Capítulo 26

908 Palavras
Ayla Solano Ele passou a mão pelos cabelos, um gesto raro de frustração. Seus olhos carregavam um peso que eu ainda não compreendia totalmente. — Eles não entendem o que está acontecendo, Ayla. Não acreditam no símbolo, no que ele significa. Para eles, isso é uma maldição. A palavra pairou no ar como veneno, impregnando-se em minha pele. Era a primeira vez que alguém verbalizava isso, que dava nome ao temor silencioso que nos cercava. Meu coração vacilou. Mesmo eu, que carregava o símbolo, nunca o havia visto dessa forma. Respirei fundo, tentando ignorar o aperto no peito. — E você? — Minha voz saiu em um sussurro hesitante. — O que acha que isso é? Rick demorou a responder. Seu olhar era um abismo de pensamentos não ditos. Quando finalmente falou, sua voz era quase inaudível: — Ainda não sei. Mas estou começando a achar que eles têm razão. Aquelas palavras foram um golpe. Senti algo se partir dentro de mim. Olhei para o símbolo em minha mão, sentindo seu pulsar quente, como se estivesse vivo. Ele parecia reagir às palavras de Rick, intensificando seu brilho, desafiando sua descrença. Minha garganta ficou seca. — Não diga isso. — Murmurei, fechando os dedos ao redor do símbolo como se pudesse protegê-lo de sua sentença c***l. — Não é uma maldição, Rick. É algo mais. Algo que precisamos entender. Ele não respondeu de imediato. Seus olhos continuaram fixos no fogo, as chamas refletindo em suas íris douradas, oscilando como se refletissem a batalha dentro dele. Naquela noite, não dormimos. O vento gelado uivava lá fora, e eu podia sentir a inquietação crescendo entre nós. Era como se estivéssemos à beira de algo grande. Algo irreversível. Partimos ao amanhecer. O céu estava tingido por tons pálidos de laranja e lilás, enquanto as sombras das montanhas se estendiam como gigantes adormecidos. A trilha era íngreme, e o ar se tornava mais rarefeito a cada passo. O símbolo em minha mão queimava como brasas vivas, pulsando com uma intensidade que me deixava tonta. Era quase como se estivesse nos guiando. Rick caminhava ao meu lado, seus sentidos aguçados, o corpo tenso como uma mola prestes a se soltar. Eu podia sentir o lobo dentro dele inquieto, como se algo invisível sussurrasse perigos ao nosso redor. — Você acha que ela vai nos dizer o que precisamos saber? — Sua voz cortou o silêncio, rouca e grave. Meus olhos se voltaram para ele. O vento bagunçava seus cabelos escuros, e havia algo na sua expressão que me fez sentir uma pontada de incerteza. — Não sei. — Admiti, minha voz sendo carregada pela brisa gélida. — Mas é melhor do que continuar sem respostas. Ele assentiu, mas seu olhar permaneceu distante. A menina não veio. Preferimos deixá-la escondida, protegida, pois não sabíamos como Naara reagiria à sua presença. A trilha era c***l, castigando nossos corpos a cada passo. O frio mordia minha pele, e eu sentia a exaustão pesando sobre meus ombros. Mas havia algo maior nos impulsionando, uma força invisível que nos guiava através da neblina crescente. E então, quando estávamos prestes a alcançar o topo, senti. O símbolo ardeu em minha pele, sua luz vibrando com uma força quase elétrica. Meu coração disparou, e uma sensação desconhecida percorreu meu corpo. Rick parou abruptamente ao meu lado, seus olhos brilhando sob a luz fraca do sol nascente. — Chegamos. Minha respiração vacilou. O destino nos esperava do outro lado daquela névoa. E, de alguma forma, eu sabia que nada jamais seria como antes. Rick caminhava à frente, seus passos firmes e precisos. Sua respiração era pesada, mas constante, um reflexo do estado de alerta que dominava seu corpo. Ele não dizia nada, mas a tensão rígida em seus ombros denunciava o turbilhão de pensamentos que circulavam por sua mente. Ele estava pronto para agir ao menor sinal de perigo. — Estamos perto. — Minha voz soou baixa, quase abafada pelo vento frio que varria a encosta da montanha. Rick olhou para trás, seus olhos âmbar cintilando na penumbra, e assentiu brevemente antes de continuar. O silêncio entre nós não era incômodo, mas carregado de expectativa. Eu não sabia exatamente o que encontraríamos ao chegar, apenas que Naara era uma figura envolta em mistério. Minha mãe mencionara seu nome em sussurros, como se até mesmo evocá-lo fosse perigoso. Ela sabia coisas. Segredos antigos sobre o equilíbrio, sobre o símbolo que agora pulsava em minha pele como um lembrete constante do meu destino. Mas também era conhecida por ser imprevisível, talvez até c***l. Quando a cabana surgiu à nossa frente, meu coração acelerou. Ela ficava no alto de uma clareira, cercada por árvores tão antigas que pareciam guardar os próprios segredos do tempo. A construção era simples, feita de madeira escura, mas havia algo nela que parecia… vivo. Como se a própria estrutura pulsasse com uma energia invisível, um chamado mudo para aqueles que ousassem se aproximar. — É aqui? — Rick perguntou, parando ao meu lado. Engoli em seco, tentando controlar a ansiedade que rastejava sob minha pele. — Sim. Ele desviou o olhar para mim, seus olhos ferozes como brasas acesas na escuridão. A intensidade daquele olhar sempre me desarmava. — Fique atrás de mim. Revirei os olhos, cruzando os braços. — Rick, eu estou bem. Mas antes que eu pudesse argumentar mais, ele já subia os degraus de madeira da entrada, sua postura imponente deixando claro que ele não aceitaria contradições.
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