Capítulo 30

802 Palavras
Rick Dowson Ayla apertou minha mão com força, os olhos brilhando em meio à penumbra. Sua expressão era intensa, determinada, como se carregasse um segredo que apenas ela compreendia. O toque dela queimava, mas não de dor—havia algo reconfortante naquela conexão, algo que eu não sabia nomear. — Confie em mim — sua voz soou firme, mas ao mesmo tempo carregada de urgência. — Eu posso ajudá-lo a conter isso, mas você precisa me deixar entrar. Um arrepio percorreu minha espinha. Não era apenas pelo que estava acontecendo ao meu redor, mas pelo significado daquelas palavras. Entrar onde? A pergunta escapou dos meus lábios antes que eu pudesse pensar, mas Ayla não respondeu. Em vez disso, fechou os olhos e começou a murmurar palavras em uma língua que eu não reconhecia. Era uma linguagem antiga, quase esquecida, algo que soava mais como um sussurro da própria terra do que uma prece. As palavras vibravam no ar, envoltas em um poder que eu não conseguia compreender—mas sentia. Cada sílaba ressoava dentro de mim, como se estivesse tocando algo profundo, algo enterrado há muito tempo. A luz do símbolo em sua mão se intensificou, espalhando-se ao nosso redor. Primeiro, uma brisa leve, então um vento forte, como se a própria noite estivesse respondendo ao seu chamado. Por um instante, o mundo pareceu congelar. O rugido das sombras que me envolviam foi silenciado. E então, a dor que me consumia começou a ceder. Eu prendi a respiração, sentindo aquele peso escuro ser afastado, como se correntes invisíveis estivessem sendo quebradas. O tormento que queimava em minhas veias recuou, e pela primeira vez em muito tempo, eu senti que ainda havia algo de humano dentro de mim. Quando abri os olhos, as sombras ao nosso redor estavam se dissolvendo, como se nunca tivessem existido. O selo estava contido. Por ora. Ayla caiu de joelhos, os ombros tremendo de exaustão. O suor escorria por sua têmpora, e seu peito arfava com a respiração pesada. Mas ela estava viva. Sem pensar, eu me ajoelhei ao lado dela, o coração ainda disparado. Meu corpo estava voltando lentamente à sua forma humana, mas minha mente ainda ecoava com o que havia acabado de acontecer. — O que você fez? — Minha voz saiu mais suave dessa vez, carregada de confusão, mas também de algo mais. Admiração. Gratidão. Ayla ergueu o olhar para mim. Havia determinação ali, uma força que ia além do cansaço evidente em seu rosto. — Contive o selo — sua voz era baixa, mas firme. — Mas isso não vai durar para sempre, Rick. Você precisa aprender a controlá-lo. Eu não desviei o olhar. Pela primeira vez, percebi o quão perto estávamos, os rostos a poucos centímetros de distância. Sua respiração ainda era irregular, e mesmo esgotada, havia algo nela que me atraía como um ímã. Ayla não era apenas minha salvação... ela era a única que enxergava o monstro dentro de mim e ainda assim escolhia ficar. Eu queria dizer algo. Queria agradecer. Ou talvez apenas segurá-la e descobrir se sua pele era tão quente quanto parecia. Mas antes que qualquer palavra saísse, Ayla desviou o olhar, como se temesse o que poderia encontrar em mim. O selo estava temporariamente contido. Mas o que eu sentia por ela? Isso, eu não sabia se algum dia poderia conter. Minhas mãos se fecharam em punhos enquanto eu lutava contra a sensação sufocante de impotência. Ayla se apoiou em uma árvore próxima, seu corpo frágil diante da batalha que travava por mim. Meu peito apertou ao vê-la tão exausta, tão vulnerável, e a culpa pesou como correntes ao redor do meu coração. Ela estava arriscando tudo por mim. E eu? Eu sequer sabia se tinha forças para enfrentar o que estava por vir. Respirei fundo, buscando coragem para perguntar o que temia. — O que acontece agora? — minha voz saiu mais grave do que eu esperava, carregada de uma inquietação que não conseguia esconder. Ayla ergueu o rosto para mim, e um pequeno sorriso cansado curvou seus lábios. Algo dentro de mim reagiu a isso, um calor desconhecido que se misturava ao medo e à incerteza. — Agora, encontramos a verdade — ela disse suavemente, como se não houvesse outra opção. — Sobre o selo. Sobre as sombras. E sobre quem você realmente é. Aquela promessa ficou pairando entre nós, densa como o ar antes de uma tempestade. Eu queria recusar, queria fingir que ainda tinha escolha. Mas a verdade era implacável. Eu podia sentir o peso dela se arrastando pelas minhas veias, me puxando para algo maior do que eu mesmo. O legado do alfa me esmagava. Mas, pela primeira vez, percebi que não precisava carregá-lo sozinho. E talvez, só talvez, Ayla fosse a única capaz de me impedir de sucumbir à escuridão.
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