
Rick não disse nada por um longo tempo. Seu olhar fixo no símbolo me fez prender a respiração. Quando finalmente falou, sua voz era baixa, cortante.
— Como você sabe disso?
A desconfiança era compreensível. Mas havia algo mais ali, algo que me fazia querer recuar.
— Minha mãe falava dela. — Respondi, esforçando-me para manter a calma. — Disse que Naara era perigosa, mas que sabia sobre o equilíbrio, sobre símbolos como este.
Ele riu. Uma risada curta, seca. Mas não havia humor nela. Apenas ironia e algo mais sombrio que não consegui decifrar.
— Perigosa? — Ele repetiu, os olhos estreitados. — E você acha que ela vai nos ajudar?
A palavra ficou pairando entre nós, tão afiada quanto uma lâmina.
Perigosa.
Hesitei. A resposta parecia óbvia, mas ainda assim, um calafrio subiu pela minha espinha.
— Acho que sim. O símbolo está... guiando a gente, Rick.
Os olhos dele voltaram para minha mão, e o brilho da marca pareceu se intensificar ainda mais, como uma batida forte de um coração vivo.
— Ou talvez... — Ele murmurou, quase para si mesmo. — Ele esteja nos levando direto para o perigo.
O silêncio voltou a nos engolir, e eu soube, naquele instante, que essa busca não seria apenas por respostas.
Ele olhou novamente para o símbolo em minha mão, então para mim. Seu olhar queimava como brasas vivas, uma intensidade que fazia minha pele formigar. Por um momento, pensei que ele fosse recusar. Mas então, um suspiro escapou de seus lábios. Não um suspiro comum. Era pesado, cansado… derrotado.
— Certo. Vamos até ela. Mas você vai me prometer uma coisa.
A tensão em sua voz fez um arrepio subir pela minha espinha.
— O quê? — Perguntei, minha curiosidade se misturando com um fio de apreensão.
Ele se inclinou para frente, e nossos olhos se prenderam como se um estivesse tentando enxergar a alma do outro. O fogo entre nós lançava sombras em seu rosto, destacando suas feições marcadas e a tensão em sua mandíbula cerrada.
— Se isso for uma armadilha, Ayla… — Sua voz saiu como um sussurro, mas a ameaça velada naquelas palavras era inconfundível. — Você fica atrás de mim.
Seu tom era absoluto, sem espaço para negociações.
— Não é uma armadilha. — Respondi com firmeza, erguendo o queixo. Mas até eu podia sentir a incerteza rastejando por minhas palavras.
Ele percebeu. Claro que percebeu. Rick não era do tipo que deixava passar qualquer hesitação.
— É bom que não seja. — Ele murmurou, desviando os olhos para o fogo. — Porque, se for, não haverá saída.
O símbolo em minha mão brilhou novamente, mais forte desta vez. O calor pulsante atravessou minha pele, vibrando em um ritmo hipnótico, como se estivesse reagindo à tensão que nos envolvia.
E, por um instante, senti que talvez Naara não fosse o verdadeiro perigo. Talvez ele já estivesse aqui, sentado ao meu lado.
O silêncio entre nós parecia uma criatura viva, rastejando no ar denso da noite, se alimentando de nossas dúvidas e incertezas.
Eu precisava quebrá-lo.
— E a alcatéia? — Perguntei, tentando preencher o vazio sufocante que se instalara entre nós.
Rick desviou os olhos da fogueira para mim, mas não respondeu de imediato. O peso em seu olhar parecia dobrado agora.
— Não importa.
Franzi o cenho.
Não importa?
Rick nunca diria isso. A alcatéia era tudo para ele. Era sua família, seu sangue, sua responsabilidade. Ele sempre disse que nada era mais importante. Mas agora… agora, havia algo diferente nele. Algo que ele não queria que eu soubesse.
— Claro que importa, Rick. — Insisti, minha voz saindo mais firme do que eu esperava. — O que aconteceu com eles?
Ele permaneceu em silêncio, os olhos fixos no fogo, como se as chamas pudessem lhe dar uma resposta.
Um nó de inquietação se formou em meu estômago.
Ainda bem que a criança estava dormindo, porque a tensão entre nós era quase palpável. Algo estava muito errado.
Eu só não sabia o quê.
Meu olhar voltou para o símbolo brilhando em minha pele.
As sombras tinham alguma relação com o humor de Rick? Com aquele vazio sombrio que parecia consumir sua alma?
Não sei o que está por vir. Mas sei que, seja lá o que for, não estamos preparados para enfrentar.