Capítulo 11

1097 Palavras
Rick Dowson Eu não confiava na menina, mas era impossível ignorar os olhos enormes e assustados que me encaravam. Ela se agarrava a Ayla como se sua vida dependesse disso, como se ela fosse a única âncora em um mundo prestes a desmoronar. Parte de mim queria afastá-la, manter a distância. Outra parte sabia que já era tarde demais para isso. — Quem é você? — perguntei, minha voz mais grave do que pretendia. A menina hesitou, o olhar vacilando entre mim e Ayla, como se esperasse que alguém a resgatasse daquela pergunta. O silêncio se arrastou por um instante longo demais antes que ela murmurasse algo que me fez ranger os dentes. — Eles me mandaram. Uma onda de raiva percorreu meu corpo. Não porque a garota parecia estar nos traindo — não havia malícia em seus olhos —, mas porque suas palavras eram mais um fragmento de um quebra-cabeça que ninguém parecia querer me explicar. — Quem são eles? — forcei a pergunta, minha paciência se esgotando. O silêncio dela foi ainda mais perturbador do que qualquer resposta. Antes que eu pudesse insistir, o vento na floresta mudou. Foi sutil, mas eu senti. Sempre sinto. A tensão no ar se adensou, carregada de algo estranho, algo que não pertencia àquele lugar. — Algo está vindo. — Minha voz saiu baixa, mas firme. O calor da transformação já queimava sob minha pele. — Rick, precisamos sair daqui. — Ayla falou, sua voz tensa, mas controlada. Balancei a cabeça, sem tirar os olhos da floresta ao nosso redor. — Não adianta correr. Elas nos encontram de qualquer jeito. Ayla não respondeu de imediato, mas seu olhar para a menina me fez ceder. Ela estava certa — como sempre. A garota não sobreviveria se a luta acontecesse ali e agora. — Por aqui. — Apontei para uma trilha estreita, m*l visível entre as árvores, e comecei a caminhar. O silêncio da floresta não era natural. Não era o silêncio da paz, e sim o que antecede uma tempestade. Cada passo meu era calculado, cada ruído à distância fazia meus sentidos se aguçarem ainda mais. — Quem está atrás de você? — perguntei, sem me virar totalmente para a menina. Ela demorou, mas sua resposta veio carregada de medo. — Aqueles que querem o símbolo... e o que ele protege. Parei por um segundo, trocando um olhar com Ayla. Ela não me encarou, mas o símbolo em sua mão brilhou de forma irregular, como se reagisse à presença da menina. Ou talvez à ameaça que nos seguia. — O que ele protege? — perguntei, dessa vez olhando diretamente para Ayla. Ela evitou meu olhar, focada em manter o ritmo. Mas antes que pudesse responder, um som cortou o ar. Um uivo. Não um uivo de lobo, mas algo distorcido, quase humano. Um som que carregava algo visceral, primal. Meu instinto gritou em alerta. Imediatamente, ergui uma mão, sinalizando para que Ayla e a menina ficassem atrás de mim. — Estão aqui. — Minha voz saiu como um rosnado baixo, e minha transformação começou a se completar. — Rick, não podemos enfrentá-los sozinhos. — Ayla sussurrou, o tom de urgência em sua voz evidente. Meus olhos brilharam sob a lua crescente. Meus músculos enrijeceram. Um frenesi primal tomou conta de mim. — Não estou sozinho. Você está comigo. — Minha resposta não foi apenas uma afirmação. Foi um desafio. A floresta se encheu de sombras em movimento. O confronto era inevitável. E então elas vieram. Saíram das sombras como fantasmas, rápidas, torcidas, famintas. Não eram apenas mais numerosas—pareciam mais ferozes, mais desesperadas. Um rosnado escapou da minha garganta quando avancei sem pensar, guiado pelo instinto que pulsava em cada fibra do meu corpo. Minhas garras encontraram carne e ossos retorcidos, rasgando a primeira criatura com um golpe preciso. O cheiro ácido do que quer que fosse seu sangue queimou minhas narinas, e um segundo depois outra investiu contra mim. A adrenalina rugia em minhas veias, mas eu sabia que não seria suficiente. Elas não paravam. — Ayla! — gritei, lutando contra outra onda que se aproximava como uma maré de sombras. — Faça o que precisa fazer! Ela não respondeu, mas eu senti a energia ao redor mudar. O símbolo em sua pele pulsava, crescendo em intensidade até iluminar a floresta escura como um farol no meio do caos. As criaturas hesitaram. Só por um momento. E então voltaram com ainda mais fúria. Elas sabiam. Sabiam que Ayla era a chave. Eu continuei lutando, ignorando a dor que ardia em meu corpo, ignorando o cansaço que ameaçava me puxar para a exaustão. Cada golpe meu parecia menos eficiente, como se estivessem ficando mais resistentes. Ou talvez eu estivesse ficando mais fraco. Então veio a explosão de luz. Um clarão ofuscante rasgou a noite, como um raio atingindo o coração da floresta. Uma onda de energia varreu tudo ao redor, empurrando as criaturas para trás e empurrando até mesmo a mim. As criaturas gritaram. Um som horrível, inumano. Um eco de dor e desespero que reverberou pelo ar antes de sumirem de volta nas sombras. O silêncio caiu como uma lâmina afiada. Eu estava ofegante, os olhos fixos em Ayla. Ela estava ajoelhada no chão, o símbolo agora apagado, e a menina ainda agarrada a ela. — Isso não foi o suficiente. A voz da garota cortou o silêncio como um sussurro sombrio. Eu franzi o cenho, tentando entender. — Como assim? Elas foram destruídas. Ela balançou a cabeça, lágrimas escorrendo por seu rosto pequeno e sujo. — Não. Elas não foram destruídas. Elas sempre voltam. Elas nunca param. Uma onda fria subiu pela minha espinha. Olhei para Ayla, e algo dentro de mim se contorceu quando vi a expressão dela. Culpa. Medo. — Ayla... o que está acontecendo aqui? O que você não está me contando? Ela me encarou, finalmente, e naquele instante eu soube. Ela não estava assustada com as criaturas. Ela estava assustada com o que estava prestes a dizer. — Elas estão atrás de mim, Rick. — sua voz era um fio de desespero. — Não por causa do que fiz... mas por causa do que sou. As palavras dela pesaram no ar como uma sentença. Eu olhei para ela, para a menina, para o símbolo apagado. Tudo começou a fazer sentido. Mas não era o tipo de verdade que eu queria ouvir. Meus punhos se cerraram, o peito subindo e descendo com a respiração acelerada. — E eu? — minha voz saiu mais dura do que eu pretendia. — Onde eu entro nisso?
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