Capítulo 29

998 Palavras
Rick Dowson Eu já não tinha mais forças para lutar. Cada passo era mais pesado que o anterior, como se algo invisível me puxasse para o chão. O calor queimava dentro de mim, mas não era o calor comum de uma batalha. Era algo mais profundo, algo que nascia em meu âmago, uma chama indomável que ameaçava consumir tudo que eu era. O silêncio da floresta era ensurdecedor, interrompido apenas pelo som da minha respiração irregular. As sombras se moviam ao meu redor, sinuosas, como se tivessem vida própria. Elas não me atacavam, apenas me observavam, esperando. Eu podia sentir olhos invisíveis me analisando, me julgando. Então, ouvi meu nome. — Rick! A voz dela cortou o ar como um raio. Ayla surgiu entre as árvores, a respiração ofegante, os olhos arregalados e preenchidos por uma mistura de alívio e pavor. Seu olhar encontrou o meu e, por um breve instante, fui ancorado à realidade. Mas havia algo mais em sua expressão, algo que me atingiu como um golpe no peito. Ela estava com medo. Não das sombras. De mim. Ela hesitou, como se um instinto primal a alertasse sobre o perigo. Mas, como sempre, sua teimosia venceu o medo. Dei um passo para trás, sentindo a tensão vibrar em cada fibra do meu corpo. Minha respiração era um rugido abafado dentro do peito. — Fique longe! — minha voz saiu mais feroz do que eu esperava, um rugido carregado de algo... desumano. Ayla paralisou, mas não recuou. A dor rasgava meu interior, algo crescendo e se expandindo dentro de mim como uma fera enjaulada. Minha pele queimava, minha visão turvava. Quando olhei para minhas próprias mãos, elas não eram mais minhas. Garras negras substituíam os dedos, e minha pele ardia como brasas vivas. — O que está acontecendo com você? — sua voz era um sussurro carregado de medo e preocupação. Eu queria responder, mas as palavras não vinham. Era como se uma sombra sufocasse minha voz, impedindo-me de dizer a verdade. Eu não sabia o que estava acontecendo comigo. Caí de joelhos, cravando as garras na terra úmida para me agarrar a algo, qualquer coisa, que me impedisse de ser levado pela força avassaladora que rugia dentro de mim. — Rick! — Ayla gritou novamente, sua voz carregada de desespero. Quando olhei para ela, vi a tristeza em seus olhos. Ela sabia. Sabia que eu estava me perdendo. — Não chegue mais perto... — implorei, minha voz rouca e trêmula. Mas Ayla nunca soube a hora de recuar. Ela se ajoelhou diante de mim, as mãos hesitantes antes de tocarem meus ombros. Seu calor atravessou a barreira da escuridão por um instante, um resquício de luz tentando me alcançar. — Você é mais forte do que isso, Rick. Não deixe essa coisa te dominar! — sua voz era firme, mas carregada de emoção. O peso das palavras dela se infiltrou em mim, fazendo a sombra hesitar. Por um segundo, achei que poderia vencê-la. Mas então, a voz surgiu. Uma presença antiga e poderosa ecoou dentro da minha mente, como um trovão vindo das profundezas da terra. — É o fardo do alfa, Rick. Meus músculos ficaram tensos. Não era Ayla quem falava. — Quem é você? — perguntei mentalmente, sentindo minha própria respiração vacilar. — Eu sou você. Eu sou a verdadeira essência do alfa. O poder que você sempre tentou ignorar. Engoli em seco. Eu sabia que era verdade. O fardo do alfa não era apenas proteger o bando. Era lutar contra si mesmo. Contra o monstro que espreitava nas sombras da nossa alma, pronto para tomar o controle ao menor sinal de fraqueza. — Rick... — a voz de Ayla me chamou de volta. Seus dedos deslizaram até meu rosto, forçando-me a encará-la. Seus olhos estavam marejados, mas firmes. Ela não ia desistir de mim. — Você não está sozinho. — Ela segurou meu rosto com as duas mãos, seu toque queimando contra minha pele quente. — Eu vou lutar com você, Rick. Não importa o que aconteça. Eu a encarei, vendo a determinação em seus olhos. Por um momento, a dor diminuiu. Mas eu sabia que a luta estava apenas começando. O legado do alfa era meu para carregar e, mais cedo ou mais tarde, ele iria me destruir… ou eu o destruiria. A noite parecia mais escura, carregada de uma energia sufocante. O ar ao meu redor estava pesado, e cada fibra do meu corpo vibrava com uma força que eu não podia controlar. A lua cheia, testemunha silenciosa do caos que crescia dentro de mim, espalhava sua luz prateada sobre a clareira. Ela parou bem ao meu lado, os olhos fixos nos meus. Mesmo com todo o medo que eu podia sentir no ar, Ayla não recuou. — É o poder. — Sua voz saiu grave, firme. — Está tentando sair. As palavras dela me atingiram como um golpe. Meu peito subia e descia de forma irregular, a respiração curta. Eu podia sentir o monstro dentro de mim rugindo, se contorcendo, tentando escapar. — O que você está dizendo? — perguntei, minha voz m*l saindo de tão fraca. — O selo… — Ayla se aproximou mais, sua mão quente tocando meu braço. O calor de seu toque foi como uma chama queimando minha pele, mas, ao mesmo tempo, trouxe um instante de alívio. O símbolo em sua palma brilhou ainda mais, um clarão dourado cortando a escuridão ao nosso redor. — As sombras estão tentando quebrá-lo. — O que eu faço? — Minha voz saiu quase num sussurro, carregada de angústia. Ayla apertou ainda mais meu braço, forçando-me a encará-la. Seus olhos estavam intensos, uma tempestade de emoções refletindo ali. — Você tem que resistir, Rick. Você é mais forte do que isso. Eu queria acreditar. Queria confiar em suas palavras. Mas, naquele momento, a escuridão dentro de mim parecia mais poderosa do que qualquer esperança. E eu sabia que, se falhasse, a única pessoa que poderia me deter seria ela.
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